Marta Baeta do Barreiro três meses numa escola no Quénia«Acho que nasci para isto, para tornar a vida das outras pessoas melhor»

Por Jornal Rostos
Marta Baeta tem 24 anos, é natural do Barreiro e esteve três meses numa escola na Kibera, Quénia, a fazer voluntariado. À margem do primeiro Ignite no Barreiro, falámos com esta finalista do curso de Relações Públicas e Comunicação Empresarial que diz ter trazido desta sua experiência no Quénia a sua maior lição de vida, que é o facto de as pessoas conseguirem ser felizes com tão pouco. E o que começou como voluntariado permitiu criar o From Kibera With Love, um projecto que “há-de ser para sempre” e que hoje permite pagar a educação a 16 crianças, sendo que o intuíto é o de envolver mais crianças e mais desígnios. Contando com a ajuda de todos. E porque “não basta estar vivo, é preciso viver a vida”, Marta Baeta quer ajudar a “mudar vários mundos” ou “o mundo de pessoa a pessoa”.
O que leva uma jovem a partir para um projecto como este?
Marta Baeta (MB): Acho que este foi, na verdade, o sonho de uma vida, porque sempre ambicionei fazer uma coisa assim e sempre me revoltei muito com a história das pessoas que preferem ficar em casa no conforto e que quando passam por um sem-abrigo, preferem virar a cara e fazer de conta que não está ali ninguém, o que é muito mais simples e prático. Mas há qualquer coisa que me faz mover e fazer mais…
Quando chegaste ao Quénia deparaste-te com uma realidade completamente diferente. Ias preparada para isso, ou melhor, é possível alguém sentir-se preparado?
MB: Eu pesquisei muito sobre a Kibera, sobre o estilo de vida no Quénia e sobre tudo o que poderia enfrentar mas claro que foi dez vezes pior. Foi horrível. Durante as primeiras duas a três semanas estava um pouco em estado de choque porque fazia a minha rotina lá mas não conseguia digerir nada sobre nada. Para mim estava tudo normal, os meus pais perguntavam-me como estava a ser [a experiência] para lhes contar tudo e eu dizia que estava a ser normal. Não conseguia contar-lhes nada. Só com o tempo é que comecei a perceber a situação em que estava envolvida, assim como o estilo de vida e a forma como as pessoas viviam.
As diferenças…
MB: Sim, as diferenças que existiam e a má condição em que estas pessoas vivem e só aí é que comecei a conseguir digerir um bocadinho melhor isso e, nessa altura, foi complicado.
Durante a tua apresentação no Ignite fizeste também referência a algo dessa realidade, que é o facto de as pessoas conseguirem ser felizes com tão pouco. Foi essa a principal lição que trouxeste?
MB: Sim, foi a maior lição de vida que aprendi. Tanto as crianças, como os adultos com quem me relacionei estão sempre felizes, apesar de não comerem há dois dias, apesar de terem a roupa toda rota, e de terem doenças, mas estão felizes, sempre. Nós, aqui, se ficamos com febre, já não saímos de casa e sentimo-nos mal e é o fim do mundo. Eles estavam com febre constantemente e estavam sempre felizes e nunca pediam nada em troca para terem felicidade.
Com este tempo de voluntariado acabaste por iniciar o Kibera With Love e, com isso, conseguiste inclusivamente que 16 crianças continuem os seus estudos…
MB: Sim, esse projecto há-de ser para sempre, assim o espero, porque, para além dessas 16 crianças que agora já estão a estudar – e que espero que prossigam até à universidade -, existem milhares de crianças na Kibera que espero poder vir a ajudar. A maior parte delas irão passar pela escola onde estive a fazer voluntariado. E este projecto, que é tão grande, está a ser possível de ser concretizado porque tem havido muita adesão por parte das pessoas.
Um apoio que já ultrapassa as nossas fronteiras…
MB: Recebo donativos de vários países, muitos do Brasil. Os meus amigos que estão fora do país contribuíram para isso porque divulgaram este projecto e a ajuda tem chegado de todos os cantos do mundo. Isso permitiu que em dois meses já tenha dinheiro suficiente para que estas 16 crianças estejam na escola durante o próximo ano e vou introduzir mais dez fotografias de novas crianças que tenho a certeza de que irão para a escola no próximo ano. Também tenciono ir ao Quénia em Julho para sugerir aos directores das escolas e às famílias (dos que as têm) que as crianças sejam retiradas das escolas que não têm as mínimas condições de ensino e colocadas na escola pública. Acho que para este ano são cerca de 100 crianças. Também tencionamos começar os tratamentos de HIV, o que é fundamental, porque não adianta estar a garantir educação, se as crianças não tiverem saúde para terem um bom aproveitamento escolar. E, no futuro, espero – e isto ainda no final do ano, quando for novamente uma nova temporada para o Quénia -, começar a arranjar um terreno para construir um orfanato.
Muitos projectos e muita vontade de ajudar…
MB: Sim, muita.
És uma jovem estudante, empenhada num projecto de voluntariado que se converteu num verdadeiro trabalho a tempo inteiro em prol dos outros…
MB: Sempre fiz muitas acções de voluntariado e sempre achei que queria mudar vários mundos, o mundo de pessoa a pessoa, e acho que nasci para isto, para tornar a vida das outras pessoas melhor.
E em relação ao teu futuro, quando terminares a tua licenciatura, o que pensas fazer?
MB: Sim, eu vou acabá-la agora e não faço a mínima ideia. Mas a vontade é a de continuar este projecto e para trabalhar que seja numa Organização Não Governamental (ONG) que já tenha nome, não quero tornar este projecto uma ONG grande para fazer disto um emprego para mim, porque isto é uma paixão não é uma obrigação. Mas vamos ver…
Andreia Catarina Lopes













