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Perspectivas

Hélder Madeira, “Rosto do Ano Veterano” Barreiro“Gostaria de continuar a fazer coisas para a minha terra, é o que mais desejo na vida e que o Barreiro progrida e se desenvolva”

Dirigiu o Barreiro entre os anos de 77 a 89. Quatro mandatos, nos quais Hélder Madeira diz que o que mais aflora à memória são os tempos iniciais em que as grandes questões se prendiam com as carências que o Barreiro vivia, nomeadamente ao nível de saneamento básico. Um trabalho que diz ter sido muito intenso mas “simplificado pela vontade da população de modificar as coisas”, sublinha.

Hoje, com 68 anos, é presidente da Assembleia Municipal do Barreiro, uma função que diz ser “aliciante mas mais calma”. E acabado o mandato, revela que gostava de ir tomar conta dos seus seis netos e da vida pessoal que, às vezes, ficou mais para trás. Vontade que não colide com uma outra, que também manifesta: “Gostaria de continuar a fazer coisas para a minha terra, é o que mais desejo na vida, que o Barreiro progrida e se desenvolva.”

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Hélder Madeira, “Rosto do Ano Veterano” Barreiro “Gostaria de continuar a fazer coisas para a minha terra, é o que mais desejo na vida e que o Barreiro progrida e se desenvolva”

Por Jornal Rostos

Dirigiu o Barreiro durante quatro mandatos, entre os anos de 77 e 89. Desse tempo, o que mais recorda?

“Ficaram na memória imensas coisas, porque o Barreiro estava carenciado praticamente de tudo, de saneamento básico, de abastecimento de água, equipamento para recolha de lixo, equipamentos sociais, desportivos, culturais. Mas recordo que a nossa primeira prioridade foi virada para o saneamento básico, começámos a reunir esforços, no sentido de haver uma melhor cobertura de esgotos em todo o concelho. Havia partes do concelho onde não chegavam os esgotos e a água e refiro-me a zonas como Palhais, Santo António, Penalva ou Coina. Por isso, a nossa preocupação foi fazer chegar águas e esgotos a toda a gente e melhorar substancialmente a recolha de lixo.”

E como foi esse trabalho?

“Foi muito intenso. Mas por outro lado, de certo modo, foi simplificado pela vontade da população, que era muita, de modificar as coisas. Começaram a surgir as Comissões de Moradores e toda essa gente estava disposta a ajudar e foi com a ajuda da população, aglutinada, que conseguimos avançar com muitas propostas e com muitas concretizações. Penso que esse foi um factor importante, sendo essa uma altura difícil, porque estamos a falar dos três anos após o 25 de Abril, com toda aquela efervescência.”

O que levou a que um jovem empregado de escritório viesse a ocupar um cargo político?

“Quando ocorreu o 25 de Abril, houve logo uma mudança da Câmara aqui. E logo nos primeiros dias de Maio houve a tomada de posse de uma nova Câmara com pessoas que foram indicadas pelo Conselho da Revolução e eu estava incluído entre as 19 pessoas. Praticamente logo a partir do dia 5 de Maio fiquei na Comissão Administrativa a tempo inteiro. Dividimo-nos por várias áreas da intervenção e foi aí que adquiri alguma experiência do poder local. Em 1975, já depois de aprovada a Constituição da República, sou chamado a exercer as funções de Governador Civil de Setúbal.”

Ainda antes de ser presidente da Câmara Municipal do Barreiro…

“Sim, fui Governador Civil de Setúbal de Novembro de 75 até Outubro de 76. Foram praticamente onze meses. O ter sido Governador Civil foi outro cargo que me deu alguma experiência, porque estava muito ligado às 13 Câmaras Municipais do distrito de Setúbal, embora o Governador Civil seja por definição o representante do Governo no distrito. E na altura surgia aquela lógica do povo e do Movimento das Forças Armadas (MFA) e também de uma grande participação das grandes forças políticas que apareceram no momento, que não me quero alhear disso, porque sempre fui membro do Partido Comunista Português (PCP) e é nessa qualidade até que fui convidado para ser Governador Civil, porque o PCP no distrito de Setúbal tinha uma força imensa. Depois quando foi aprovada a Constituição e as leis começam a sair e entre elas a primeira lei das autarquias, a eleitoral, lembraram-se de mim para ser cabeça de lista da Frente Eleitoral Povo Unido (FEPU) à Câmara Municipal e aquilo que respondi foi: ‘Aquilo que entenderem é aquilo que eu acato’.”

Na altura parece que a população também se manifestou nesse sentido, durante a Festa do Barreiro…

“Sim, manifestou-se. Quando nas Festas do Barreiro houve um plenário e essa questão foi colocada, as pessoas, de uma forma geral, acolheram bem a ideia e é assim que eu surjo, que penso que é de uma certa naturalidade, como cabeça de lista da FEPU e depois como presidente da Câmara, como primeiro eleito depois do 25 de Abril, porque o anterior foi uma pessoa que eu sempre prezei que é o doutor Hélder Fráguas, que aguentou aqui dois anos, com muita vontade e muito saber e de quem me recordo com muito agrado.”

