António Oliveira – “Rosto do Ano Comunicação Social” Barreiro“No Barreiro há pessoas com muita qualidade a escrever”

Por Jornal Rostos
Como surgiu o gosto pelo jornalismo?
“Na altura de transição para o 10º ano tinha aquele gosto pelo desporto e a vertente que tinha desporto era outra que não a de humanidades. E apesar de não ter más notas, não gostava de físico-química nem de matemática, então pensei numa outra maneira de estar ligado ao desporto e como gostava muito e lia sempre jornais desportivos… Na altura foi muito por isso. Depois aquele gosto mais pelo jornalismo, noutras áreas sem ser especificamente do desporto, começou a surgir depois”.
E quando é que começaste a trabalhar em jornalismo?
“Em 2006, comecei no “MaisFutebol”, fiz lá o meu estágio final e as coisas correram-me bem, acabei por ficar lá mais dois meses, na altura a fazer o Campeonato Mundial de Futebol 2006. Foram dois meses de trabalho fora da escola. Quando fazia os estágios tinha sempre a preocupação de tentar ir para essa área, por um lado acho que foi um erro que cometi, em procurar sempre o desporto, acho que nessa altura devia de ter aproveitado para explorar outras áreas. Depois quando estava a terminar esses dois meses de estágio, houve a possibilidade de ir para a “Lusa”. Havia uma reformulação dos correspondentes da “Lusa”, e era preciso alguém que fosse aqui desta zona e como morava aqui, indicaram-me e fui lá e parei dois dias depois de sair do “MaisFutebol” e comecei a trabalhar na Lusa logo em Agosto”.
O que mais te motivou a ir trabalhar para uma agência de notícias de âmbito nacional?
Na altura foi a primeira possibilidade, não tive aquela fase de acabar o curso e de parar e de mandar currículos. Acabou por acontecer. Tive alguma sorte, nesse aspecto. E fui para a Lusa e há toda aquela fase que ainda decorre de aprendizagem do que é a “Lusa”, um órgão de informação nacional".
Completamente diferente do trabalho do “Notícias do Barreiro”, decerto. Quando começaste a trabalhar lá?
“Comecei na Lusa em Agosto de 2006 e depois penso que em Novembro comecei a trabalhar no ‘Notícias do Barreiro’”.
Como é conciliar a actividade em dois órgãos de comunicação tão distintos?
“A maior dificuldade é ao nível de tempo. Porque para a Lusa, nem tudo o que são trabalhos aqui no Barreiro, tenho de os fazer. Num órgão de comunicação local tens de lá estar, podemos ter esse espaço para fazer trabalhos diferentes, que gosto de fazer, mas temos de lá estar. Para o “Notícias do Barreiro” interessa tudo o que se passa no Barreiro, para a Lusa nem tudo interessa, temos de ter uma abordagem mais nacional”.
Há quem diga que o jornalismo local é a melhor escola para se começar a trabalhar. No teu caso, isso não aconteceu, mas pela tua experiência num jornal local e numa agência noticiosa nacional, qual é importância que achas que detém a imprensa regional, cuja grande vantagem é a proximidade com a população?
“Como correspondente da Lusa, acabo também por estar muito próximo, porque é esse o meu trabalho, é estar aqui e conhecer os locais, também tive sorte nisso. Quando fiz a transição para a "Lusa" houve ali uma grande aprendizagem, o que é trabalhar para uma agência, uma série de regras que temos de cumprir, porque estás a trabalhar para outros jornalistas, e há muitas regras a cumprir, como fazer um bom lead, uma boa notícia. Quando faço a transição para o jornalismo local já conhecia e já trabalhava no Barreiro, mas para a “Lusa”, mas já estava cá, já conhecia as pessoas, tive foi que fazer um trabalho diferente. Por exemplo, às vezes acontece-me fazer um trabalho para a “Lusa” e para o “Notícias do Barreiro”, sobre o mesmo tema, é a mesma coisa mas a abordagem é diferente. A nível local às vezes noto é uma diferença que acho que não devia de acontecer, acho que se me apresentar para fazer um trabalho da “Agência Lusa” a receptividade é muito diferente do que se disser que é para o “Notícias do Barreiro”.
Como é que notas essa diferença?
“Se se falar que a RTP, a TVI ou a SIC vem cá, a maneira como a recebem, se calhar é diferente da de que como recebem um jornal local”.
E porque achas que isso acontece, por terem uma maior projecção?
“Se calhar é pelo prestígio que têm. Mas as pessoas, às vezes, não têm bem a noção do trabalho que está aqui. As pessoas, acho que não percebem que quem faz os jornais são profissionais, pessoas que têm a sua formação e que trabalham nesta área. Acho que falta ainda perceberem tudo o que implica fazer um jornal local, porque não é fácil”.
