António Cordeiro, actor do Barreiro«Vivemos num país que não aprecia a sua cultura»
. Teatro de Amadores não chega para dizer que se faz teatro no Barreiro
. Ser actor é fascinante porque é feito toda a vida
“As pessoas que estiveram estes anos todos, nesta área da cultura, com cor partidária diversa, são pessoas desligadas de uma realidade cultural. O Barreiro não existe culturalmente, é das terras mais deprimentes do mundo no plano cultural” – afirma António Cordeiro, actor que reside no Barreiro há mais de 40 anos.

Por Jornal Rostos
António Cordeiro, uma cara conhecida da televisão, actor, foi este ano homenageado no âmbito da 13ª edição da Mostra de Teatro do Lavradio /SFAL.
António Cordeiro, é natural de Pias, no Baixo Alentejo, veio residir para o Barreiro nos anos 60.
Foi no Barreiro que descobriu o seu gosto pelo mundo do espectáculo, motivado por dois amigos de juventude, Rui Santos e Telmo Caria, que dinamizaram um Grupo de Teatro «A Tribuna», no Clube 31 de Janeiro.
Recorda que nesse tempo todos estavam politicamente ligados à UDP.
Eu não sabia o que era a Liberdade
“Tinha 15 anos quando se deu o 25 de Abril, frequentava o Liceu de Casquilhos.
Eu no dia 24 de Abril vivia num país a preto e branco e no dia 25 de Abril vivia num país a cores. Eu não sabia o que era a Liberdade. Embora já sentisse uma vontade de ser livre.” – recorda.
Clube 31 de Janeiro tempo de descoberta
“No Barreiro havia um gajo muito activo, que era engenheiro, o Carlos Bicas. Promoveu no Clube 31 de Janeiro uma exposição do Sam. Trabalhei com ele nessa exposição. Fiz uma das minhas primeiras performances. Eu era um jovem que andava à procura.
De facto, no 31 de Janeiro havia pessoas muito interessadas, tínhamos uma corrente ideológica, digamos assim, que foi mal vista, foi mal acarinhada” – recorda.
Nunca se lembraram de mim
António Cordeiro, sublinha a sua satisfação pelo facto de ter sido recordado pela Mostra de Teatro do Lavradio.
“O facto de se lembraram de mim agrada-me imenso. Faço parte desta terra há mais de 40 anos. Agradeço que se tenham lembrado de mim” - sublinha.
“As pessoas responsáveis pela Cultura do Barreiro, nunca se lembraram de mim. Todos os anos fazem o Mês do Teatro no Barreiro, e nunca se lembraram que eu sou actor, que sou um profissional, podiam procurar saber.
Acho intolerável e, só pode ser, necessariamente, porque tenho o pecado juvenil e jovial de, durante alguns anos, ter estado no 31 de Janeiro e por acharem que ainda sou Marxista- Leninista- Maoista. Coisa que nunca fui, porque nem sabia o que isso era” – refere António Cordeiro.
As pessoas deviam ser acarinhadas pela cultura no Barreiro
Perguntámos sobre as suas ligações ao Barreiro.
“Fiz algumas diligências e algumas tentativas para fazer alguma coisa no Barreiro que não fosse estes amadores notáveis que temos” - salienta.
“Nós temos amadores notáveis com os quais tenho uma relação próxima, até por razões geracionais. Mas isto não chega para o Barreiro.
O Barreiro não podia ter tido só isto, neste anos todos, podia ter sido outra coisa.
Temos este trabalho notável de amadores que fazem públicos, mas as pessoas não têm que estar sempre a atravessar o rio. As pessoas deviam ser acarinhadas pela cultura no Barreiro.” – sublinha o actor.
Uma visão mais ampla da Cultura no Barreiro
“A cultura no Barreiro devia ter pensado que o teatro é um fenómeno. Por mais extraordinário que seja o trabalho dos amadores isso não chega.
O Mês do Teatro acho que tem essa preocupação, porque, apesar de não me convidarem, acompanho o Mês do Teatro. Sei o que se faz, mas, acho é que é lamentável que não haja uma visão mais ampla da Cultura no Barreiro.” – refere António Cordeiro.
O gosto que as pessoas têm pela cultura
“Isto não tem nada com partidos. Eu já disse isto. Isto tem a ver com as competências das pessoas e com o gosto que as pessoas têm pela cultura.
