Teatro Vestido «despiu» as memórias do BarreiroUma viagem para dar dimensão histórica aos espaços e lugares
Viver a resistência, a cultura Operária, o patrão Alfredo da Silva, a cortiça, os ferroviários e deixar espaço para que – “sinta quem vê”.

Por Jornal Rostos
Num tempo que tanto se fala de memória, o Teatro Vestido, vindo de fora, chegou, olhou, conversou e encenou um espectáculo tendo como temática – «Trabalho, Memória e Abandono».
Um trabalho que resultou de uma residência no Barreiro, ao longo de cerca de um mês, onde o grupo vasculhou arquivos e mergulhou por dentro de sentimentos, guardados em memórias vivas.
Leal da Silva, Olga Costa Mano, Rosalina Carmona, foram algumas das pessoas que contribuíram para ajudar o colectivo teatral a erguer um trabalho que nos transportou por dentro do tempo e na descoberta do tempo vivido.
Génese de uma identidade cultural
Um espectáculo encenado no espaço real, ali, no território do Parque Empresarial da Baía do Tejo, e leva-nos à descoberta das memórias espalhadas nos lugares – do Bairro Operário, ao Bairro Ferroviário, até à Estação do Lavradio.
Um espectáculo que nos transporta à génese de uma identidade cultural, das memórias das salinas, à implantação dos Caminhos de Ferro, das Fábricas da Cortiça até CUF.
Um espectáculo que nos fala de operários e de cultura operária e nos fala de patrões e de realidade chamada CUF, com tudo o que essa realidade sócio-económica marcou a vida de uma comunidade, durante mais de um século e não ignora a importância de Alfredo da Silva.
Entre o real e a ficção
Um espectáculo que refere factos, um espectáculo factual, documental, que deixa espaço aberto para cada um, de acordo com as suas opções ideológicas e forma de olhar para a história e para as memórias - sentir, pensar, reflectir.
Um espectáculo onde os espectadores são actores, participam interagem com os actores.
Um espectáculo, onde de súbito, sentimos ao nosso lado a personalidade real, de lágrimas nos olhos, e de beiço a tremelicar a olhar para a personagem em acção, contando estórias e remexendo nas memórias.
Ali, a meu lado, Rosalina Carmona, emocionada, olhava, a Rosalina Carmona, investigadora, a personagem mergulhada nos arquivos dos ferroviários.
Nem só de pão vive o homem
Sentamo-nos, no meio da rua, na zona da antiga zona têxtil, de frente para o «Espaço Memória» que se abre, na nossa frente, com caixas de arquivos, ali, aqueles registos do tempo.
Olga Costa Mano, recorda tempos vividos e transporta-nos por dentro de vivências de uma terra que, desde sempre, viveu com a palavra «solidariedade» feita de acontecimentos reais e de portas abertas, na Rua Aguiar, ali, onde os «Camarros», sente o pulsar e o evoluir de uma comunidade de pescadores a operários da cortiça, de ferroviários a operários da CUF.
Sentimos aquelas memórias partilhadas com emoção, recordando tempo vividos, de luta, de resistência de amor à Liberdade. Uma cultura sentida naquele pensamento – “nem só de pão vive o homem” – por isso forjava colectividade e p associativismo como espaços de vivências comunitárias, recreativas, desportivas, culturais e politicas.
Afinal a foto é no Barreiro ou na Marinha Grande
Percorremos os recantos do Arquivo Municipal e somos alertados para os tempos da Guerra Colonial, das perseguições politicas, dos encontros clandestinos e dessa vontade de conquistar a Liberdade.
Saímos do Arquivo Municipal e deparamos com a projecção da foto mítica – aquela referenciada como sendo uma carga da GNR, sobre as mulheres do Barreiro, na Greve de 1943. Eu editei, várias vezes, essa foto com essa legenda. Era o que se dizia.
Até que um dia, estando de férias no Baleal, concelho de Peniche, visitei a prisão de Peniche e, com surpresa, deparei na exposição, ali patente, lá estava essa mesma fotografia, com a legenda – Repressão da GNR sobre trabalhadoras na Marinha Grande.
Publiquei uma nota, numa rúbrica – Ojectiva - que mantinha no extinto Jornal do Barreiro, interrogando: Afinal a foto é no Barreiro ou na Marinha Grande.
Leal da Silva, decidiu investigar e no seu estudo conclui que a fotografia não é a GNR, mas sim a PSP, numa acção de repressão em Alcântara – Lisboa.
É ele mesmo o actor-personagem Leal da Silva que nos conta história e desmistifica a fotografia ícone e referência de sucessivas gerações.
Tal, não invalida os factos contados à sua volta e a importância da Greve de 1943.
Movimento por entre as raízes da memória
O público é levado a caminhar, por entre os espaços da antiga zona têxtil, de súbito sentimo-nos operários, rodeados de esbirros que nos controlam os passos.
Somos personagem. Homens e mulheres em movimento por entre as raízes da memória.
Enquanto caminho recordo os ruídos dos teares, o cheiro da juta e as centenas de operários e operárias a sair junto ao portão, onde, agora, está a Esquadra da Policia de Segurança Pública.
Maior império industrial da Península Ibérica
Chegamos ao espaço do Campo de Santa Bárbara. Ali, está Carló, cuja história é recordada. A relação do desporto com a fábrica.
O Campo de Santa Bárbara que faz este ano 50 anos que deixou de funcionar com a inauguração do Estádio Alfredo da Silva.
