Luciano Barata, “Rosto do Ano Teatro” - Barreiro“Tive em 2007, se calhar, o ano mais alto, em termos de produção teatral”

Por Jornal Rostos
Nasceu no Cabril, distrito de Coimbra, mas foi no Barreiro que se apaixonou pelo teatro. Tinha dezassete anos e morava ao lado do Grupo Recreativo Quinta da Lomba. E começou a ser-lhe aguçada a sensibilidade para essa arte. A poesia entrou-lhe no sangue e efervesceu, fazendo-lhe brotar uma chama que diz permanecer intacta. Nos intervalos dos bailes começou a “defender personagens” e percebeu que era isso que queria fazer para o resto da vida. Mas o caminho quis que enveredasse pela encenação. Um caminho luminoso que em 2007 fez com que estreasse nos palcos quatro peças diferentes. Hoje abraça quatro projectos de teatro e apesar de dizer que o tempo não lhe permite, não deixa de revelar o desejo de vestir também outro papel, o de actor.
“Descobri nesses anos que era muito sensível aos textos e à poesia”
Apaixonado pelo teatro desde os dezassete anos. Como começou esse enamoramento?
“Morava mesmo ao lado do Grupo Recreativo Quinta da Lomba, que promovia pontualmente pequenas actividades. E um dos membros, que tinha sensibilidade para as artes, nomeadamente para o teatro e para a poesia, começou a agarrar naquela malta mais jovem e incutiu-lhes o gosto pela leitura, pela poesia e pelos pequenos textos de teatro que eram encenados por ele e que, no intervalo de um dos bailes, eram mostrados ao público. Descobri nesses anos que era muito sensível aos textos e à poesia. Ouvia falar no Zeca Afonso, no Adriano Correia de Oliveira e comecei a ouvi-los e dava por mim com uma lágrima no olho, sempre que ouvia poesia”.
“O que me levou acima de tudo ao teatro foi a poesia”
A poesia é outra das suas paixões. Considera que o teatro também alimenta esse gosto pela palavra?
“Claro. O que me levou acima de tudo ao teatro foi a poesia, a palavra escrita, a melodias das sílabas. Apareceram os textos da Florbela Espanca, do Eugénio de Andrade, do Fernando Pessoa e só depois aparece o teatro. Porque o teatro, na verdadeira acepção da palavra, apareceu na minha vida depois da carreira militar”.
“Tenho a impressão de que nunca estive a trabalhar durante o dia numa outra profissão, que à noite não tivesse um escape, para fazer teatro directamente ou para dirigir grupos”
E tornou-se numa paixão permanente, mesmo não tendo sido essa a sua formação profissional…
“Eu passei sempre ao lado desta área. A minha formação profissional é, desde os 14 anos na área da metalomecânica. Entrei para uma oficina de metalomecânica e à noite ia estudar. Comecei no teatro superficialmente e depois quando fui mobilizado para fora. na altura da tropa, depois em Luanda é que tirei a secção de Letras do Liceu”.
Porque já ai estava o bichinho do teatro…
“Sim, começou o bichinho do teatro e ficou a vontade de evoluir em termos académicos. Quando regressei, continuei a escola, sempre a nível secundário, tentei o ensino superior, mas já tinham passados imensos anos e já não consegui entrar, porque queria continuar uma carreira paralela. Profissionalmente, como entrei aos 14 naquela área, fui continuando, depois passei para a preparação de trabalho, sempre na área da manutenção mecânica. Mas sempre a dirigir grupos. Tenho a impressão de que nunca estive a trabalhar durante o dia numa outra profissão, que à noite não tivesse um escape, ou para fazer teatro directamente ou para dirigir grupos”.
Solidário, amigo e coerente
No seu blogue, tem um perfil onde utiliza as palavras: educado, solidário e amigo. São esses os adjectivos que melhor o definem?
“Acima de tudo dão-me pistas para continuar a sê-los. A ser solidário, amigo e a ser coerente, educado. Se calhar são balizas, que eu lá tenho, que alicerçam aquilo que penso que tenho de continuar a seguir na vida, a reger este caminho”.
“A paixão que me levou até ao teatro permanece intacta e efervescente”
Continua envolvido em muitos projectos de teatro, não só aqui no Barreiro e é considerado por muitos como um mestre do teatro.
“Isso deixa-me um bocado arrepiado, porque mestres reconheço eu noutras pessoas”.
