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Perspectivas

No BarreiroCláudio Torres – Prémio Pessoa 1991
É possível fazer no sítio do Forno da Mata da Machada no Barreiro um lindíssimo Museu

«A merda da cultura pode dar desenvolvimento»

Cláudio Torres, Prémio Pessoa 1991, numa entrevista ao Rostos, defendeu que – “ na Mata da Machada é perfeitamente factível, fazer, ali, no sítio do Forno, um lindíssimo Museu, uma coisa simples, nem sequer tem que ser uma coisa magestática, é um edifício, uma construção que cubra, que preserve, que proteja o forno.”

Na opinião de Cláudio Torres o projecto a desenvolver na Mata da Machada tem que ser desenvolvido de forma integrada visando - “uma lógica de toda a Mata da Machada, numa recuperação da Mata”.

7 min de leitura
No Barreiro Cláudio Torres – Prémio Pessoa 1991 É possível fazer no sítio do Forno da Mata da Machada no Barreiro um lindíssimo Museu

Por Jornal Rostos

Cláudio Torres, Prémio Pessoa 1991, esteve no Barreiro, onde proferiu uma Conferência subordinada ao tema - “A Margem Esquerda do Estuário do Tejo - Proto-Industrialismo nos sécs. XV e XVI”.
Na entrevista ao Rostos, recordou o trabalho realizado na Mata da Machada - “Foi uma experiência, para mim, muito importante, realizada a partir da Faculdade de Letras, quando era lá professor, vim aqui com alunos.
Foi uma primeira incursão numa prática, na altura, aquela era uma zona que estava perfeitamente desconhecida na historiografia.
A questão dos Fornos do Barreiro surgiu, num encontro que realizámos na Faculdades de Letras, sobre a temática da Margem Esquerda.”

Inicialmente nem sequer sabíamos o que era aquilo

“Este trabalho, abriu a perspectiva insólita que era a questão do açúcar, principalmente, porque colocou interrogações sobre porque eram feitas aqui, nos Fornos do Barreiro, aquelas «formas».
Inicialmente nem sequer sabíamos o que era aquilo.
Depois, foi a partir de uma sugestão de alguém que havia encontrado uma coisa parecida, algures em Indénia, na Espanha.
Depois surgiram outras nas abóbadas da Catedral, em Barcelona.
Começou a haver uma ligação estranha sobre este tipo de «formas», e, de repente, foi constatado, foi descoberto, porque encontrámos a lógica.
Foi uma alegria, ligarmos uma coisa que nunca tinha sido relacionada – eram as «formas» de açúcar.” – recorda Cláudio Torres, ao referir os primeiros passos da pesquisa que realizou nos Fornos da Mata da Machada.
Refere Cláudio Torres que “o Pão de Açúcar, no Brasil, em pleno Rio de Janeiro, aquela forma do Pão de Açúcar, eram formas de barro, que eram feitas aqui no Barreiro. O que é realmente interessante.”

Mata da Machada e os descobrimentos

O espólio da Mata da Machada é importante para o estudo da época dos descobrimentos? – perguntámos
“É fundamental. Ainda estava no Barreiro a trabalhar e, nesse tempo, nós emprestámos umas formas do Barreiro para o Museu do Funchal, onde as Armas da própria bandeira do Funchal tem as «formas».
Eles, nem sequer sabiam que as armas da bandeira, tinham as «formas de açúcar», em vez das quinas.
É sintomático a importância que tiveram naquele território as «Formas de Açúcar».
Isso, na verdade, foi fundamental para relacionar umas coisas com as outras e para percebermos a importância que tiveram na expansão – o problema da madeira, o problema do açúcar e a grande movimentação de milhares e milhares dessas peças na grande expansão económica de Portugal.”

Fazer no sítio do Forno um lindíssimo Museu

O que existe no Barreiro, nas Reservas Museológicas, pode ter um significado maior para o Barreiro? – perguntámos.
“Podia. Podia se fosse feito e assim espero que seja feito, um Museu de Sítio.
Aquilo que está, hoje, na Mata da Machada é, na verdade, perfeitamente factível, ali, fazer no sítio do Forno, um lindíssimo Museu.
Basta uma coisa simples, nem sequer é uma coisa magestática, é um edifício, uma construção que cubra, que preserve, que proteja o forno.
Hoje, está lá um palanque de lata. É evidente que aquele Forno merece uma construção e, de facto, essa construção, não é só a protecção do Forno, é um espaço que proporcione uma exposição dos materiais do próprio Forno, criando ali um pólo que possa atrair uma série de visitantes.”.

