António João Sardinha, "Rosto do Ano Cultura" Barreiro"Não ganhámos ainda a dimensão a que temos direito, em termos de autonomia cultural"

Por Jornal Rostos
Depois de dois concertos, o órgão, composto por cerca de 1600 tubos, já suscitou o interesse da Antena 2, estando prevista a gravação de um próximo concerto pela estação “e, quem sabe, até a própria transmissão em directo”. Mas para já, António João Sardinha fala na possibilidade de se assinar um protocolo com a Câmara Municipal do Barreiro que viabilize a produção regular da música do órgão, que não se limite à população do Barreiro, até porque considera que à cultura do Barreiro não faltam iniciativas culturais, o que falta, no seu entender, é “uma identidade e autonomia que as projecte para além dos nossos muros.”
Como é que se viu envolvido na recuperação do órgão da Igreja Nossa Senhora do Rosário?
“O impulso decorreu de um desafio que o Padre Rodrigo Mendes me fez há cerca de seis anos, para que fizesse o acompanhamento deste processo e que o tentasse levar à prática. Por conseguinte, a homenagem que o “Rostos” me pretende fazer é em primeira extensão ao Padre Rodrigo, que fez o desafio para este processo, também ao padre José Manuel, que neste momento está à frente da Igreja, e a toda a comunidade e ao próprio grupo que comigo acompanhou o desenvolvimento deste trabalho.”
Um trabalho que começou com um protocolo em 2004…
“A recuperação do órgão era um trabalho extremamente dispendioso, por conseguinte era necessário angariar os apoios que viabilizassem a reunião dessa verba e havia sobretudo dois grandes apoios, um que tinha de ser da Câmara Municipal do Barreiro e outro do IPPAR – Instituto Português do Património Arquitectónico. Quando tivemos a garantia que a Câmara Municipal colaborava, assinámos um protocolo de colaboração entre as três partes, a Igreja Nossa Senhora do Rosário, a Câmara Municipal do Barreiro e o IPPAR e foi entregue a recuperação ao organeiro Pedro Guimarães. E conseguimos da parte da Câmara a concretização do apoio em 30 por cento do investimento e os outros 50 por cento foram conseguidos pelo IPPAR.”
E os restantes 20 por cento?
“Foram pela comunidade, foram comerciantes da terra, foram as pessoas singulares e anónimas que colaboraram, muitas vezes, sem a referência até da origem dessa colaboração, em dádiva simples e graciosa, no sentido de poderem ajudar nesta recuperação. E estamos satisfeitos com um trabalho que foi de grande rigor, de grande qualidade e que deu garantias de que o órgão está ali para que toda a gente o veja, encontra-se em perfeita saúde, quer em termos acústicos, quer em termos de beleza exterior, porque a recuperação da caixa do órgão foi também da responsabilidade do contrato que efectuámos com o Pedro Guimarães.
Mas para além da recuperação do próprio órgão, que ultrapassou os 100 mil euros, houve a necessidade de se fazer um esforço suplementar para a recuperação do espaço do coro, visto que tinham de ser recuperadas as paredes, de se eliminar o salitre, de recuperar o soalho, que estava deteriorado, e até de recuperar toda a parte eléctrica e iluminação e, por conseguinte, essas verbas necessárias não foram integradas nas verbas para a recuperação do órgão, foram um esforço da comunidade.
Enquanto barreirense e apaixonado pela cultura, qual foi o significado que teve para si esta recuperação?
“Há cerca de 50 anos que o órgão não tocava. Eu ainda sou do tempo em que o órgão tocava. Com os meus 14, 15 anos pertencia ao coro da Paróquia do Barreiro com o órgão a tocar. Ainda me recordo de quando aconteciam as Festas de Nossa Senhora do Rosário e cantávamos na Missa Solene do dia 15 de Agosto e o órgão a tocar. Imaginará a minha felicidade no dia em que o ouvi tocar. Na altura da montagem não estava em Portugal e quando regressei, pouco tempo antes da inauguração, o órgão estava quase montado e assim que entrei na Igreja, o Pedro Guimarães ainda estava a ultimar os trabalhos mas o órgão já tocava e quando apercebeu que eu estava ali começou a tocar. Foi o recordar da minha infância quando o ouvi voltar a tocar, 50 anos depois e daqui também ficou uma grande amizade com o Pedro Guimarães que sabia da minha alegria quando o ouvisse tocar e que me deu esta prenda no dia em que cheguei.”
A nível pessoal o voltar a ouvir o órgão significou o reviver da sua juventude…
“Sentimentalmente é isso que me liga àquele órgão, é o reviver a vivência da minha juventude e tive a possibilidade de ser o instrumento de uma comunidade para que ele voltasse a tocar. Porque eu apenas fui o instrumento, mais nada, porque o trabalho decorre do valor, do grande empenho e qualidade técnica do Pedro Guimarães e do envolvimento de todos. E desta reunião de esforços para que pudéssemos ouvir novamente um instrumento de grande qualidade nesta terra, eu apenas fui o instrumento.”