Achas que o jornalismo local, ainda é visto, algumas vezes, como o parente mais pobre da comunicação social?
“Penso que sim, acho que as pessoas não têm uma real noção. Por exemplo, falando do caso concreto de que conheço bem, que é o “Notícias do Barreiro”, as pessoas se calhar não sabem que o Losango Mágico, o grupo a que pertence, foi dos pioneiros a nível dos gratuitos que estão agora tão em voga. E é um grupo com vários jornais distritais, em Oeiras, em Cascais, no Litoral Alentejano. São vários jornais e é feito por profissionais. E as pessoas não têm a noção de que está integrado nesta lógica.
Achas que ainda não está enraizado o hábito de leitura de jornais locais?
“Acho que não dão o reconhecimento que é devido aos jornais locais e a quem trabalha neles”.
E o que achas que falta à imprensa local para seduzir mais os leitores?
“A concorrência é grande. Os jornais são tantos e tens informação por todo o lado. É pela Internet, entras no café e estão lá os jornais do dia nacionais e as pessoas vêem os jornais locais mas não há esse hábito. A nível político interessam-se, a nível associativo também se interessam, mas a nível da população em geral, parece-me que não há aquele feedback”.
E aqui, no Barreiro, achas que isso se pode dever também ao facto de existirem tantos jornais num concelho tão pequeno?
“Sim, existem muitos. Mas são todos jornais diferentes, uns têm ângulos mais distritais, regionais e outros mais locais, como o caso do que faço que se centra mais no Barreiro. Acho que há para todos os gostos. Agora se são muitos ou não? Se calhar acabam por ser…”
Mas cada um tem o seu lugar…
“Sim, acho que sim. As pessoas também podem apontar por aí, porque o que sai num, sai noutro. Mas há aquelas coisas que fazem parte da agenda e que os jornais locais não podem fugir. Mas há sempre o espaço para cada um fazer o seu trabalho de investigação, procurar as suas histórias, contar as suas histórias. Há espaço para todos mas também tenho a opinião que isso se calhar não é muito normal, basta olhar para o concelho da Moita que tinha dois jornais”.
Dos locais por onde passaste, onde aprendeste mais?
“Os primeiros estágios foram aprendizagens mas não eram aquela grande aprendizagem, no “MaisFutebol” já houve uma grande aprendizagem, porque a confiança que transmitiam e o nível de trabalhos que fazia já tinham alguma exigência. Tu quando vais para um estágio vais com aquele receio de que vais fazer aquilo que ninguém quer fazer e ali não, ali arriscavam-te a mandar fazer trabalhos e aprende-se muito com isso e tens sempre muito trabalho e é uma correria de um lado para o outro. Na Lusa é diferente, porque há regras para cumprir, porque a notícia tem de sair limpa dali. Mas é uma grande aprendizagem a nível de editores que te explicam como deves fazer e essa é uma fase que ainda decorre. Vais sempre aprendendo. Porque há trabalhos sempre diferentes.”
Como é que reges o teu trabalho? Quais são os aspectos que tens mais em conta quando vais fazer um trabalho?
“São os factos, é saber o que se passou na verdade. Essencialmente é fazer um trabalho correcto, não estar à espera de apanhar uma expressão no meio de uma frase que virando ao contrário aparece outra história. É essencialmente fazer um trabalho correcto e um trabalho sério. E também, ao contrário do que acontecia na escola, que levava muito na brincadeira, aqui gosto de trabalhar, de procurar histórias, de arranjar notícias, gosto desse trabalho, de investigar, de tentar perceber, de conhecer e de ir ver se ali há uma história,. Gosto dessa procura”.
Como reages à distinção “Rosto do Ano da Comunicação Social”?
“É sempre bom. Até porque é a primeira vez. Comecei há dois anos a trabalhar em jornalismo e é sempre bom, ver o trabalho reconhecido, quer como “Agência Lusa”, quer como “Notícias do Barreiro”. Mas há várias pessoas que mereciam ganhar. Acho que no Barreiro há pessoas com muita qualidade a escrever. Há espaço para todos e vai haver um ano para cada um, porque há muita gente que merece e que trabalha bem”.
E como é estar do outro lado, a ser entrevistado?
“Não tenho problemas com isso, mas é a tal coisa, o estar habituado a estar no outro lado, à procura, a fazer uma pergunta e a estar já a pensar no que vais perguntar a seguir e é complicado estar do outro lado.
Sempre ouvi dizer que os jornalistas não gostam de estar no outro lado, esta foi a minha primeira experiência, assim do outro lado, e agora sim, percebo isso".
Andreia Catarina Lopes













