David Leite das Neves, “Rosto do Ano Jovem” - BarreiroO "Prémio ISEG envolveu muito trabalho, dedicação e empenho”

Por Jornal Rostos
Como surgiu a ideia do trabalho "Responsabilidade Social Empresarial – um Pilar da Sustentabilidade", com o qual foste galardoado com o Prémio ISEG 2007 Santander Totta?
“Era uma ideia que já se ia formando dentro de mim desde muito criança, porque enquanto barreirense o território C.U.F é, de certa maneira, omnipresente. Habituei-me desde muito cedo a atravessar aquele cenário pós-industrial e aquilo despertava em mim uma grande curiosidade. Quando cheguei ao 12º ano conjugaram-se dois factores: os sessenta anos da Escola Alfredo da Silva e os cem anos da implementação da C.U.F no Barreiro, que vieram contextualizar este projecto que começou por ser um trabalho para a disciplina da Área de Projectos. Depois tivemos várias visitas às faculdades de economia de Lisboa e no Instituto Superior de Economia divulgaram este prémio e comecei a investigar mais sobre a C.U.F”.
O que é que te levou a interessares-te por um tema que faz parte da história do Barreiro?
“Interesso-me pelo passado para compreender o presente. Mas interessei-me mais pela lição que a C.U.F nos dá, que constitui um exemplo para os dias de hoje, porque descobriu que modernizar-se e crescer não era só investir em equipamentos tecnologicamente evoluídos, mas era fazer também um efectivo suporte social aos seus trabalhadores e isso é que contribuiu para o seu crescimento quase exponencial, desde 1907, quando se estabeleceu aqui. Claro que não nos podemos esquecer de todo o contexto histórico, mas esta política social é verdadeiramente inovadora. Nas ciências sócio-económicas, a história serve-nos para pegarmos nos bons exemplos e transportá-los para os dias de hoje e essa é a lição da C.U.F”.
E o que concluíste com essa investigação?
“O que observamos com a Companhia União Fabril, e apesar de todas as críticas que lhe podem ser imputadas, e são muitas e eu também as reconheço, porque a política era fomentada por uma necessidade de pacificar classes sociais, que também era, de certa forma, uma remuneração indirecta do factor trabalho. Mas estas duas componentes ajudam a explicar que o que a C.U.F fazia para os seus trabalhadores ia para além disso. A C.U.F., em termos de assistência social, foi um marco histórico no paradigma empresarial português dos anos 50, 60 e 70, porque os empresários não se preocupavam com essas questões e o Estado tinha um alcance muito limitado. Mas os avanços que fez foram superiores a estas duas questões. E, nessa altura, em que o paradigma era remunerar o capital investido, assim como actualmente, a C.U.F alarga as suas responsabilidades sociais, não só aos accionistas mas também aos trabalhadores e depois, infinitamente inovador, alarga não só as responsabilidades que tem para com as famílias dos trabalhadores mas também para com a população onde se encontra inserida, beneficiando, em termos sociais, todo o Barreiro”.
O trabalho começou por ser para uma disciplina da escola, o que é que te levou depois a participar no concurso?
“O trabalho era à partida de âmbito nacional mas nunca sabemos se podemos ganhar, o máximo que pudemos fazer é esforçarmo-nos. Mas digamos que os incentivos eram muito apelativos. O que me permitiu estar a fazer o meu curso com uma bolsa de mérito, também houve um prémio monetário que era relativamente bom. E o prémio é prestigiante mas comecei a trabalhar neste tema muito antes de saber do Prémio ISEG, a curiosidade por este tema não foi despertada pelos incentivos do prémio. Depois quando decidi que ia concorrer tive de fazer uma coisa muito mais profissional e tive a felicidade de ter ganho”.
Hoje, passado um ano, o que mudou na tua vida?
“Foi a definição mais precisa do caminho académico que queria escolher. Estou no primeiro ano do curso de Economia no ISEG. No secundário estive indeciso entre duas áreas, Direito e Economia e apesar de o prato da balança pender sempre mais para o lado da Economia, andava com uma certa indecisão e fazer este trabalho fez com que ficasse mais definitivamente convencido de que ia para Economia e hoje não estou nada arrependido”.
O teu trabalho foi muito elogiado, considerado como uma referência e um exemplo positivo que dignifica o Barreiro e a sua juventude. Como é vestir essa pele de exemplo?
