António Cordeiro – Actor na Conferência «Inspira Barreiro»«Instala-se uma névoa sobre os criadores que existem» no Barreiro
“Eu acho que é possível transformar o Barreiro num sitio que possa, não só, acolher os artistas que vêm de fora. Aqui há gente interessada e capaz de fazer coisas”, disse o actor António Cordeiro, dando os exemplos do Barreiro Rocks e do Out Fest, numa intervenção apaixonada na Conferência Anual de Empreendedorismo – Inspira Barreiro

Por Jornal Rostos
Na Escola Superior de Tecnologia do Barreiro, ontem à tarde, realizou-se a Conferência Anual de Empreendedorismo – Inspira Barreiro, no decorrer da qual António Cordeiro, actor, que integra a telenovela «Mar Salgado», na SIC, proferiu uma intervenção tendo como tema: “Empreender culturalmente num lugar improvável».
Ser empreendedor é ser teimoso
António Cordeiro começou por salientar que o conceito “empresa” é para ele um “universo estranho” e “novo”, acrescentando que “ser empreendedor é ser teimoso”.
Recordou que chegou ao Barreiro no ano de 1966 e contrariamente a muito que ingressavam na Escola Alfredo da Silva ele foi para o Liceu do Barreiro, onde ia realizar – “tudo o que o pai pensa para um filho”.
Depois, aconteceu o 25 de Abril, de um dia para o outro sublinhou deixámos um mundo a preto e branco e começámos um mundo a cores.
Tornei-me actor porque fui teimoso
Nos anos 80, salientou – “fiz tudo e não fiz nada”, mas foi a sua descoberta do mundo do teatro – “sou actor porque sou teimoso”, disse, acrescentando que neste mundo – “fiz um empreendedorismo notável”.
“Tornei-me actor porque fui teimoso, foi a actividade que escolhi”, salientou.
Somos uma classe estranha
Recordou que há 30 anos começou a grande dedicação ao teatro com “com um grande actor” – Carlos Miguel – o Fininho do 123.
Numa intervenção que se sentia emocionada, de palavras soltas de improviso, recordou que quando fez 50 anos, criou uma associação – “Um lugar Improvável”, um projecto que ficou na gaveta.
Sublinhou que a vida de actor em Portugal é de “uma classe estranha” – “não tem carteira profissional”, mas “pagam iva” e “não têm subsídio de desemprego”.
“Somos uma classe estranha numa sociedade onde a última coisa que interessa é a cultura”, disse.
Cultura não faz parte dos objectivos
Referiu que a cultura não faz parte dos objectivos de quem chega ao poder – “a todos os níveis” – basta ver que o “Orçamento de Estado é de zero, zero,vírgula, zero”.
Esta realidade é para António Cordeiro uma motivação para “não ficar quieto” e por essa razão – “decidi investir em mim”, embora consciente que – “ninguém faz nada sozinho”.
Sublinhou que não aceita em teatro o conceito “representar, porque “representar – “é tornar presente”, prefere o conceito “jogo dramático” - um jogo de “competências”.
Qual a importância desse jogo? Porque estou a falar convosco num lugar quase improvável que é o Barreiro? – interrogou.
Protocolos que não servem para nada
Referiu que a “Associação “Um lugar Improvável”, que decidiu arrancar da gaveta, que lhe permitiu conhecer gente no Barreiro que “está a fazer um trabalho”, gente que acredita que – “no Barreiro como um lugar onde se fizesse cultura, entretenimento e espectáculo”.
Recordou que a “Associação “Um lugar Improvável”, já assinou dois protocolos com a Baía do Tejo e com a Câmara Municipal do Barreiro.
“Protocolos que não servem para nada”, disse. “As instituições não têm dinheiro”, referiu.
Falta de capacidade de divulgar
Salientou que, um destes dias foi ao Auditório Municipal Augusto Cabrita, ver um espectáculo de António Cabrita – “um espectáculo bom em qualquer lugar do mundo, estavam lá 40 a 50 pessoas”.
Lamentou – “a falta de capacidade de divulgar as coisas que se fazem no Barreiro”.
Uma névoa sobre os criadores
“Eu acho que é possível transformar o Barreiro num sitio que possa, não só, acolher os artistas que vêm de fora. Aqui há gente interessada e capaz de fazer coisas”, disse dando os exemplos do Barreiro Rocks e do Out Fest.
Mas, sublinhou, estes projectos – “têm que ter lugar numa politica cultural”.
Na sua opinião – “instala-se uma névoa sobre os criadores que existem” no Barreiro.
“Temos jovens criadores que lutam por um lugar onde se possam fazer coisas”, disse.
Levar o Barreiro pelo mundo
António Cordeiro, referiu que “a memória é fundamental”, salientando que vivemos num país – “que esquece toda a gente”.
Recordou Henrique Canto e Castro – “o actor mais notável com quem trabalhei, morreu há dez anos, não tem o nome numa rua de Lisboa, não foi feito um documentário sobre a sua vida”.
“Trazer à cena quem cá não está” – assim como – “De volta à cena”, é um dos objectivos da “Associação “Um lugar Improvável”.
Sublinhou que pretende promover em colaboração com o Museu Nacional do Teatro, no Barreiro, uma exposição sobre a vida e obra de Canto e Castro.
“Este é o meu lugar improvável”, disse, mas é aqui que pretende dinamizar este projecto e com ele levar o Barreiro ao longo de todo o país.
“Levar o Barreiro pelo mundo”, salientou.
São precisos 40 mil euros
António Cordeiro, referiu que para concretizar o projecto feitas as contas – “são precisos 40 mil euros”.
“O meu sonho é fazer esta realidade e ficar feliz”, disse.
Sublinhou que o Barreiro é uma terra onde há muitas pessoas com “capacidade” e “iniciativa”.
“Não deixem que o vosso sonho desapareça”, afirmou.
A finalizar salientou que faz telenovela com “brio profissional”, mas na vida é preciso “fazer diferente” e não ter apenas a “finalidade de uma carreira”.
“Eu quero fazer coisas”, sublinhou.
E essas coisas passam por este “lugar improvável”, no Barreiro.













