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Perspectivas

Área Protegida Local no BarreiroPreservar 380ha de floresta permite manter local importante para biodiversidade, fauna e flora

Mário Carmo, licenciado em Biologia, faz parte da equipa coordenadora do Estudo de Etnozoologia de Morcegos em Portugal.
Em entrevista ao «Rostos» a propósito da classificação da Mata da Machada e Sapal do Rio Coina, como área Protegida local, sublinha que – “o homem só pode intervir capazmente na Natureza se a conhecer e se a respeitar, se souber como ela funciona e como reage a acções vindas do exterior. A presença de zonas protegidas, podem funcionar como verdadeiros laboratórios ao ar livre, o que lhe servirá de fonte inspiradora do seu comportamento”.

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Área Protegida Local no Barreiro Preservar 380ha de floresta permite manter local importante para biodiversidade, fauna e flora

Por Jornal Rostos

Mário Carmo, licenciado em Biologia pela Universidade de Évora e mestrando em Gestão e Conservação de Recursos Naturais pela mesma Universidade e pelo Instituto Superior de Agronomia. A sua área de investigação está relacionada com Quirópteros, actualmente relacionado com gestão florestal.
Vai realizar-se no Barreiro, nos dias 20 e 21 de Outubro, a Conferência sobre «Áreas Protegidas Locais», onde Mário Carmo será um dos protagonistas, neste contexto, colocámos algumas perguntas sobre o processo de classificação da Mata da Machada e Sapal do Rio Coina que teve a amabilidade de responder.

Qual a importância de existirem áreas de protecção local?

“A existência de áreas de protecção local assenta na máxima de se manter na região um ecossistema, ou um mosaico de ecossistemas, em situação climática, ou seja, de equilíbrio perante o dinamismo dos factores ecológicos aí existentes. Estas áreas têm também importância uma vez que envolvem o poder e a comunidade local e é esta ligação mútua e cada vez mais activa que permite que as necessidades locais sejam satisfeitas. A conservação dos recursos naturais passa em tem sempre de passar por todos os intervenientes, quer pelos que as gerem quer por quem delas usufrui. São estes intervenientes locais que conhecem as áreas, são estes que mais delas usufruem, são os melhores indicadores do que é positivo e negativo nas políticas de gestão., sendo por isso indissociáveis da melhoria e conservação de áreas importantes. O facto de ser local faz com que o objectivo de sensibilização e de educação ambiental cheguem de forma mais eficaz e mais objectiva à comunidade local, que actualmente atinge níveis cada vez maiores de participação. Aparte da questão social, temos claro o lado em termos de biodiversidade. Uma área de protecção local servirá não só de abrigo como local de alimento para a fauna que em caso contrário poderia não ter espaço na região. Serve, funciona e é um verdadeiro hotsopt de biodiversidade. É onde um habitante local e/ou pessoa de fora pode respirar biodiversidade porque assim o deseja, dá liberdade de escolha e aumenta claro a qualidade de vida local e o bem-estar humano.”

Que significado atribui à classificação da Mata da Machada e Sapal de Coina como área protegida local?

“Olhemos o Barreiro de cima… olhemos através de uma fotografia aérea… o que se destaca logo por entre as manchas urbanizadas, é a Mata da Machada e o Sapal de Coina associado. Esta classificação como área protegida local tem todo o sentido e está revestido de grande valor conservacionista. Preservar cerca de 380ha de floresta permite manter um local importante não só para a biodiversidade, fauna e flora, assim como um espaço de lazer para a comunidade local ou até mesmo exterior, trazendo gente e, por isso, valor ao Barreiro.”

Que contributo pode dar no futuro esta área para o desenvolvimento do Barreiro e região de Setúbal?