E o que levou a querer exercer as funções de presidente da Câmara?

“Há uma questão que penso ser a mais motivadora do ponto de vista pessoal, que era estar aqui para ajudar o Barreiro a desenvolver-se e para resolver os problemas da população, porque para isso é que serve um presidente de Câmara. É trabalhar para resolver os problemas da população, falando com a população e eu falava muito com a população.”

O conceito da democracia participada…

“Exactamente e penso que em parte foi conseguido, em parte não foi. Porque se olharmos 30 anos para trás, as coisas eram completamente diferentes de hoje.”

E passados esses 30 anos, quais as mudanças que aponta na forma de fazer política. Na
altura, apostava-se mais na mensagem…

“Às vezes apareciam pessoas a concorrer que nem eram conhecidas, de uma forma geral, pela população. Votavam mais na mensagem e naquilo que os partidos transmitiam. Recordo-me que não houve ano nenhum dos quatro mandatos em que estive na Câmara que aparecesse um cartaz meu com o meu nome nas ruas do Barreiro. E nos outros partidos também não apareciam.”

O Barreiro também mudou, passados esses 30 anos…

“Sim, vemos que o Barreiro é diferente de há 30 anos atrás e penso que para melhor. Todas as vereações que passaram tentaram fazer alguma coisa por esta terra e penso que o Barreiro evoluiu aquilo que pôde. Penso que neste momento há condições para se desenvolver melhor.”

Com a vinda da nova ponte…

“Sim, penso que com a vinda da terceira travessia do Tejo e com aquilo que poderá trazer de benéfico para o Barreiro. Mas a nova ponte não a podemos encarar só como uma nova ponte para o Barreiro, é uma nova ponte também para resolver problemas da Área Metropolitana de Lisboa, da região e também para resolver problemas nacionais. Mas penso que poderá dar um alento diferente ao Barreiro e ao seu desenvolvimento.”

Ficam agora as expectativas…

“Sim, mas parece-me que estamos no bom caminho e que esta decisão da ponte parece-me que satisfez toda a população. De uma forma geral, quem ganhou foi a população e o Barreiro.”

Como disse há pouco, ocupou também o cargo de Governador Civil e hoje exerce as funções de presidente da Assembleia Municipal do Barreiro, um cargo que diz também “ser aliciante mas mais calmo”. O que mais gostava de fazer na política?

“Agora estou aqui na Assembleia Municipal, ininterruptamente desde 1 de Janeiro de 1990, só no mandato anterior é que não fui presidente da Assembleia. Eu posso dizer: “Eu gostaria de fazer muita coisa”. Só que chegamos também a uma idade onde as forças, anímica e física, também já nos vão faltando. Mas predisponho-me a dar o meu contributo para realizar aquilo que pensamos que seja melhor para esta terra. Podem continuar sempre a contar com o meu contributo, que pode não ser a ‘100 à hora’, mas pode ser um contributo a 60 ou a 40 quilómetros à hora, um contributo já numa escala mais reduzida. Porque quem esteve 34 anos seguidos no poder local, com um intervalo de onze meses como Governador Civil, tem um certo desgaste.”

E também ficam por fazer coisas noutras áreas, como na vida pessoal…

“Sim, a nível pessoal e familiar houve coisas que ficaram para trás. E ao princípio somos só casados, depois somos casados com filhos e depois já somos casados e temos os filhos e os netos o que nos obriga a repensar a vida de uma outra forma. Mas gostaria de continuar a fazer coisas para a minha terra, é o que mais desejo na vida e que o Barreiro progrida e se desenvolva”.

Como reage à distinção “Rosto do Ano Veterano”

“Fiquei admirado. Lembraram-se de mim nesta altura e eu só posso estar grato ao “Rostos” por essa lembrança. Vou acabar este mandato e quando o acabar tenho 70 anos já feitos e resta-me aquele contentamento e satisfação pessoal de ter feito sempre as coisas com grande amor ao Barreiro. Por outro, nunca pretendendo aproveitar-me deste cargo ou de outros que ocupei, para promoção social ou política. E é assim que me disponho a colaborar no que for necessário, com o rendimento que ainda posso dar. Agora acho que sempre procurei fazer as coisas com grande honestidade, com grande imparcialidade. Porque sempre fui uma pessoa de consensos, de querer aglutinar consensos e continuarei assim, enquanto desempenhar este cargo. Quando acabar este mandato penso que já fiz a minha obrigação e sinto-me satisfeito, embora exista muita coisa que gostava de fazer e não consegui fazer e muita coisa que não pensava fazer e que acabei por fazer”.

Andreia Catarina Lopes

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