Veloso Amaral, piloto LIQUI MOLY e CLUBE MILLENNIUM BCP“Essencialmente gosto de me locomover, ver e de documentar”

Por Jornal Rostos
As histórias surgem-lhe espontaneamente e os olhos reflectem a emoção de as viver com intimismo, quando sorriem quando lembra o primeiro rali todo-o-terreno, em Portalegre, com um Carocha comprado nas vésperas, ou quando se entristecem quando recorda a queda do parafuso “malogrado” que o fez perder o Campeonato Nacional de Velocidade – Históricos/65 em 2005. Lembranças de um homem que se apaixonou pelos automóveis, paixão que o conduziu ao jornalismo e à fotografia.
Tem uma carreira desportiva com mais de 300 provas realizadas, desde rampas, circuitos, ralis todo-o-terreno. Como é que se despertou a paixão pelos clássicos?
“Seria uma maneira de continuar a aproveitar aquilo que tinha lá em casa. E porque os clássicos são giros, são carros do nosso tempo, muito embora não ande no dia-a-dia num carro desses, mas, em termos desportivos, é a modalidade que leva mais pessoas às provas, ainda que, infelizmente, não tanta quanto gostaríamos. Mas as pessoas vão ver carros do tempo delas e se cada um fosse num carro carismático, ainda seria muito mais giro, podia-se assistir a um desfile automóvel.”
E porque é que é considerado um “gentleman driver”?
“Não sei, acho que isso é mais pela simpatia das pessoas. “Driver”, sou, “gentleman”, tento ser. É a minha maneira de estar. Eu não vou lá com aquela “fúria” de ganhar, é evidente que todos gostamos de ganhar. E posso dizer que há três anos chorei como não me lembro de ter feito por causa dos automóveis, porque liderava o Campeonato Nacional de Velocidade – Históricos/65, da primeira à ultima prova e na última prova em que me bastava acabar em último, soltou-se um pequenino parafuso do interruptor da bomba da gasolina e muito embora tenha feito tudo o que sabia e o que não sabia, só consegui fazer cinco voltas. E chorei, chorei francamente, porque digamos que era o culminar de uma carreira. E até pelo carro, porque o carro nunca ganhou nada e dizia: “Ninguém melhor do que eu para pôr este carro a ganhar”. Porque deve haver poucos pilotos no mundo a ter mais de cem provas de Hillman Imp. E foi um grande desgosto, porque são oportunidades que estou convencido que não se repetem. Mas no vidro de trás do carro tenho lá o parafuso, pode ser que sirva de talismã…”
Já correu com outros automóveis, com o Mitsubishi Colt 1100, o Subaru ff1 1300, o Austin mini 1000 mas a sua paixão continua a ser o Hillman IMP. Como explica essa afeição?
“Costumo dizer que estes carros são carros de “pancadas”, uma pessoa ou gosta ou os detesta. Este carro foi um carro mal amado, porque na altura em que apareceu, aparecem também os Mini Cooper S.”
Houve quem dissesse que foi concebido como um rival para o Austin mini?
“Não, “coitadito”, ele nunca teve essas pretensões. Logo à partida era um carro muito limitado e enquanto escocês sentia-se extraordinariamente desambientado nos nossos climas quentes. Se há coisas com que os carros não se compadecem é com temperaturas elevadas, de maneira que o IMP nunca podia competir contra o Cooper. Simplesmente é um carro carismático e eu sempre gostei de carros de tracção atrás, porque já tinha andado com os Carochas, com os Volkswagen. E são carros com uma condução muito mais desportiva, porque costumo dizer que: os de tracção à frente, vão atrás das rodas da frente e os de tracção atrás, já é preciso um certo entrosamento com o carro para que ele vá para onde nós queremos. É uma condução completamente diferente, muito mais espectacular e creio que dá muito mais divertimento.”
E há quanto tempo tem este carro?
“Vai fazer cinco anos.”
E quando é que comprou o primeiro?
“Tive o primeiro Hillman IMP em 1969. Actualmente tenho oito, nem todos em condições de rodar, logicamente. Mas não me desfarei deles, por dinheiro nenhum, porque tenho ali também um certo stock de peças, já que é um carro em vias de desaparecimento.”
Quais são os cuidados que tem com este Hillman IMP?
“Este carro tem de ser conduzido “com a ponta dos dedos”. Não se pode ser brusco, porque como tem tudo atrás, é um carro que à frente não tem peso rigorosamente nenhum. Tem de ser conduzido com muita subtileza. Mas é muito elegante, a pessoa vira para a direita, a roda da frente levanta e quando pousa, inverte a posição. O carro parece que dança, como num bailado, mas tem de ser tratado com muita docilidade.”
Outras das suas grandes paixões são o jornalismo e a fotografia, mas também aparecem ligadas ao automóvel…
“Vêm ligadas essencialmente a um grande prazer de condução, conduzo qualquer coisa. Se me dessem um camião, que é o meu grande sonho, dá-me a sensação de que não precisava de ter uma casa. Porque adorava estar hoje aqui e amanha acolá, sempre a conduzir, a ver e a fotografar. Essencialmente gosto de me locomover, ver e de documentar.”
E em relação à IV Exposição de Veículos Antigos, qual é a importância que considera que tem este tipo de iniciativas?
“Têm para já um cariz cultural, porque quer se queira, quer não, isto é história, estes carros são história. São iniciativas que devem ser apoiadas, é uma forma de aproximar os carros das pessoas e até de incentivar à própria conservação dos veículos. E é importante que os carros estejam aqui, mas também é importante estar alguém que conheça o carro e que responda a algumas perguntas. Temos aqui carros com carisma. A nível desportivo, senti-me muito honrado em ser convidado para trazer o Hillman IMP, que é um carro que poderia ser extraordinariamente popular e só não o é porque sempre foi um carro mal amado.”
Andreia Catarina Lopes
Fotos de Veloso Amaral