Se olharmos para o lado de lá do rio, o Seixal, que é uma Câmara da mesma força política do Barreiro, que tinha um homem que era poeta, ele promoveu a Cultura no Seixal, cheguei a ir lá várias vezes, ali as coisas acontecem, e, se calhar, não acontecem mais porque não há meios” – acrescenta.
São seguramente incompetentes
“Acho que as pessoas que têm estado à frente da Cultura no Barreiro, não gostam do lugar que ocupam. Não podem gostar. Deve ser porque não sabem, eu quero acreditar que não sabem. Ou então são más pessoas, e não quero acreditar que são más pessoas.
Acredito que não sabem, que são incultas, que são incompetentes. Com certeza, são seguramente incompetentes” – sublinha.
Barreiro não existe culturalmente
António Cordeiro fala, nota-se nas suas palavras, marcado por experiências vividas.
“A família politica não pode ser a privilegiada, porque há pessoas que são de outra cor e não é por isso que são menos competentes, ou menos sérias no trabalho, ou menos apaixonadas.
Não podes sectário ao ponto de pensares numa pessoa, naquilo que ela foi há quarenta anos, e já não é, isso não interessa.
Esse não é o caminho, esse é um caminho de profundo reacionarismo.
As pessoas que estiveram estes anos todos, nesta área da cultura, com cor partidária diversa, são pessoas desligadas de uma realidade cultural. O Barreiro não existe culturalmente, é das terras mais deprimentes do mundo no plano cultural.” – salienta.
Não chega para dizer que se faz teatro no Barreiro
Perguntámos que pensa daquilo que se faz de Teatro no Barreiro.
“Há grupos, como o Arte Viva, que tem um trabalho contínuo, que tem um trabalho de formação com jovens, que trabalha com crianças numa escola, que tem tido uma entrega extraordinária na divulgação de dramaturgos, os quais a maior parte das pessoas nem sabe quem são, mas eles esforçam-se por dar informação. Fazem um trabalho extraordinário.
O trabalho do Graciano Simões. Quando comecei a minha referência era o TEB. Fizeram uma produção das melhores do país, com gente como o Manuel Alpalhão, a Raquel Maria, que se tornou uma actriz de âmbito nacional. O Graciano é uma figura, mas não tem é condições para trabalhar.
O Luciano Barata tem um trabalho extraordinário no Projéctor.
Mas, todo este empenho não chega para qualquer entidade camarária dizer que se faz teatro no Barreiro. Não chega” – sublinha António Cordeiro.
Relação com o Barreiro uma desilusão profunda
Ao longo da entrevista recorda acontecimentos que guarda na memória.
Uma reunião que fez com um Presidente da Câmara para apresentar um projecto, que envolvia um conjunto de actores profissionais, interessados em apostar no Barreiro com a criação de uma companhia residente.
“Almada tem um caso de sucesso, podíamos tentar um projecto no Barreiro” – dizia ao então Presidente.
“Foi das reuniões mais rápidas que tive, depois de apresentar o plano” - sublinha.
“Vamos apoiar dois moços que se estão a tentar profissionalizar-se, disse-me o Presidente. Eu trazia um companhia de actores” – recorda.
Outro foi um projecto que esteve envolvido destinava-se a dar vida ao Teatro Cine do Barreiro.
“Era uma casa lindíssima no centro do Barreiro. Foi um projecto feito com o Guerra Soares. Era extraordinário
Teríamos hoje ali um projecto Municipal” – recorda, sentindo-se nas suas palavras a tristeza de tal não ter sido possível concretizar.
Por fim refere que apresentou uns projectos, mas que lhe disseram – “já estavam a pensar fazer tudo aquilo que apresentei, ainda devem estar a pensar, porque ainda não vi nada feito” – sublinha.
“Esta é a minha relação com o Barreiro, de uma desilusão profunda” - refere.
Ternura tenho de amigos
Mas que significa o Barreiro para si, perguntámos.
“Eu gosto muito de viver aqui, porque vivo no melhor sítio do Barreiro, com a melhor vista do mundo, que vai desde a Serra da Arrábida até à Serra de Sintra, e tenho o rio a dez metros da minha porta, ali na Rua Miguel Pais.
