Armando Pires, Presidente Instituto Politécnico Setúbal«A relação com a comunidade envolvente é um dos nossos pilares de existência e desenvolvimento»
«Assinámos um contrato de confiança com o estado. (…)Este contrato foi assinado pela tutela, que neste momento resolveu não o cumprir» - afirma Armando Pires.

Por Jornal Rostos
Armando José Pinheiro Marques Pires, 49 anos, está no IPS há vinte anos afirmando por isso ter um grande conhecimento da Instituição «já é um tempo longo, permitiu-me contactar com a maior parte das pessoas que fazem parte da nossa comunidade educativa desde o pessoal docente, não docente e estudantes» - refere.
Formado no Instituto Superior Técnico - Lisboa - completou aí a Licenciatura, o Mestrado e o Doutoramento em Engenharia Electrotécnica, que concluiu em 1994. Foi também no “Técnico” que exerceu a função de docente antes de vir para o Politécnico Setúbal.
Depois disso, em termos académicos, fez a agregação na Universidade de Évora, em 2006. No Instituto Politécnico de Setúbal, em termos de docência é Coordenador principal, - a nova categoria de topo - e para além disso é o seu Presidente desde 2006. Antes de assumir este cargo foi também vice-presidente, durante dez anos, tendo ainda assumido outros cargos dentro da instituição: foi presidente de um Conselho científico da Escola Superior de Tecnologia do Barreiro, durante seis anos; foi director de curso e presidente de um departamento da Escola Superior de Tecnologia de Setúbal.
O que representa para si o IPS em termos pessoais?
«Eu vim para cá em 1991, de uma forma consciente. Aliciou-me bastante aquilo que era uma característica nossa: a proximidade entre as pessoas.
Tinha estado numa instituição com uma dimensão maior, na época, e havia alguma distância de tratamento, e aqui, além da proximidade das pessoas, senti um acolhimento mais “simpático”.
Foi, de certa forma, um olhar para o futuro e ter a percepção que era possível participar na construção de algo, e tem sido isso, no fundo, que me tem motivado a estar no Instituto. Sinto que tenho dado bastante tempo ao Instituto que, no fundo faz parte da minha vida, ele representa uma parte significativa da minha vida».
Peço-lhe que faça uma caracterização da instituição – O que é o IPS?
«O Instituto Politécnico de Setúbal é uma das cerca de trinta instituições de ensino superior, públicas, que existem em Portugal.
Há aqui uma divisão, mais ou menos equitativa entre Universidades e Institutos Politécnicos. Existe uma missão que tem pontos em comum mas que tem também pontos diferentes entre estes dois tipos de instituições. Os Politécnicos caracterizam-se por uma maior proximidade, diria, Regional, caracterizando-se também por terem formações que são mais direccionadas para a práctica profissional, ou profissiona-lizante, sendo claramente esta a grande distinção» explicou.
«Ao nível nacional o que se verifica é que, com excepção do Distrito de Santarém, cada um dos outros Distritos tem um Politécnico, ou então, como é o caso do Algarve, tem uma Universidade com uma forte componente politécnica.
No Distrito de Setúbal, nós somos a única instituição pública de ensino superior sediada no Distrito».
O Instituto Politécnico de Setúbal tem a actualmente cinco Escolas Superiores: duas Escolas Superiores de Tecnologia, uma em Setúbal e outra no Barreiro, uma Escola Superior de Ciências Empresariais, uma Escola Superior de Educação e uma Escola Superior de Saúde.
«As mais antigas são a Escola Superior de Esducação e a Escola Superior de Tecnologia (de Setúbal). Depois surgiu a de Ciências Empresariais, e no final dos anos 90 a Superior de Tecnologia do Barreiro e finalmente a de Saúde, em Setúbal que é a mais recente» referiu Armando Pires.
O IPS tem cerca de 6.500 alunos, aproximadamente 500 docentes e 200 funcionários não docentes.
Como posiciona o IPS face aos outros estabelecimentos em Portugal?
