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Perspectivas

Santa Casa da Misericórdia Barreiro, “Rosto do Ano Solidariedade”Distinção–“Com o peso que a Instituição tem na comunidade, acho que deveria ter sido a primeira”

A Santa Casa da Misericórdia do Barreiro, uma Instituição que está no concelho há já 447 anos, tem vindo a desenvolver um trabalho meritório na área da acção social, acolhendo cerca de 500 pessoas, nas suas mais diferentes valências, que abrangem desde a população mais velha, aos mais novos.

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Santa Casa da Misericórdia Barreiro, “Rosto do Ano Solidariedade” Distinção–“Com o peso que a Instituição tem na comunidade, acho que deveria ter sido a primeira”

Por Jornal Rostos

Júlio Freire é provedor da Instituição e do ano de 2007, diz ter sido o “pontapé de saída” para a concretização de uma ideia, já com dez anos, a construção da Unidade Hospitalar de Cuidados Continuados Integrados e das Residências Assistidas. Valências que considera essenciais para conceder à população mais idosa maior dignidade e conforto, quando considera que estas questões não têm ainda a atenção que deveriam.

“Dos utentes lares das Misericórdias, 70 ou 80 por cento das pessoas deviam estar em Unidades de Cuidados Continuados”

No ano de 2007 conseguiu ver mais de perto a concretização de uma ideia já com dez anos, que é a Unidade Hospitalar de Cuidados Continuados Integrados e as Residências Assistidas, como vê a materialização destas duas valências?
“Talvez tenhamos sido a primeira instituição a definir um projecto para conseguirmos resolver esse problema. E porquê? Porque dos utentes dos Lares das Misericórdias, 70 ou 80 por cento das pessoas deviam estar em Unidades de Cuidados Continuados, porque são pessoas com grandes dependências. Os Lares que a Misericórdia tem não estão preparados para receber essas pessoas, que acabam por não ter o melhor atendimento e acabam por afectar também os que lá estão. E isso é uma violência”.

“No fundo, a Unidade Hospitalar de Cuidados Continuados fecha o círculo”

E qual é a grande importância da Unidade Hospitalar de Cuidados Continuados Integrados?
“No fundo, a Unidade Hospitalar de Cuidados Continuados fecha o círculo. Temos dois Lares, temos o Apoio ao Domicílio e o Centro de Dia e o que definimos foi: tínhamos estas quatro valências, que eram fundamentais, faltava-nos aqui uma, que era o Hospital de Cuidados Continuados. Há dez anos atrás, quando começámos a ver isto, tínhamos consciência do problema. Hoje o problema já é para pior”.
Devido ao envelhecimento demográfico…
“Hoje temos mais pessoas grandes dependentes no Lar de Idosos que não deviam estar no lar e também temos mais pessoas em casa que deviam estar aqui. O Hospital de Cuidados Continuados é fundamental para a população idosa do Barreiro. Quanto mais tarde, pior. Há pessoas com grandes dramatismos em casa, o que se desenvolve em toda a família”.

“É um Hotel, no fundo, onde as pessoas têm o seu espaço reservado, o ser quartinho”

E o papel das Residências Assistidas?
“As Residências Assistidas são residências de alta qualidade e de alta segurança. Pois são fundamentalmente as questões de segurança que levam a que uma pessoa que sempre viveu em casa, resolva sair da sua casa. As pessoas chegam a determinada hora do dia e já não saem de casa, têm medo e são essas questões que as levam a querer ficar acompanhadas, num sítio onde estejam em segurança. Aqui garantimos alta segurança, com uma portaria a funcionar 24 horas por dia, com médico e enfermeiras também 24 horas por dia. Portanto, para além da segurança, temos os problemas de saúde resolvidos, pois temos também o Hospital a 500 metros. Temos um serviço que deverá ser exemplar, mas é evidente que isto paga-se. Não podemos ter um serviço destes e perder dinheiro. É um Hotel, no fundo, onde as pessoas têm o seu espaço reservado, o ser quartinho. Vão ter 111 camas, em quartos individuais e quartos duplos. Pensamos também em fazer um restaurante para ser servido à carta, não só com duas dietas, como fazemos para os Lares, e pensamos que seja feito no último piso, com vista panorâmica, onde as pessoas possam estar e que possa ser altamente acolhedor”.

“Nós aqui investimos para ter lucro social, para podermos investir noutras áreas sociais”

E já há alguns valores estimados?
“Não, ainda não fizemos estudos de mercado. Quero ver ainda “in loco” o que está a ser feito pelo país. O que está a ser feito é muito bom mas queremos ser os melhores. Queremos ter um espaço de alta qualidade. E isto é um bem para a população, isto aqui não é para ter lucro. Há uma certa confusão entre lucro social e lucro empresarial. E é esta a diferença: no lucro empresarial, investe-se para ver, no final do ano, recuperado parte do investimento, nós aqui investimos para ter lucro social, para podermos investir noutras áreas sociais, nos lares, nos sem-abrigo…