Mas não tenho qualquer relação afectiva com o Barreiro, vivia aqui como em qualquer outra parte do mundo. Ternura, tenho de amigos. Gosto de morar aqui, prefiro morar aqui, que em qualquer periferia de Lisboa.”
É muito difícil de facto viver do Teatro
É difícil viver do teatro em Portugal nos dias de hoje? - perguntámos
“Profundamente. Quando comecei a querer ser actor diziam-me – “Só custa os primeiros dez anos ou vinte anos”. Como não tinha experiência nenhuma achava aquilo curioso, porque era dito por quem já estava na profissão há dez ou vinte anos.
Quando se começa a gente quer fazer e não nos deixam, mas quando passam vinte anos e a gente quer fazer e não nos deixam é que é uma grandessíssima merda.
Já levo dez anos de entendimento daqueles que diziam que são precisos vinte anos, daqui a pouco são trinta anos.
É muito difícil de facto viver do Teatro. Muito difícil, porque vivemos de facto num país que não aprecia a sua cultura.” – sublinha.
Jorge Sampaio uma pessoa que sempre me encantou
“Vivemos num país, não posso generalizar, naturalmente, até porque, nem todos os Presidentes da República que tivemos, são como o que temos actualmente, uma pessoa desligada do panorama cultural e culturalmente, com quem não tenho qualquer problema politico ou pessoal, até porque não tenho qualquer filiação.
Digo este, porque o que esteve antes era um homem ligado à cultura, talvez porque eu simpatizo no plano humano e pessoal com Jorge Sampaio, que foi uma pessoa que sempre me encantou. O meu lado afectivo em relação aos políticos é quando eles me vão ver ao Teatro. Eu fico muito feliz. O Sampaio foi ver-me.” – refere.
Quantos portugueses já foram ver teatro?
“Eu não sei como é que uma pessoa vai para Ministro e na sua vida, não tenha ido uma ou dez vezes ao Teatro.
Mas este é um problema da nossa população. Quantos portugueses já foram ver teatro? Seja uma revista no Parque Mayer, ou espectáculos mais elaborados como a Cornucopia. Falo desta por ser das mais antigas.” – sublinha António Cordeiro.
Televisão tem que levar as pessoas ao teatro
Interrogámos se a televisão não tira público ao teatro.
“A televisão tem que levar as pessoas ao teatro como o fazem no Brasil.
Em Portugal há um problema cultural, não se formam públicos.
A própria Escola não tem um programa de Animação Cultural, que promova jogos dramáticos, que descubra jovens actores.
Fiz um espectáculo no Barreiro, estavam 50 pessoas, 30 eram meus amigos. Gostei de ver ali os meus amigos.” – sublinha.
Dificuldades afastam as pessoas do Teatro
Refere António Cordeiro, que a situação de austeridade também afecta e desmobiliza as pessoas de ir ao teatro – “ É caro ir ao teatro e as dificuldades afastam as pessoas”.
Por outro lado, expressa a sua preocupação sobre as dificuldades de saídas profissionais para muitos jovens que frequentam as Escolas de Ensino Superior no âmbito das Artes.
“Temos um mercado pequeno que não vai conseguir receber os jovens actores que saem das escolas.
E, de facto, o mercado da televisão abre-se mas a pessoas que nunca serão actores” – salienta, acrescentando – “as pessoas têm que aprender, têm que ter formação”.
Voltaria a fazer o percurso que fiz
Perguntámos se voltasse atrás na sua vida, se faria a mesma opção de vida
“Ser actor é fascinante porque é feito toda a vida. Não há reforma.” – salienta António Cordeiro
“Voltaria a fazer o percurso que fiz, com muitas das pessoas com quem me dei, porque nunca me interessei se não trabalhar com gente. Interessam-me as pessoas. Interessam-me os projectos e interessam-me as pessoas.
Há pessoas com quem não trabalhei e gostava de ter trabalhado e não sei se ainda trabalharei, ou virei a trabalhar, porém, eu digo: ainda não fiz nada, tenho tudo para fazer…”
Foi uma conversa, numa tarde, no Barreiro, ali, no Clube de Vela, a sentir o Barreiro e a olhar o Tejo e Lisboa acenando da outra margem.
S.P.
Homenagem na Mostra de Teatro do Lavradio
Trabalho de Ivo Almeida da Secção de Cinema da SFAL