«Não existem rankings, mas é obvio que existem indicadores. Aqui temos novamente que fazer a distinção entre aquilo que são instituições universitárias e o que são instituições politécnicas, que não são muitas vezes comparáveis.
Os indicadores comparativos entre Politécnicos podem ser, por exemplo, os docentes doutorados, o número de estudantes, os projectos existentes ao nível de investigação científica ou técnico-ciêntifica, o sucesso escolar, a percentagem de estudantes por docente, o número de docentes em relação ao pessoal não docente, o número de dirigentes, que é uma questão da qual se fala agora muito e nós somos dos Institutos que menos dirigentes tem, para a nossa dimensão» - sublinha.
«Tendo em conta tudo isto diria que estamos a meio da tabela, tendo em conta que existem institutos com uma grande dimensão, habitualmente situados junto dos grandes centros urbanos, como é o caso de Lisboa ou Coimbra. Nós estamos muito próximo dos de Bragança ou Viseu que são os que têm uma dimensão aproximada» referiu, acrescentando «dependendo, obviamente, dos critérios em análise estamos melhor ou pior colocados».
Qual a estratégia seguida relativamente ao corpo docente?
«Nós definimos um plano estratégico para cinco anos, e uma das metas que tínhamos para atingir em 2011 era o de termos cinquenta porcento de doutorados. Obviamente aqui temos que pensar nos docentes que estão a tempo integral, pois os que estão a tempo parcial é que sejam especialistas da vida profissional, da industria, dos serviços, das empresas, etc. Estes docentes que não estão na carreira devem manter preferencialmente uma ligação permanente ao mundo do trabalho e ter uma outra profissão, para além de serem nossos colaboradores. Isto é muito importante pois é uma característica diferenciadora dos politécnicos e muito importante para o nosso tipo de formação que está muito direccionada para a práctica profissional».
«A relação com a comunidade envolvente é um dos nossos pilares de existência e desenvolvimento».
Referiu que os politécnicos estão muito próximo das comunidades. De que forma fazem esta aproximação?
«Eu diria que se faz de diversas formas. A relação com a comunidade envolvente é um dos nossos pilares de existência e desenvolvimento.
Quando temos as nossas portas abertas aos estudantes das comunidades envolventes, estabelece-se, desde logo, uma relação natural ao nível da formação que se prolonga depois no momento do seu estágio onde a instituição estabelece contactos com as entidades que integram essa mesma comunidade» - sublinhou.
«Existe também envolvimento institucional importante a nível dos órgãos do poder local, câmaras municipais e juntas de freguesia, com quem temos mantido uma relação bastante boa. Temos desenvolvido projectos conjuntos com as autarquias dos dois conselhos onde estamos presentes» disse, acrescentando «há também uma grande atenção às empresas e ao tecido produtivo».
«Enfim, temos claramente que intensificar as nossas relações com as diferentes entidades do Distrito e também colocarmos-nos ao serviço dessas entidades para a resolução dos problemas que possam ter e em determinadas perspectivas de desenvolvimento em que podemos ser parceiros» - sublinhou.
Têm outros projectos no sentido de trazer as pessoas ao IPS?
«Dentro da semana da ciência e tecnologia temos o “dia aberto” em que as pessoas são convidados a visitar o Instituto, principalmente a Escola Superior de Tecnologia de Setúbal pois é a mais activa neste tipo de iniciativas.
Este trabalho é desenvolvido não só dentro da instituição mas também fora dela. Estamos presente em diversas iniciativas como feiras, encontros e certames realizados no Distrito. Nós queremos fazer passar a mensagem de quem somos, e queremos que as pessoas nos conheçam. Existe uma questão cultural a combater que é de as pessoas associarem o ensino superior apenas às universidades» - refere.
«Este trabalho de dar a conhecer quem somos nem sempre é fácil até porque, por exemplo, aqui em Setúbal o nosso Campus está na periferia e agora com os novos acessos os nossos estudantes não passam por Setúbal para vir para o Campus o que faz com que não haja uma identificação natural da nossa comunidade educativa com a cidade, nem da cidade com a nossa comunidade, daí que aproveitamos todas as oportunidades para nos mostrarmos à população e isto passa-se também no Barreiro»- afirmou.