Valências aumentam, em mais de metade, o número de trabalhadores

O ano de 2007 foi então muito importante para a concretização destes projectos…
“Sim, foi o pontapé de saída. Depois de muitos anos a conversarmos com a Câmara, culminou no final de 2007 com a Câmara a dizer: ‘Está resolvido este problema, onde fazer isto?’
O que ficou definido depois foi que as Residências Assistidas, vão ficar no lado direito, no sentido de quem entra para a Instituição, onde vai ser feito um edifício com quatro andares, no rés-do-chão vamos fazer uma Clínica de Qualidade, onde se fazem as pequenas cirurgias, como as operações às cataratas. E esta clínica é para responder a necessidades da população mas também da Santa Casa, tendo actividades que, de alguma forma, dêem suporte às actividades que temos. Os Cuidados Continuados vão ser feitos no segundo piso, por cima do Lar Nossa Senhora do Rosário.
E estas actividades, para além de aumentarem o número de utentes significativamente, aumentam, em mais de metade, o número de trabalhadores. Temos 230 trabalhadores e vamos aumentar para cerca de 340, o que também é uma vantagem para o concelho”.

“Mas também reconhecemos que o apoio desta Câmara é ainda pequenino, exigimos muito mais apoio”

E qual é a postura da Câmara do Barreiro relativamente à criação destes dois espaços?
“Tivemos uma reunião há duas semanas, e para minha grande satisfação a Câmara já tinha avançado mais um bocadinho. Pois da parte das Residências Assistidas é que havia algum problema, em saber se a Câmara autorizaria a fazer o edifício e na última reunião, que tivemos, disse que sim, que autorizaria a construção do edifício. O que demonstra uma certa colaboração da Câmara, o que não tivemos com outras Câmaras. Mas também reconhecemos que o apoio desta Câmara é ainda pequenino, exigimos muito mais apoio. Achamos que neste desenvolvimento todo que o Barreiro está a ter, a área social deveria merecer o seu cantinho e não é isso que vejo”.

“A população tem de ser chamada a discutir esta questão”

Para quando está previsto a concretização destes projectos?
“Agora depende da velocidade com que a empresa Visabera e a Câmara avancem nos projectos. O que a Visabera diz é que tem possibilidade de arrancar com os dois projectos em simultâneo. E é evidente que achamos que este projecto tem de envolver a população do Barreiro. A população tem de ser chamada a discutir esta questão.
E já estão previstas algumas iniciativas nesse sentido?
“Não, estamos à espera que a Visabera comece o estudo, para que com alguns estudos feitos possamos começar a levá-lo à população. Porque até se a população estiver envolvida, somos capazes de conseguir alguns apoios, é esse o nosso objectivo também, ver até que ponto é que a população se interessa por um projecto destes. Se não se interessar, abandonamos o projecto. Mas penso que é um projecto de tal forma interessante para a população que vão haver contributos”.

Cozinha em obras - Ministério da Solidariedade financia 80 por cento do equipamento

Lembro-me de terem falado da necessidade de se fazerem obras na cozinha, e de precisarem de um autocarro, como estão a ser respondidas essa necessidades?
“A cozinha está a ser feita, só pelo nosso esforço, são cento e tal mil euros. Felizmente, conseguimos convencer o Ministério da Solidariedade a financiar em 80 por cento o equipamento. Esta cozinha é já para servir a Unidade Hospitalar de Cuidados Continuados, em que teremos mais de 200 refeições por dia. Quanto à questão do autocarro, a Câmara não está virada para aí.”

Necessidade premente de mais um lar no concelho

Tem dito que o Barreiro é uma das terras que mais necessita de outro lar e a respeito dessa carência, que considera tão premente, já há alguma solução à vista?
“Podemos ver aqui o exemplo da Moita que tem três lares e nós temos dois. Porque a Câmara interessou-se, aqui nunca tivemos uma Câmara que agarrasse este problema. É uma pena que tenho”.
Considera que a Câmara poderia apostar na resolução desse problema…
“Não poderia, deveria com toda a urgência. Porque é dramático. Ouve-se falar: ‘Vamos fazer isto e mais isto.’ E é para quem? Qualquer dia não é para ninguém, porque isto é uma cidade de idosos”.
Mas já houve conversações nesse sentido…
“Sim, tem havido conversações, a Câmara tem tido grande abertura em relação a esta questão. Achava que poderíamos ter aceso a um terreno no Alto de Palhais, nós estávamos interessadíssimos, como era evidente, só que aquele terreno estava definido, na doação de alvará, com a valência de creche”.

Rostos do Ano Solidariedade – “Com o peso que a Instituição tem na comunidade, acho que deveria ter sido a primeira”

Uma última pergunta, enquanto provedor da Santa Casa, como reage à distinção de “Rosto do Ano da Solidariedade”?
“Para ser sincero desconheço qual é o significado. Não sei qual é o peso que tem na comunidade”.
É uma distinção de um jornal local…
“Então acho bem, mas acho que já deveria ter sido feita há muitos anos. Acho que vem tarde. Uma instituição que já tem 447 anos… Com o peso que a Instituição tem na comunidade, acho que deveria ter sido a primeira”.

Andreia Catarina Lopes

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