Uma lógica de recuperação de toda a Mata

Cláudio Torres, acrescentou – “ Mas, repare, não é suficiente isso, apenas a construção de um edifício.
Porque a fazer, ali, naquele sitio, um Museu, facilmente seria vandalizado.
Portanto, tem de haver uma lógica de toda a Mata da Machada, uma lógica de recuperação de toda a Mata.
Hoje as pessoas vão para lá passear e correr. Aquele é um sitio usado pelas gentes do Barreiro. Tudo isto tem que ser integrado.
O Museu, naquele sitio, o Museu daqueles Fornos e de outros que venham a ser descobertos, porque há mais fornos. Há por ali tantos fornos. Tem que ser um projecto integrado de recuperação da Mata da Machada.
Todo o circuito integrado deverá criar uma dinâmica de património, e, permitir que sejam colocadas as peças que existem no seu próprio local. Tudo isto seria uma valorização excepcional.”

Sem o rio não havia nada

Na nossa conversa com Cláudio Torres, interrogámos, em que medida o Rio Tejo é uma referência e uma marca na identidade do Barreiro.
“O rio marca a identidade do Barreiro, como é óbvio.
Assim como hoje, a gente vê uma aldeia, uma vila, algures no interior, marcada por uma estrada, que ao longo dos anos gizou e fez a forma da própria terra. Sentimos que foi a estrada que fez esse povoado.
Obviamente, aqui, o Barreiro ( e não é só o Barreiro), são todas as cidades, pequenas e grandes à volta do Tejo, foram feitas pelo rio.
Sem o rio não havia nada. Não havia Lisboa. Não havia Almada. Não havia o Barreiro. Não havia o Seixal. Não havia Santarém.
O Barreiro era uma zona industrial que tinha ligações a Lisboa pelo rio.
As tradições de pesca. As tradições de construção naval, são decisivas, no tipo de barcos que eram feitos aqui à volta, do Barreiro e do Seixal.
Ainda hoje, no Rosário, fazem barcos de madeira.
Esse mundo da construção naval foi o que deu identidade a toda esta zona.
Depois existiram as fábricas – do vidro, da cerâmica, até chegarmos ao século XIX, onde esta continua a ser uma zona industrial, uma zona de fornecimento de materiais à grande cidade, de fornecimento de tudo.
Aqui, tudo aqui se cria, instalam-se aqui as fábricas, devido à lógica da sua ligação fácil a Lisboa.
Daqui do Barreiro é muito mais fácil ir a Lisboa do que da parte norte, mesmo na zona de Loures, é muito mais longe, do que ir do Barreiro a Lisboa. Por causa do rio, pois claro…” c- sublinha Cláudio Torres.

A merda da cultura pode dar desenvolvimento

Tem saudades do Barreiro? – perguntámos
“Não é saudade. Nunca perdi o contacto com o Barreiro e tenho aqui bons amigos.
A questão é que há períodos da vida. Eu também optei. Optei por um sítio, jogar forte só num sítio, e, tentar provar que a merda da cultura pode dar desenvolvimento.” – comenta dando uma sonora gargalhada.

Hoje o Barreiro tem gente motivada

Cláudio Torres referiu que “está disponível para dar uma força ao Barreiro” embora, saliente que – “Hoje já não é esse o meu papel. Hoje o Barreiro tem quadros, tem técnicos, felizmente, tem gente motivada, coisa que não havia há uns anos atrás.
Um tempo, quando os gajos que vinham para aqui fazer buracos, eram parvos ou loucos.
Hoje não. Hoje há uma nova geração. Há gerações jovens que sabem, que já se formaram, que estão a estudar, que estão a criar novas técnicas.
Por exemplo, em relação às prospecções subaquáticas que hoje são fundamentais, a Câmara Municipal do Barreiro tem ao seu serviço um bom técnico.” – sublinhou.

S.P.

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