Mas também já fez muito pelo teatro aqui no Barreiro…
“Sim, tento fazer mas isso acontece de uma forma natural, porque é a minha paixão. A paixão que me levou até ao teatro permanece intacta e efervescente. Mas reconheço mestres e tenho aprendido muito com eles”.
“Mestres que eu reconheço, que me ensinaram, se calhar, a pensar em continuar a desenvolver o teatro”
E quais são esses mestre?
“São pessoas que me ensinaram a gostar de teatro. Talvez o meu primeiro encenador, que se chama Firmino Maia, um homem do Porto que veio parar ao Barreiro, não sei porque motivo. E foi com ele a minha primeira peça de teatro a sério, que se chamava “A Mordaça”, de Alfonso Sastre. Se calhar a minha grande referência no teatro dramático foi essa peça. Onde descobri, com ele, com essa peça e com a personagem que tinha para defender, que era aquilo que queria. Nas cenas dramáticas, ficava lívido de emoção. Eu desprendi emoções em catadupa e foi isso que me fez dizer: “É isto que eu quero fazer”, de uma forma profissional ou menos profissional. Curiosamente, já naqueles anos, gostava de uma pessoa que fazia teatro no Barreiro e que continua a fazer, que é o Graciano Simões, um encenador que admirava imenso. Isso é que são mestres. Mestres que eu reconheço, que me ensinaram, se calhar, a pensar em continuar a desenvolver o teatro”.
“Sentimos o dinamismo e o manancial de experiências teatrais e de sensibilidades que têm de nos deixar orgulhosos”
Acha que o teatro já está enraizado no Barreiro?
Estou esperançado que sim. Nós olhávamos há pouco tempo para o passado e víamos que as escolas, ou grupos, ou as sensibilidades para o teatro, eram tão poucas que até nos envergonhávamos. Nós, aqueles que gostávamos do teatro. Hoje, olhamos para o lado e já constatamos que existem outras sensibilidades. O ARTE VIVA, imposto como Companhia semi-profissional, com espaço próprio, e que podemos dizer que já há um espaço de lazer a sentir o teatro. Depois temos o AMAC (Auditório Municipal Augusto Cabrita) que é outra referência de teatro na cidade, vemos que o TEB (Teatro de Ensaio do Barreiro) continua a lutar com todas as forças do passado. Encontramos o PROJÉCTOR, um dos grupos que coordeno, que entrou no seu 12º ano. Olhamos para o outro lado e encontramos o Vigilâmbulo Caolho, que tem quatro ou cinco anos. E já sentimos esta palpitação, em que vai havendo teatro. O TESFAL, que recomeçou e que vai no seu segundo ano. E olhamos para esta cidade, onde havia pouco registo de teatro e já sentimos o dinamismo e o manancial de experiências teatrais e de sensibilidades que têm de nos deixar orgulhosos”.
Maior assiduidade no teatro
E como define o público do Barreiro?
“Pelo acréscimo de companhias e de grupos residentes na cidade, claro que isso leva forçosamente a uma maior assiduidade de gente no teatro. Outra perspectiva é que nas escolas, através das vertentes artísticas, e na televisão, através das séries portuguesas, o interesse nos jovens está a ser despertado e isso faz com que se sensibilizem e comecem a olhar ao redor, na cidade onde vivem, onde já vai havendo teatro, nesta e na outra freguesia. Ainda não é o ideal, mas se calhar caminhamos para aí.”
“Acima de tudo foi um ano muito importante para mim”
Falando agora de alguns dos projectos que coordena. Em relação ao Grupo de Teatro - Projéctor, o ano de 2007 foi um ano muito importante, mudaram de espaço, estrearam duas peças…
“Acima de tudo foi um ano muito importante para mim. Como cidadão, como encenador, como coordenador, como homem apaixonado pelo teatro. Tive em 2007, se calhar, o ano mais alto, em termos de produção teatral. Estreei quatro trabalhos. Modéstia à parte, se calhar é difícil que um encenador, que não viva disto profissionalmente, consiga pôr de pé durante um ano, quatro trabalhos. Em Fevereiro estreei uma peça de uma autora portuguesa chamada Teresa Rita, “Sopinhas de Mel”, com um dos grupos que já dirijo há sete anos, o TELA, de Águas de Moura. Em Março estreei a “A Boa Alma de SetSuan”, pelo PROJÉCTOR. Em Junho estreei “O Baile”, com uma das turmas da UTIB Teatro e em Dezembro estreei, com os mais jovens do grupo PROJÉCTOR, “A Máquina do Teatro”. Foram quatro trabalhos profundos de teatro que estreei”.
