«Jogo de Janelas» de Francisco Ceia«Contribuir para não haver esta resignação e para a indignação»

Por Jornal Rostos
No final de mais um encontro de apresentação do seu livro «Jogo de Janelas», que decorreu na SFAL – Sociedade Filarmónica Agrícola Lavradiense, no Barreiro, Francisco Ceia, falou com o jornal «Rostos», numa conversa que proporcionou um «mergulho» nas suas memórias.
Contribuir para não haver esta resignação
Que te motivou a escrever o teu livro «Jogo de Janelas«?
“Houve um dia, sentei-me, peguei na guitarra, para escrever mais uma canção. Indignado. Todos estamos indignados. Foi isso que eu fiz, escrever mais uma canção.
A partir de uma certa altura, esse pequeno regato, deixou de ser uma canção, passou a ser uma canção já com algum caudal.
A determinada altura percebi que já não era mais uma canção, a canção dessa indignação, ou dessa não resignação, a minha forma de gritar, porque se tratou e trata-se de um grito no inicio do livro, veio a desencadear o rio em que se transformou, as vozes e os afluentes que fui encontrando pelo caminho, que o foram tornando mais forte, mais frágil, onde, verti algumas lágrimas, onde soltei muitas gargalhadas e a aventura em que tudo isto se tornou, fui abrindo janelas, foram aparecendo pessoas, a debruçar-se nos parapeitos.
Como tu sabes, as janelas dá para ver de dentro para fora, mas também dá para ver de fora para dentro, é isso que eu acho ( eu não gosto da palavra acho, porque este é um país de achistas, estão sempre a achar qualquer coisa).
O que eu sinto, todos os dias quando estou nestes encontros com as pessoas, vai para os cinquenta, esse olhar, essa janela escancarada, também é para dentro, este livro é o meu dentro, que eu escancarei e escancaro.
Este livro é aquilo que eu sou, aquilo que eu dou, com o livro e as minhas canções, é aquilo que eu sei fazer, ou seja, é o que eu posso contribuir para não haver esta resignação e para a indignação.
O mundo é mais que a televisão
Choraste a escrever este livro? Que te levou a chorar?
“Sim, algumas vezes. O episódio concreto do clarinetista, é um exemplo. Nunca estive num campo de concentração. Mas todos nós estivemos lá um bocadinho, é disso que se trata, até onde o ser humano foi e muitas vezes continua a ir, porque todos os dias nos entra pela casa, naquela janelinha que eles dizem que é uma janela que mostra o mundo, eu digo, que é uma janela que reduziu o mundo àquele tamanho, porque o mundo é mais que a televisão, e a prova foi este momento que vivemos aqui hoje, nesta apresentação”.
Estas janelas são as pessoas
A ideia de janela no teu livro é uma visão do mundo moldado por essa janela no tempo de hoje?
“Não, não! Estas janelas não tem caixilhos, estas janelas são as pessoas, é o parapeito, é isso mesmo o para…peito.”
Canções são pequenas estórias
Porque começaste o teu livro com poesia?
“Porque é uma canção. Eu normalmente escrevo as canções assim, as canções são isso, são pequenas estórias, pequenos poemas. Foi assim que ele nasceu”
Solidão de escrever é partilhada nestes momentos
Que resultado pretendes alcançar com este teu livro?
“Todos os dias, que encontro as pessoas nestas chamadas apresentações, que eu prefiro encontros, todos os dias, tenho o reconhecimento, o prazer de quando a solidão que é o acto de estar a escrever, depois, é partilhada nestes momentos, aí, é o máximo que se pode atingir, pelo menos eu sinto essa riqueza.
Não há um objectivo. O objectivo se calhar é continuar a escrever”
Desde os meus doze anos que escrevo
Vias continuar a escrever?
“A essa pergunta só respondo na presença do meu advogado. É assim, eu nunca deixei de escrever, desde miúdo, desde os meus doze anos que escrevo.
Vou contar uma história. Quando tinha quinze anos, eu esfregava os olhos, propositadamente, para os ter vermelhos, para ficarem, se quiseres, com ar doentio, que era para ser escritor, um artista. Quando temos catorze anos fazemos estas loucuras. Esfregamos os olhos.
Eu li o Kafka, quando tinha 14 ou 15 anos, e nessa altura sonhava ser escritor. Depois deixei esse sonho, e pensei. Francisco, olha a vida a correr ao teu lado.
Não te esqueças que o 25 de Abril foi pouco tempo depois dos meus 14 anos.
Essas janelas que Abril abriu – como disse o outro poeta – estas portas, eu também as vivi, joguei futebol, fiz teatro e vivi, porventura, aquilo que hoje estou a fazer é a encontrar-me ou reencontrar-me com essas memórias de muitos anos, de muitas pessoas, de muitas vivências um pouco por todo o lado”
S.P.
Foto - Marta Sousa Pereira