Sabendo que o Politécnico de Setúbal se relaciona também com outras instituições internacionais de que forma o fazem?
«Se o relacionamento com a comunidade é um pilar essencial da nossa existência, uma grande fatia deste relacionamento é o com instituições internacionais que vem já de longa data e que foi facilitado pelo programa Erasmus.
Temos uma série de relacionamentos bilaterais onde fazemos intercâmbio de alunos, de docentes e de funcionários não-docentes. Para além disso desenvolvemos projectos conjuntos, que, na área da saúde, se têm vindo a intensificar bastante nos últimos tempos» - sublinhou.
«Estamos agora a virar-nos de forma bastante incisiva para os países de expressão portuguesa. Começámos pelo Brasil, onde tivemos uma grande ajuda das bolsas do banco Santander Totta que permite a existência de um intercâmbio já com muitas universidades Brasileiras. Estamos também virados agora para Angola e de longa data temos também relações com Guiné, Cabo Verde e outros países Africanos de expressão portuguesa».
E qual a importância deste relacionamento?
«Entendemos que a internacionalização é fundamental, desde logo, na formação dos nossos jovens. Eu aconselho a que os jovens tenham estas experiências de mobilidade. Eles muitas vezes nem se apercebem imediatamente das vantagens, mas, mais tarde vão dar um valor imenso a essa experiência, que não tem a ver só com as competências que ganham do ponto de vista técnico mas tem a ver também com toda uma vivência que lhes abre novos horizontes.
Neste sentido temos feito um esforço grande e temos um gabinete próprio de apoio à mobilidade, que apoia os estudantes em todos os aspectos que esta actividade envolve.
Ao nível dos docentes a mobilidade é também fundamental para que eles percebam como funcionam as outras instituições, que sintam como é que o ensino superior, e particularmente o politécnico, se desenvolve noutros países, quer na ida a esses países quer no acolhimento de docentes estrangeiros. E também ao nível do pessoal não--docente, que é uma experiência mais recente, mas consideramos fundamental, pois nós temos diversos serviços, e eles perceberem como é que serviços similares funcionam é de uma grande riqueza para depois melhorarmos os nossos» referiu.
«Em suma penso que em termos de desenvolvimento de uma instituição que se quer aberta, este relacionamento é enriquecedor e nós queremos ser realmente uma instituição aberta, aberta à comunidade local e também à comunidade internacional» afirmou.
«Assinámos um contrato de confiança com o estado. (…)Este contrato foi assinado pela tutela, que neste momento resolveu não o cumprir»
Quais são os maiores obstáculos ao desenvolvimento da vossa instituição?
«Penso que adivinhará o primeiro…que é, obviamente, a questão financeira.
Nós estamos a viver um período em Portugal que eu diria que é de ajustamento, em que efectivamente o ensino superior está a sofrer, tal como toda a sociedade, cortes avultados ao nível do financiamento. Obviamente que com menos dinheiro não podemos fazer tudo o que gostaríamos» - referiu.
«Se olharmos para o histórico do IPS, ele sempre se caracterizou por ter uma gestão financeira, que considero apropriada. Nunca entramos em situações em que fossem necessários reforços de capital, como já aconteceu a outras instituições. Temos saldos, de certa forma, significativos, ou seja, temos conseguido acumular alguma riqueza, na perspectiva de poder vir a investir e que agora nem isso podemos fazer» referiu dando exemplos «nós temos necessidade de dois novos edifícios, para já, um para a Escola Superior de Saúde e outro para a nova unidade alimentar, até temos verbas próprias que com algum esforço poderíamos utilizar de forma significativa na construção destes edifícios mas não nos é permitido».
«Este é mesmo o nosso maior constrangimento e que está sempre presente na minha cabeça e na da minha equipa» - afirmou.
