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Perspectivas

Miguel Ângelo, vocalista dos Delfins“Despedida de uma “longa-metragem” chamada Delfins”

Ainda a quente do concerto nas Festas do Barreiro, o “Rostos” falou com Miguel Ângelo, vocalista dos Delfins, que, entusiasmado pelo intimismo e proximidade que se estabeleceu com o público do Barreiro, o que ainda se reflectia no azul dos seus olhos, não deixou de falar no novo álbum que sairá em Outubro e que assinala o fim de uma banda com 25 anos de carreira.
Um álbum que diz que será mais “ousado”: “É um disco com um peso maior em termos das guitarras e mais próximo, talvez, da linguagem do rock e de algum rock psicadélico”, revela. E depois da “tournée” de despedida da banda que seguirá em 2009, adianta: “se calhar vamos todos começar outros filmes e encarnar outras peles ou outras personagens”.

7 min de leitura
Miguel Ângelo, vocalista dos Delfins “Despedida de uma “longa-metragem” chamada Delfins”

Por Jornal Rostos

Como é que correu este espectáculo no Barreiro?

“Gosto destes concertos, quando no fim podemos ter a liberdade de improvisar, foi quase a chamada “Jam Session”, através dos temas do “Soltem os Prisioneiros” e de “A Baía de Cascais”. São estes momentos que diferenciam os concertos de terra para terra.”

E aqui no Barreiro houve uma grande proximidade com o público…

“Sim, logo do princípio havia muita gente que se metia connosco, no bom sentido, pedia temas e acho que isso é bom porque quebra um pouco aquela formalidade dos espectáculos, de estar ali e tocar os temas todos certinhos e respeitar a sua ordem na “set-list” e acho que desde cedo o ambiente se tornou informal e foi bom por isso.”

E ao fim de 24 anos de vida da banda, como é sentir que as pessoas no público sabem as letras de cor e se entusiasmam com elas?

“Acho que qualquer pessoa quando escreve uma letra ou faz uma melodia, o objectivo final é que alguém goste de a repetir e que goste de a cantar e a memorize e associe esta canção a algum facto da sua vida e a nossa sorte é que os Delfins, ao fim de tantos anos, têm um grupo de grandes canções que as pessoas identificam. Mas o que procuramos fazer não é só olhar para trás, é também juntar coisas novas, como fizemos aqui, em que experimentámos temas inéditos, com temas muito conhecidos como o “Num Sonho Teu”, o “Nasce Selvagem”, “Um Lugar ao Sol” ou a “Cor Azul” e isso é bom, porque as pessoas querem ouvir as antigas e cantam mas também estão receptivas às novas e isso para uma banda que se quer manter contemporânea é fulcral.”

Recriaram aqui também a “Canção do Engate” de António Variações. Foi por alguma razão especial?

“Acho que essa canção convive muito bem com os silêncios. É uma canção com uma letra poderosa e que às vezes é preciso despir, nós até a chamamos de “versão nua”. É bom “despir as canções”, reduzi-las ao seu essencial e ouvirmos a letra, as palavras, só com um piano e também criar um momento diferente de espectáculo que possa ter alguma dinâmica. Começámos por fazer isto em teatros e depois havia o risco de podermos fazer isto ao ar livre, com uma plateia de três mil pessoas. Mas acaba por correr bem. Tivemos dois ou três temas muito conhecidos e depois há uma espécie de “vem abaixo” e criámos uma dinâmica e um momento de intimismo muito especial.”

Recentemente foi anunciado o fim dos Delfins. Os concertos que surgem nesta altura são vividos com uma sensibilidade especial?

“Sim e acho que para o ano ainda vai ser mais, porque em 2009 vamos fazer uma “tour” de despedida que se vai chamar: “25 anos, 25 êxitos e um abraço” e o abraço está lá mesmo para dar uma “onda” positiva, não é uma coisa saudosista, triste. Vamos celebrar estas canções, que centenas de vezes cantámos, e vamos celebrá-las uma última vez desta maneira. E depois essas músicas estão nos discos, podem ouvir os discos e ver os DVD’s.”

E ficam na memória e tornam-se elementos da vida das pessoas…

“Sim, mas quando uma banda tem muitos anos e nós temos 24 anos, chega uma altura em que há o perigo de uma banda se transformar, como costumo dizer, numa banda de tributo a ela própria. Acho que esta decisão de a banda acabar, que também foi precipitada pela saída de um dos elementos da banda, o Fernando Cunha, mas também achámos que por uma questão de princípios, o grupo devia encerrar actividades e partirmos todos para viagens novas. Não quer dizer que daqui a 20 anos não cante a “A queda de um anjo”. Não vou abandonar as canções que escrevi durante 24 anos da minha vida. Mas achámos que era uma boa altura de fecharmos, não com chave de ouro, mas com chave de prata (porque completamos para o ano 25 anos) este ciclo, este capítulo de 25 anos de vida de um grupo.”

Hoje tocaram algumas músicas novas. Em Outubro vão lançar um novo álbum. Pode levantar um pouco o véu desse novo trabalho?

“Sim, hoje desvendámos aqui alguns dos temas. Tocámos canções como “O Grande Urso Branco”, o “Quem me dera”, que já são temas que estão a rodar ao vivo e que sairão no disco novo em Outubro, que é um disco muito “sui generis”, porque é o último disco de uma banda que vai fazer 25 anos de carreira mas também lança as sementes do próprio futuro, porque não vamos fazer canções agora para serem esquecidas. Vai ser um disco que será o último disco dos Delfins e, se calhar, o primeiro de algo novo, diferente.”

E o que se pode esperar desse “novo”?

“É um disco mais ousado em termos sonoros, também, o que se deve muito à entrada do novo guitarrista, do Mário Andrade. É um disco com um peso maior em termos das guitarras e mais próximo, talvez, da linguagem do rock e de algum rock psicadélico. Só para dizer que tem um tema com 13,5 minutos de duração, que é algo que nunca tínhamos feito e portanto é um disco mais experimental dentro da Pop. Dentro das canções, continuamos a gostar de fazer canções com refrão mas é um bocadinho mais ousado. Se calhar, essa história toda de a banda ir acabar tira-nos algum peso de alguma formalidade dos Delfins, daquela chancela e daquela marca. E temos convidados de bandas novas, como os AIOAI ou os Primitive Reason, e é um disco também de partilha com músicos de novas gerações, o que também é muito importante para nós.”

2010 marca o ponto final da banda, mas prometem surgir no panorama musical…

“É uma despedida de uma “longa-metragem” chamada Delfins. Sempre vi os Delfins como um filme, até criámos personagens, como o golfinho, andámos um bocadinho com alter egos. E isso era uma coisa que gostava muito nos Delfins, o poder fazer uma canção simplesmente Pop como a “Sou como um rio” ou fazermos música para o teatro experimental de Cascais, com os textos de Gil Vicente e essa liberdade de poder experimentar sempre me agradou muito e por isso é que é o fim dos Delfins, no sentido deste filme, mas, se calhar, vamos todos começar outros filmes e encarnar outras peles ou outras personagens.”

Juntos?

“Alguns juntos, talvez... Não sei. Estamos já com algumas ideias, mas vamos viver o momento. Vamos fazer em grande a despedida do grupo, vamos fazer uma “tournée” grande, com muitos convidados especiais e tocar aqueles canções que todos conhecem e vamos viver muito intensamente este momento e depois logo se vê. A música de certeza que vai continuar, não estamos em idade de mudar de profissão.”

Andreia Catarina Lopes

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