Enquanto barreirense e enquanto apaixonado pela cultura do Barreiro, qual é a importância que considera que tem a recuperação do órgão para a comunidade?
“Permitir que a nossa comunidade possa ter voos mais altos. É um sonho para o futuro, poder pôr este instrumento ao dispor não só de nós, barreirenses, mas também da região e do próprio país e se possível, integrar o órgão da Igreja Nossa Senhora do Rosário nos certames nacionais de música de órgão que acontecem regularmente todos os anos, normalmente no início de Outono, na cidade de Lisboa."
No dia da inauguração disse que gostaria que o órgão fosse colocado ao serviço da comunidade, como é que isso poderia ser feito?
“Os donos do órgão somos todos nós. Não tem sentido dispormos de um órgão com estas características e ficar restrito à utilização litúrgica, que é fundamental, mas também é importante que o saibamos aproveitar de uma forma mais abrangente, porque a música ultrapassa a Liturgia e também agarra as pessoas para uma reflexão e espiritualidade muito grande.
Agora, da parte da Câmara Municipal existe a abertura de podermos assinar um protocolo que viabilize com consistência uma produção regular da música do órgão, mas que não se limite a poder ser utilizada e usufruída apenas pela população do Barreiro, mas que ultrapasse as nossas barreiras. A minha maior felicidade relativamente ao órgão é conseguir viver uma programação regular de concertos que sejam do conhecimento dos que são amantes da música de órgão e, ao mesmo tempo, de outros, que não sendo amantes, mas que a pouco e pouco vão descobrindo uma outra forma na sua terra de ouvir a música.”
Os dois concertos foram gravados, o que esperam vir a fazer com essas gravações?
“O primeiro concerto foi gravado e já temos algumas cópias, tem condições técnicas para a sua edição e publicação. Este segundo concerto, no dia 4 de Abril também foi gravado. E vamos tentar desenvolver um protocolo com a Câmara Municipal do Barreiro que viabilize uma programação musical regular anual e, ao mesmo tempo, outra ideia que existe é através das gravações existentes podermos, com todas as autorizações necessárias, vir a fazer uma edição de cada um dos concertos, de forma a podermos arranjar também uma fonte de receita que dê consistência a este acordo.”
Entretanto o órgão também suscitou o interesse de uma estação de rádio…
"Sim, a Antena 2 teve um compromisso formal connosco para a gravação deste último concerto, mas por razões técnicas foi-nos comunicado que não podiam vir cá, mas continua em aberto a solicitação para que, no próximo concerto, possa ser feita a gravação e, quem sabe, até a própria transmissão em directo."
Ainda não está prevista a data do próximo concerto?
“Não, neste momento não. Certamente teremos outro concerto em finais de Setembro, princípios de Outubro, mas se conseguirmos fazer outro antes, será feito. Mas este ano acontecerão pelo menos dois. Um que deverá coincidir com o período da Festa da Música e o outro provavelmente no final do ano. Nesta altura admitimos que possam ser com organistas portugueses e não com estrangeiros com tem vindo a ser até agora.”
Enquanto homem da cultura, como sente o pulsar da cultura no Barreiro, falta aproximar o público daquilo que se faz?
“O projecto cultural do Barreiro tem tido algumas dificuldades em se impor e uma das razões é porque nós não ganhámos ainda a dimensão a que temos direito, em termos de autonomia cultural. Temos uma iniciativa, a Bienal Internacional de Ilustração Infantil da Ilustrarte, que, de alguma maneira tem ganho uma dimensão não só nacional mas também internacional e que é sem dúvida é uma iniciativa de grande projecção. Se nós olharmos, o Barreiro tem uma pluralidade de iniciativas culturais importantes. O que me parece é que nós temos um conjunto de intervenções culturais a que falta dar corpo de uma identidade e autonomia que as projecte para além dos nossos muros."
Como reage à distinção ”Rosto do Ano Cultura”?
“Para mim foi uma completa surpresa. Mas este empenhamento, durante estes seis anos, neste processo tem um afiamento não do António João Sardinha, mas da pessoa que sempre viveu nesta terra e que fez isto tal como é intrínseco aos filhos do Barreiro fazer, isto é, quando são desafiados tentam dar o melhor de si em favor daquilo que acreditam que é importante para a sua terra. Fico também comovido. Por isso quero sempre reforçar que este reconhecimento é completamente extensivo ao Padre Rodrigo, ao padre José Manuel, à comunidade e a quem apoiou de uma maneira muito forte esta iniciativa, a Câmara Municipal e o IPPAR.”
Andreia Catarina Lopes