E está agora envolvido em quatro projectos de teatro…
“Sim. Falando do PROJÉCTOR, acho que em 12 anos foi a primeira vez que teve duas peças em cena no mesmo ano e isso por termos mudado de instalações. Desde Setembro de 2007 que passámos para “Os Franceses”, o que fez com que tivéssemos outras capacidades em termos de espaço. N’ “Os Franceses” estreámos o segundo trabalho e já tínhamos em ensaios desde Maio, a “Adriana Mater”, do escritor árabe Amin Maalouf, onde estou a fazer assistência de encenação e depois em Dezembro começámos com mais um trabalho de leituras, com “O Urso”, de Tchecov. E a nível pseudo profissional, continuo a dar aulas na UTIB.
“Estes são os meus patamares para o teatro em 2008, vou com certeza estrear mais quatro trabalhos”
Em relação à Universidade da Terceira Idade (UTIB), disse numa entrevista que logo que lhe foi feito o convite, disse o sim. No segundo ano lectivo como professor de teatro, como está a ser essa experiência?
“Este ano tenho duas turmas, a do ano passado, que é a turma A, que continua a fazer espectáculos de “O Baile”, no dia 9 de Março às 16 horas nos Bombeiros de Salvação Pública, no dia 15 de Março às 21h30, no Grupo Dramático e Recreativo Os Leças, que recebe a mesma peça a 16 de Março às 16 horas. E estamos a trabalhar três dias por semana numa Revista que se chama “O Raio das Coristas”, para estrear no final do ano lectivo, em Junho. Com a turma B, fiz o trabalho de iniciação teatral e já comecei este mês a trabalhar num texto do Hélder Costa, que se chama “Vidas a Preto e Branco”, para estrear em Maio ou em Junho, antes da outra. E em Águas de Moura, no concelho de Palmela, estou a dirigir, com base nas “Vedetas” de Lucien Lambert, a peça “Audições”, para estrear em 5 de Abril. Estes são os meus patamares para o teatro em 2008, vou com certeza estrear mais quatro trabalhos”.
“Gostava de fazer um trabalho, nem que fosse um monólogo”
E onde fica o espaço para o trabalho enquanto actor?
“Gostava de fazer muito mais e não faço porque o trabalho de direcção preenche-me imenso. O último trabalho que fiz como actor foi em substituição de um elemento da peça “A Boa Alma de SetSuan”, que adoeceu. Dizia há alguns dias n’ “Os Franceses” que gostava de fazer um trabalho, nem que fosse um monólogo e convidei até uma amiga para saber se estaria disposta a dirigir o trabalho e ela disse que sim, mas ainda não está nada decidido”.
“Se me perguntarem, como é que o teatro me preenche em toda a sua envolvência, eu digo que é a defender uma personagem”
Consegue dizer, qual o papel que mais gosta de vestir, em cima do palco, como actor, ou fora dele, como encenador?
“Não. Eu fui levado para a direcção de actores muito cedo e nunca mais parei. Quando pensava que ia continuar a pôr em prática a formação que tinha adquirido em termos de trabalho de actor, vi-me na contingência de dirigir, porque era na altura o actor mais velho, tinha cerca de 30 anos. Se me perguntarem, como é que o teatro me preenche em toda a sua envolvência, eu digo que é a defender uma personagem, o trabalho de actor. Aliás, foi isso que me levou ao teatro. Pois, quem diz uma poesia está a representar. Talvez por isso me refugie em interpretar poesia a todo o instante”.
E sendo outra das suas paixões, a escrita de poesia, já pensou na publicação de um livro?
“Há muita gente que me estimula, até por gentileza, mas vamos ficar por aqui. O blogue é como um escape, onde vou publicando coisas minhas que têm o valor que têm.
A dança…
E a dança, como é que vai essa aprendizagem?
Isso é uma brincadeira. Porque tenho ali uma colega na UTIB, que é minha aluna no teatro e que é a professora de dança e quando tínhamos danças no espaço de teatro, ela dizia-me que tinha ‘pé de chumbo’ e que tinha de ir para a aula dela para apreender a dançar.
“Fico muito lisonjeado e agradecido a quem falou em mim”
Como reage à distinção de “Rostos do Ano do Teatro”?
“É um reconhecimento que agradeço. É mesmo para usar daqueles chavões, quando as pessoas dizem: ‘Eu não estava à espera’. Fico muito lisonjeado e agradecido a quem falou em mim, porque no fundo é um reconhecimento do trabalho que fiz”.
Andreia Catarina Lopes













