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Perspectivas

Carlos Oliveira Bóia – “Rosto do Ano Regional”“Não consigo estar sem ser perto do rio Tejo”

Carlos Oliveira é mais conhecido por “Bóia”, um nome que herdou do seu avô paterno e que não esconde as ligações da sua família ao mar. No seu caso diz que a atracção por esse elemento se avivou logo quando começou a ir para a praia apanhar isco para o seu pai. Um homem do desporto, praticou um sem número de actividades desportivas. Hoje, com 64 anos, diz ter feito “a condução de vida” que o desporto lhe ensinou, reunindo um currículo com cerca de 60 títulos no Remo, quatro títulos de Campeão Nacional, tendo chegado a ser campeão num só ano em três modalidades, no Judo, no Remo e na Luta Grego Romana.

Prémios que o fazem recordar a sua juventude, onde não deixa de sublinhar a importância que teve para si o Complexo Desportivo de Santa Bárbara, no Bairro Operário, onde começou a praticar desporto. E porque diz que é o “conceito de ir mais longe” que comanda a sua vida, confessa que gostaria de reviver os três títulos nacionais de Judo, Remo e de Atletismo.

9 min de leitura
Carlos Oliveira Bóia – “Rosto do Ano Regional” “Não consigo estar sem ser perto do rio Tejo”

Por Jornal Rostos

Para reforçar a ligação do Barreiro ao rio, fala na criação de um Centro Náutico e de uma marina, entendendo que, sendo o Barreiro uma terra pequena, “mais nada se pode fazer, sem se tirar partido daquilo que maravilhosamente temos, que são as margens do rio.”

Apesar de a sua paixão pelo desporto ter começado pelo hóquei em patins, o remo foi a modalidade que abraçou. Como explica o gosto por esta prática desportiva?

“Isto tem a ver com questões de família, da parte do meu pai. O meu pai e o meu avô eram essencialmente homens ligados ao rio Tejo, mas também eram pescadores. Ora andavam à vela, ora andavam a remar, porque, por vezes, não havia vento e eles tinham de puxar pelas fragatas. Pena é que não se aflore mais esta questão do rio Tejo, das fragatas e dos batelões da C.U.F e não só, há muita matéria por onde se pegar.”

E como é que desse gosto, resolveu partir para a prática desportiva?

“Apesar de me ter iniciado numa actividade que era o hóquei em patins, mas foi essencialmente quando comecei a ir para a praia apanhar isco para o meu pai que a atracção pelo rio foi deveras grande. A partir daí, desenvolvi uma série de actividades, nesse sentido, e ainda hoje, assim o é, porque eu não consigo estar sem ser perto do rio Tejo e não só, também do mar.”

E o nome Bóia, de onde surgiu?

“O meu avô, da parte do meu pai, era João Bóia, era mesmo o seu nome e naturalmente a partir daí o meu pai apanhou esse nome, era António de Oliveira, mas ficou conhecido como “Bóia”. Depois vieram os filhos, a Ana Bóia, o Pedro Bóia e o mais novo o Carlos Filipe Bóia. Partilhamos geneticamente o gosto pelo mar, qualquer dos três tem a tendência para estar à beira-mar. E eu não passo uma hora sem ver o rio, ou estou na actividade física do remo ou da vela, mas é essencialmente uma atracção fantástica pelo rio.”

Numa altura em que se fala cada vez mais na aproximação da cidade ao rio, o que acha que poderia ser feito mais no Barreiro, nesse sentido?

“Há projectos que indicam que a ponte vem para o Barreiro e ainda bem, porque isto faz acelerar um pouco todos os projectos que estavam no papel. Mas acho que é a altura ideal para que o Barreiro, se mantenha firme na terra, mas que saia do marasmo, que ao longo de muitos anos não conseguiu sair. Sei que há projectos, por exemplo um Centro Náutico para englobar os clubes todos. Cada um com o seu hangar e a sua maneira de estar para angariar a juventude, e não só, para a prática das modalidades.”

Este é um dos projectos, que mais gostaria de ver concretizado?

“Por vezes fala-se numa marina. Se houver a marina, gente de Lisboa viria ao Barreiro, como fazem hoje com o Seixal. Coisa que o Barreiro ainda não tem e, como se sabe, está rodeado de rio por todo o lado, o rio Coina e Tejo e tudo isso tem de ser aproveitado. Já que o Barreiro é pequeno, mais nada se pode fazer, sem se tirar partido daquilo que maravilhosamente temos, que são as margens do rio.”

Dono de um currículo invejável, com cerca de 60 títulos no Remo, quatro títulos de Campeão Nacional e também tendo praticado um número invejável de modalidades desportivas. Um homem do desporto, olhando para este percurso, qual é o significado que tem hoje para sim estes prémios?