«Por outro lado isto resulta também de uma aposta, que deixou de existir, no ensino e em particular no ensino superior. Nós assinámos com o Estado um contrato de confiança onde nos comprometemos a determinadas metas que como é óbvio, no que diz respeito à formação muito dificilmente poderão agora ser atingidas. Este contrato foi assinado pela tutela, que neste momento resolveu não o cumprir e à cabeça reduziu 8,5% do apoio» afirmou acrescentando «da nossa parte continuamos a olhar para este compromisso e a tentar cumpri-lo mas obviamente não conseguiremos formar as pessoas no tempo previsto e isto fár-se-á com muito mais esforço da nossa parte».
Apesar destes constrangimentos que projectos têm a para médio/longo prazo no que respeita ao desenvolvimento do Instituto?
«Nós estamos numa fase de reorganização interna. Nesse sentido temos feito um esforço para integrar serviços de forma a termos um melhor aproveitamento dos nossos recursos, que são limitados, nomeadamente os recursos humanos, juntando serviços que estavam dispersos e multiplicados pelas diversas escolas. Com esta concentração de serviços conseguimos também melhorar o atendimento nomeadamente no que diz respeito aos horários de atendimento» referiu.
«Por outro lado continuamos com os projectos de formação de docentes para que a nossa actividade seja realizada com uma qualidade cada vez mais elevada» sublinhou.
«Temos também projectos ao nível do desenvolvimento da comunidade local, onde estamos a dar particular atenção aos desenvolvimento da capacidade empreendedora que queremos incutir nos nossos estudantes. Temos mesmo uma estrutura que dá apoio a esta questão do empreendedorismo» - salientou.
«Um outro projecto que nos é bastante caro é o que visa combater o fenómeno do insucesso que se verifica, particularmente, em determinadas áreas. Temos um plano integrado com o qual iremos procurar, com a participação de todos os agentes envolvidos na formação, combater a questão do insucesso e do abandono escolar, esta última tem muitas vezes a ver com a questão económica e para a qual criámos também um apoio especial, para além do que o estado dá» realçou.
«Queremos também manter os programas ao nível da práctica da investigação, investigação essa que deve ser aplicada às necessidades, nomeadamente da sociedade, e que deve envolver não só os docentes, mas também os estudantes, para que a formação que lhes proporcionamos seja também activa e não meramente expositiva».
«ter uma habilitação superior, embora não sendo uma garantia absoluta de emprego, é sem dúvida um elemento facilitador, até mesmo no sentido de se continuar a aprender, de ter um espírito aberto».
No final da nossa agradável conversa e em jeito de conclusão Armando Pires deixou uma mensagem que apela à confiança no futuro «nós estamos a viver momentos muito difíceis quer a nível institucional, quer a nível até pessoal, mas a mensagem para os estudantes, em primeiro lugar, é de esperança porque é importante que eles consigam olhar em frente e consigam ter confiança no futuro, para que continuem a lutar e a apostar nas suas capacidades». Contudo, afirma que isto só se consegue com trabalho, «por isso é importante que eles consigam conciliar aquilo que é natural na fase da vida em que estão, com um certo ambiente de descontracção, mas também com a responsabilidade de investirem numa formação que seguramente os irá habilitar melhor para uma vida futura» - referiu. «Todos sabemos que as taxas de desemprego são elevadas, mas continua também a ser verdade que ela é mais elevada entre a população com menos habilitações» afirmou, acrescentando «ter uma habilitação superior, embora não sendo uma garantia absoluta de emprego, é sem dúvida um elemento facilitador, até mesmo no sentido de se continuar a aprender, de ter um espírito aberto».
Em relação ao corpo docente e não docente, a sua primeira palavra é de reconhecimento «pelo esforço que têm feito, pois a maioria desta comunidade é extremamente dedicada» sublinhou. Também para eles a mensagem é de confiança «ainda que moderada, devido às circunstâncias que vivemos, mas todos temos que trabalhar para melhorar as nossas condições e por isso não podemos baixar os braços» afirmou.
Rui Nobre













