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Perspectivas

Álvaro Carvalho, Director do Programa Nacional para a Saúde Mental no BarreiroSaúde Mental é parente pobre da Saúde em Portugal

. No ano 2020 prevê-se que as «perturbações mentais» possam ser a 2ª causa da incapacidade em termos mundiais.

Álvaro Carvalho, Director do Programa Nacional para a Saúde Mental da Direcção Geral de Saúde, no decorrer do jantar-palestra promovido pelo Rotary Clube do Barreiro, sublinhou a necessidade de existir por parte da comunidade um “atitude mas atenta à realidade da saúde mental”, salientando que Portugal tem nesta matéria – “temos uma posição internacional muito desconfortável”.

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Álvaro Carvalho, Director do Programa Nacional para a Saúde Mental no Barreiro Saúde Mental é parente pobre da Saúde em Portugal

Por Jornal Rostos

O Rotary Club do Barreiro, ontem à noite, promoveu um jantar de palestra, no restaurante da Associação de Fuzileiros, sendo prelector convidado Álvaro Carvalho, Director do Programa Nacional para a Saúde Mental da Direcção Geral de Saúde e Coordenador da Equipa de Projeto para os Cuidados Continuados Integrados de Saúde Mental.
O Tema da palestra foi "Da Loucura à Saúde Mental".
Foi uma reunião aberta do Rotary Clube do Barreiro, que contou com a cerca de uma centena de personalidades da vida local, ligadas a diversas instituições de acção social e autarquias.

Uma posição internacional muito desconfortável

Álvaro Carvalho, começou por referir a necessidade de existir por parte da comunidade um “atitude mas atenta à realidade da saúde mental”, salientando que Portugal tem nesta matéria – “temos uma posição internacional muito desconfortável”.
A sua intervenção centrou-se numa reflexão sobre a evolução dos conceito “vida mental”, “saúde mental” e “doença mental”.
Referiu que actualmente – “há uma estratégia internacional” de avaliação dos efeitos da “doença mental” na vida social.

Do sobrenatural ao cientifico

Recordou que a saúde mental, foi considerada em diversas dimensões ao longos dos séculos, desde ser considerada “possessão demoníaca”, ou uma “degenerescência”, ou até ser fruto de “hereditariedade”, gerando-se ao longo dos tempos – “muita confusão entre o pensar e sentir”, e de análises – “do sobrenatural ao cientifico”.
Referiu que uma doença mental pode ser definida como “perturbações de comportamento”, ou alguém que tem “um funcionamento fora da realidade”, que pode ir de uma psicose até à esquizofrenia.

A importância do cérebro

Salientou que no século XIX, gerou-se uma mudança de interpretação da “doença mental” que deixou de ser encarada não numa “relação com a religião”, mas sim numa “relação com a moral”.
Recordou a importância de Freud, com o desenvolvimento da Psicanálise, o seu papel no “rever situações traumáticas” e no “reorganizar a vida mental”.
Recordou Pavlov e a suas teorias “comportamentalistas” e Egas Moniz - Prémio Nobel – que contribuiu para pensar a “vida mental” tendo por referência “o bom ou o mau funcionamento do órgão cérebro”.

Das prisões ao Hospital Psiquiátrico

Álvaro Carvalho, referiu os vários momentos de desenvolvimento de metodologias de tratamento, desde os psicofármacos – nos anos 50 – a insulina – nos anos 60 - aos neurotransmissores – nos anos 80.
Sublinhou a tipologia de estruturas, ao longo dos anos, destinadas ao acompanhamento dos «doentes mentais», inicialmente nas prisões, depois em Manicómios, passando por Asilos, até aos Hospitais Psiquiátricos.
Recordou que o primeiro Hospital Psiquiátrico em Portugal foi o Miguel Bombarda, no ano de 1948.

O cérebro é muito complexo

Sublinhou que perante a “Doença Mental” existiram sempre posições diferenciadas – desde atitudes fóbicas, ao medo, aos estigmas, até à reflexão do ponto de vista psico-social, partindo da premissa que – “os seres humanos funcionam em constante interacção” - com dimensão biológica, psicológica e social.
Na vertente biológica referiu, entre outros aspectos, a reflexão com base nos genes e situações patológicas.
Na vertente psicológica referenciou percursos de vida e aspectos cognitivos.
Na vertente social referiu o estatuto sócio económico, profissão e aspectos sócio-culturais.
“O cérebro é muito complexo”, salientou, acrescentando – “o que se passa dentro do cérebro não é percebido de fora”.
Sublinhou que – “ainda não há forma de perceber as origens da adrenalina”.

Epidemiologia – a matemática aplicada à saúde

Na sua intervenção, sublinhou a importância da “epidemiologia” e o seu contributo para a análise e quantificar as doenças – “trata-se da matemática aplicada à saúde”.
Neste sentido considerou a importância de ser avaliada a “prevalência das principais doenças mentais” e suas taxas anuais.

Conceito de Saúde Mental

“O conceito de Saúde Mental ultrapassa a Psiquiatria” – sublinhou, acrescentando que a “Saúde Mental” está directamente relacionada com “bem estar e funcionamento eficiente das pessoas” na sua “capacidade de adaptar-se às mudanças” e terem – “sentido para as suas vidas”.
“Um número significativo de pessoas com perturbações mentais graves, não procuram ajuda dos serviços de saúde”, disse, sublinhando que essas pessoas – “não são detectadas, nem seguidas”.
Sublinhou que as “doenças mentais graves” são “doenças crónicas” que colocam as pessoas numa situação – “psico-socialemente incapacitadas”.
Referiu que as –“perturbações psiquiátricas” são umas “das principais causas de incapacidade”

Anos de vida ajustados à incapacidade

Álvaro Carvalho recordou que ao nível da Europa, as perturbações mentais numa análise de – “anos de vida ajustados à incapacidade” atinge índices de 40%, a média mundial ronda os 31%.
Prevê-se que no ano 2020, possa ser a 2ª causa da incapacidade em termos mundiais.
As doenças mentais vão da depressão, esquizofrenia e bipolaridade.
Em Portugal, as «doenças mentais e comportamentais», são a segunda causa de “anos de vida com incapacidade”. Em primeiro lugar são as doenças de origem cérebro vascular e em 3º lugar as doenças oncológicas.
“Anos perdidos de vida saudável devido a uma doença” – sublinhou.
“O financiamento da saúde devia ter em consideração esta realidade”, disse, acrescentando que - “a Saúde Mental é um parente pobre da Saúde em Portugal”.

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