“Tem muito significado, também está muito relacionado como o meu princípio de vida, porque nasci no Bairro Operário da C.U.F. Naturalmente que as coisas não eram como hoje. Naquele tempo, no Bairro Operário existia o Complexo Desportivo de Santa Bárbara e aí fazíamos tudo e tínhamos dentro da Doca da C.U.F o hangar com os tanques onde se fazia o remo e a vela. Fiz tudo o que calhou fazer e recordo com alguma saudade, porque os moradores desses bairros tinham uma predilecção especial para fazer desporto e foram grandes no hóquei, no futebol e em tudo um pouco. Como não tinha mãe desde os três anos, podia ter enveredado por uma situação difícil, mas sempre tive sempre o conceito de ir mais longe, de tentar organizar a minha vida. E em qualquer prova que participava, o objectivo não era de ultrapassar ninguém, era ganhar para ir mais lá acima. E o percurso e a educação que tenho devo-a ao desporto. Consegui singrar em muitos aspectos. Cheguei a ser campeão num ano em três modalidades, no Judo, no Remo e na Luta Grego Romana, impensável alguém neste país ter feito isto. E tenho quatro modalidades distintas de Campeão Nacional, o Judo, a Luta, o Atletismo e o Remo.”

E hoje, ao olhar para esse currículo, o que lhe traz?

“Sinto-me bem. Fiz a condução de vida que o deporto me ensinou. E essa experiência de vida dediquei-a também aos meus três filhos.”

E também aqui no Ginásio tem a oportunidade de transmitir ensinamentos aos mais jovens…

“Sim e há muita gente jovem que vem ao encontro daquilo que têm dito a meu respeito. Que é verdade, naturalmente. Às vezes há pessoas, não falo muito delas que não vale a pena, mas assim como sou muito bem amado, sou mal amado…Só se é bem amado quando se morre…”

E como reage a essas críticas?

“Reajo naturalmente. O desporto ensinou-me que quando ganho não menosprezo o adversário e, neste caso, quando reagir a determinadas pessoas, não são muitas, digo francamente, dedico a essas pessoas uma vida eterna de saúde e que a mim não me falte.”

Resultado dos títulos que foi ganhando ao longo da sua carreira, acabou por projectar o nome do Barreiro e também do distrito, e nesse sentido também foi homenageado pela Região de Turismo de Setúbal. Um homem com tantos títulos desportivos, como encara essas distinções?

“No tempo da C.U.F levei o maior galardão, que era o emblema de ouro da C.U.F em 68. É evidente que tenho tido algumas homenagens, a Mirandela que não tem nada a ver com o desporto de remo mas convidou-me para ser homenageado há dois ou três anos. E tenho tido enorme satisfação. Mas não estou à espera de homenagens. A Câmara do Barreiro também já me fez e também é parte integrante desta homenagem que me fizeram da Costa Azul. É o corolário de uma série de anos em que pratiquei desporto e que alguém o viu, e não é preciso andar a demonstrá-lo, sem ser dentro de água a remar e a fazer aquilo que sempre quis: ‘Ir mais longe’”

Mais recentemente foi premiado, a par com o atleta Hélder Assunção, com duas medalhas de ouro na 34ª Regata Mundial de Veteranos da Federação Internacional de Remo, na Croácia e a 16 de Março, no Campeonato Nacional de Inverno de Veteranos, realizada no Centro Náutico de Montemor-o-Velho, onde venceram três regatas. Como é a prática desportiva do remo em equipa?

“Ao longo dos anos pratiquei desporto tanto de forma individual, como em equipa de oito, quatro e a dois. O Hélder Assunção é um homem com uma formação fantástica, é um excelente remador. Eu tenho quase mais vinte anos do que ele e fomos para a Croácia, os dois num barco, e a qualidade técnica do remo de nós os dois, costumo dizer que vem do tempo da C.U.F e, por isso, é que nem é necessário, quando temos uma prova nacional ou internacional, treinarmos juntos, porque há igualdade técnica."

Ex-atleta Olímpico, tendo conquistado vários títulos nacionais, internacionais e mundiais, o que lhe falta ainda ganhar?

“Olhe, falta ganhar. Tenho andado a pensar em ir ao Campeonato Nacional de Veteranos e tentar fazer o melhor no disco, no peso e no dardo. E inclusive este ano ver quando é que é o Campeonato Nacional de Veteranos do Judo e ir também e depois naturalmente ir ao Campeonato do Mundo da Lituânia em Setembro. Gostaria imenso de reviver outra vez os três títulos nacionais de Judo, Remo e de Atletismo. De Luta, se houvesse de veteranos, era capaz de lá estar.”

Como reage à distinção “Rostos do Ano Regional”

“Foi uma grande alegria, às vezes não se sabe dizer bem a palavra para ir ao encontro do que se sente. Um jornal que é da terra, nós somos da terra e os que são galardoados também deverão ter orgulho por mais um ano de trabalho do “Rostos”. Uma forma de trabalho aberto à população e aberto ao Barreiro e que tem tido ao longo destes anos um trabalho também dedicado ao desporto.”

Andreia Catarina Lopes

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