“Colocaria a questão noutros termos. Que serviços nos garante a classificação como área protegida local? Falo de serviços de ecossistemas que são os benefícios que as pessoas obtêm dos ecossistemas, podendo ser a produção, regulação, suporte e culturais. Alterações nestes serviços afectam o bem-estar humano através de impactos na segurança, nos recursos materiais básicos para uma vida com qualidade, na saúde enas relações socieais e culturais. Nos tempos que correm a importância das coisas passa sempre pelo valor monetário, pelo valor económico. É preciso valorizar e valorar o que se chamam de serviços de ecossistemas. É em termos monetários que se decide, é com valores que se conserva. Por isso é importante perceber que a importância de serviços culturais e naturais é identificada como uma prioridade, local e global. A Mata da Machada e o Sapal de Coina têm bastante potencial de recreio e turismo, motivado por várias componentes em particular (por ex. flora e fauna vertebrada e invertebrada), é, regra geral, determinado por um conjunto de factores como sejam, para além dos já referidos, a paisagem e alguns monumentos históricos.
O turismo (científico ou cultural) é um sector com potencialidades para a revitalização de zonas como a Mata da Machada pela capacidade de adaptação e resposta à nova procura turística, várias medidas que pretendem diversificar a oferta de animação complementar, aumentar o dinamismo e o grau de organização do sector e qualificar os recursos humanos respectivos. Em termos latos, visando a implementação do turismo em áreas naturais, como a Mata da Machada, com base em critérios de sustentabilidade, pretendem-se medidas que visem permitir a recuperação e conservação do património natural e cultural apoiando-se em vectores como a conservação da natureza, desenvolvimento local, qualificação e diversificação da oferta turística.
Os conceitos de desenvolvimento sustentável e convivência simbiótica exigem a criação e desenvolvimento de um largo conjunto de actividades para solução das questões ambientais e sociais, as quais, por sua vez constituem novas oportunidades económicas e de geração de valor. Estas actividades trazem um elevado benefício tanto para o Ambiente como para a Economia, pois não apresentam quaisquer custos adicionais, como uma visão mais tradicionalista poderia indicar, ao invés, constituem fontes de valor acrescentado e de geração de riqueza para a região e para o caso particular do Barreiro.
Assim as eco-actividades que se podem realizar na Mata da Machada e no Sapal de Coina geram valor de riqueza na Economia, ao transformarem e acrescentarem a cadeia de valor dos diferentes sectores da actividade económica. A gestão e a optimização, em termos de eficiência e eficácia, destas novas actividades criam e são fonte de valor e competitividade nacional para as economias no processo de globalização competitiva.”

Pode o debate em torno da classificação de uma área protegida local contribuir para uma maior consciência ecológica da comunidade?

“Claro que sim. O Homem só pode intervir capazmente na Natureza se a conhecer e se a respeitar, se souber como ela funciona e como reage a acções vindas do exterior. A presença de zonas protegidas, podem funcionar como verdadeiros laboratórios ao ar livre, o que lhe servirá de fonte inspiradora do seu comportamento. O desconhecimento apenas poderá conduzir, mais cedo ou mais tarde, ao desequilíbrio contínuo e este à desertificação e ao rápido engolir das áreas urbanizadas. É o diálogo, o debate a sensibilização e a educação que permite esta mudança de paradigma do passado, em que tudo era considerado inesgotável ou que nem se pensava muito nisto.
Apesar das políticas de intervenção e gestão poderem reverter a degradação dos ecossistemas e aumentar as contribuições destes para o bem-estar humano, saber quando e como intervir requer uma compreensão substancial dos sistemas envolvidos, tanto ecológicos como sociais, sendo um pré-requisito para tomadas de decisão. Para isso é necessário o debate, isso e compreender quais os trade-offs envolvidos, entre os vários sectores e partes interessadas, nas decisões referentes ao meio ambiente. No passado, os problemas ditos dos ecossistemas foram sempre abordados individualmente, e raramente tratados de forma holística, isto é, com objectivos multisectoriais.”

BREVES DADOS BIOGRÁFICOS

Mário Carmo, licenciado em Biologia pela Universidade de Évora e mestrando em Gestão e Conservação de Recursos Naturais pela mesma Universidade e pelo Instituto Superior de Agronomia. A sua área de investigação está relacionada com Quirópteros, actualmente relacionado com gestão florestal. Trabalha na empresa Biota - Estudos e Divulgação em Ambiente, onde é técnico superior de fauna, onde colabora com os mais variados tipos de estudos de impacte ambiental, quer através de levantamentos em campo das várias espécies de vertebrados, incluindo morcegos por métodos bioacústicos e morfológicos, quer sendo o descritor de fauna em vários projectos em curso. É colaborador voluntário na amostragem (bioacústica e prospecção de abrigos) em várias quadrículas UTM para a amostragem do primeiro Atlas dos Morcegos de Portugal e faz parte da equipa coordenadora do Estudo de Etnozoologia de Morcegos em Portugal.

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