“Não sei muito bem como é vestir essa pele de exemplo. Foi uma coisa que fiz no âmbito académico e que acabou por ser reconhecida, mas por detrás disso está todo o esforço que temos de fazer. Porque muitas vezes a ideia de mérito está desligada de trabalho e que ter mérito é ter sorte na vida e não é bem assim. Para mim o ter mérito resulta de trabalhar diariamente e é preciso esforço, dedicação e empenho. Mas nós somos humanos, isto não é constante. Agora a ideia do mérito e do exemplo positivo, isso agrada-me, não estou aqui com falsas modéstias. Mas a questão do Prémio ISEG envolveu muito trabalho, dedicação e empenho”.
Enquanto jovem do Barreiro, consideras que a juventude que hoje vive no Barreiro é participativa, preocupada e interventiva na vida do concelho?
“A juventude que conheço melhor são as pessoas que apostam nas suas qualificações e na carreira académica, que estão bem mas que estão um bocado desiludidas com o Barreiro, porque o Barreiro não lhes oferece grandes condições de vida aqui. Conheço uma parte da juventude que se ficasse no Barreiro penso que ia dar grandes contributos para o desenvolvimento desta terra. Mas depois também há uma parte da juventude, que me preocupa muito, porque são pessoas que desistem da escola, por uma razão ou por outra, e sobretudo tem a ver com razões materiais e que adoptaram, às vezes, por comportamentos de marginalidade. Mas não podemos estar a adoptar uma postura cínica, se tive sucesso, tive-o também porque sempre tive uma família que me apoiou e não tive qualquer tipo de carência”.
Fala-se já há muito da constituição de um Conselho Municipal da Juventude, que parece que vai ser criado. Quais são as necessidades que achas que existem no concelho em relação aos jovens, até para fomentar a sua participação?
“Acho que a participação dos jovens é importante. Mas quando falamos de participação há que ter em conta este aspecto, actualmente os jovens estão divididos, metade vota, metade não vota. Muitos não estão sequer recenseados. Depois a percepção que tenho é de que a juventude não quer saber da discussão dos partidos, têm uma ideia geral da concepção da sociedade mas não há o mínimo de paciência para estar a ouvir aquelas discussões das juventudes partidárias e dos Partidos”.
A política continua a estar desacreditada junto da juventude…
“Sim, está muito desacreditada. Fazem disputas que já nem são ideológicas e isso não interessa a ninguém. Acho que o que interessa aos jovens do Barreiro são questões muito práticas. Se fossem criados espaços para isso, de certeza que os jovens iriam intervir. Por exemplo às sextas-feiras e sábados à noite, e se não fosse economicamente viável, pelo menos durante um dia por semana, ligações fluviais de hora a hora ou de duas em duas horas a Lisboa, o que não existe, os transportes acabam às duas da manhã, os autocarros a mesma coisa. Em termos de segurança, de limpeza também. E em relação ao Barreiro Velho, está decrépito. A noite do Barreiro não tem espaços diferenciados, está descaracterizada e isso também contribui para que as pessoas se queiram ir embora daqui”.
Se houvessem espaços mais aliciantes para se encontrarem isso acabaria por motivar os jovens a querer ficar no Barreiro…
“Sim, o Barreiro Velho podia ser um sítio à semelhança do Bairro Alto ou da Almada Velha. Acho que as necessidades da juventude do Barreiro são necessidades em termos de segurança, de transportes públicos, são a necessidades de espaços nocturnos diferenciados e depois condições para estudar, não vou muito ao Espaço J, devo confessar, mas aquilo está sempre a abarrotar. Em termos de participação social, não sei como vai ser organizado o Conselho Municipal da Juventude, mas o que interessa aos jovens não são discussões politico-partidárias abstractas sobre políticas de juventude, são estas questões concretas”.
Uma última pergunta, como reages à distinção "Rosto do Ano Jovem"?
“Encaro esta distinção surpreendido, por um lado, agradado por outro, encaro também numa perspectiva realista, porque o mérito não está divorciado do trabalho, é preciso trabalhar muito. Fico contente que o esforço que fiz, no âmbito académico, tenha sido reconhecido, mas não estou iludido, ainda tenho muito, muito para evoluir. Ainda sou estudante de Economia, ainda tenho de estudar muito”.
Andreia Catarina Lopes