E junto ao Mausoléu é evocada a figura de Alfredo da Silva, o patrão – paternalista, empreendedor, visionário que construiu o maior império industrial da Península Ibérica e um dos maiores da Europa.
Dar dimensão histórica aos espaços e lugares
Entramos num autocarro. Os actores são personagens vivos, partilham o espaço. Comunicam. Vozes que contam estórias, com uma dicção, ela mesma marcada de sentimento poético.
Um texto que tem dimensão estética e ética. Faz-nos sorrir e pensar.
Percorremos as ruas da cidade. Recorda-se o 22 de Novembro. Os Penicheiros. Memórias.
Encontramos personagens ao longo do percurso que entram no autocarro, para contar estórias e dar dimensão histórica aos espaços e lugares.
Na Avenida da República recorda-se os ferroviários e a sua importância na cultura da comunidade.
O lugar, assinalado, onde foi içada a «Bandeira Vermelha», por Acácio Costa, episódio que levou muitos barreirenses para os Campos do Tarrafal.
O lugar, hoje denominado – Rua da Bandeira. Que podia chamar-se, porque não «Rua da Bandeira Vermelha». Era mais justo isso que terem tirado o nome de Avenida dos Descobrimentos, para lhe atribuírem o nome de Avenida das Nacionalizações.
“Faltou a coragem para lhe dar o nome de Rua da Bandeira Vermelha”, comentava, no texto, da peça, Rosalina Carmona.
Memórias reconstruídas a partir de memórias vividas
Um espectáculo que nos faz sentir o tempo, viver o tempo, sentir acontecimentos e nos transporta por dentro dos nervos. Sentimos o Barreiro aprisionado. Sentimos o Barreiro na sua dimensão cultural e criativa. Sentimos o Barreiro, terra politica, activa e com uma grande paixão pela Liberdade.
Sentimos o Barreiro terra que produz, das salinas à cortiça, dos caminhos de ferro à industria química – terra de progresso, por onde passa o desenvolvimento do país.
Uma terra que recebe gente vinda de muitos lados, em busca de pão, de trabalho e esperança numa vida melhor.
Um espectáculo, sem sectarismo, aberto, documental, que deixa a cada espectador- actor, entrar por dentro do texto e reviver as memórias. A Boleira, ponto de encontro. Os filhos de Catarina Eufémia. Os dias Mundiais da Criança, dinamizados pelo Luso ou pelos Jogos Juvenis do Barreiro.
Memórias reconstruídas a partir de memórias vividas. Certamente, outras memórias, ficam por descobrir. Mas há uma memória que une os barreirenses, esse amor à Liberdade e ao desejo de lutar e sonhar com um mundo melhor.
Construir pontes de sal
O espectáculo termina na Estação do Lavradio, onde os espectadores se juntam aos actores, construindo uma “ponde de sal”, esse sal, afinal, que é a primeira referência produtiva na memória pré-histórica do território do concelho do Barreiro.
A “ponte de sal” que vi nascer, numa construção participada, e, ali, a minha filha Marta, entusiasmada a inscrever naquele espaço de memória – “um coração de sal”.
Um espectáculo que deu um importante contributo para que, de facto, aprendamos a sentir na paisagem urbana a identidade dos lugares, porque, afinal, na paisagem se inscreve a história e a sua dimensão cultural – ética, estética e ontológica!
Parabéns ao Teatro Vestido. Obrigado, por esta noite que me proporcionou “despindo” as memórias do Barreiro. O Barreiro devia voltar a ver este espectáculo.
Antonio Sousa Pereira
Nota – Não se esqueçam de convidar para os próximos. Quero acompanhar as vossas abordagens na Moita, Sesimbra e outras. Fiquei apaixonado, pela vossa sensibilidade, interpretação e olhar sobra as memórias.
SINOPSE
LABOR #2
Labor #2 faz parte de um projecto teatral do Teatro do Vestido em várias partes sobre a história, função e contradições do trabalho. O trabalho “edifica,” “liberta,” “confere dignidade,” “identidade” – dizem-nos, e desde cedo começámos a pensar no que ‘queríamos ser’, ou ‘aquilo em que queríamos trabalhar.’
A sociedade moderna, como a conhecemos, organizou-se e organiza-se em função do trabalho. Mas mudanças subtis tomaram conta da realidade desta sociedade moderna na qual crescemos, e têm vindo a operar uma transformação no lugar central que o trabalho ocupava até agora. O desemprego galopante – e por vezes escondido por estatísticas enganadoras que contabilizam trabalho precário e estágios profissionais como se de emprego real se tratasse – o esvaziamento dos sindicatos, as questões da contratação colectiva, os polémicos acordos da concertação social, as sucessivas greves – tudo isto nos levou a sair da sala de ensaio para as ruas de algumas cidades a ver o que resta, então, do trabalho – e que lugar é que este ocupa ainda hoje na nossa sociedade.
Em Labor #2, investigamos realidades laborais particulares dos concelhos do Barreiro, Moita, Sesimbra, Oeiras, Abrantes e Santarém. Movemo-nos no meio das pessoas, das suas histórias de vida, por entre as ruínas de fábricas, salinas, barcos, e as memórias da resistência anti-fascista e de um tempo – o da revolução – em que tudo estava por inventar. Construímos assim uma espécie de teatro documental, o tipo de teatro capaz de expor a realidade nas suas múltiplas facetas, deixando ao espectador a reflexão possível a realizar. O Teatro do Vestido prossegue com este projecto a sua tentativa de compreensão do presente através de uma convocação da história de Portugal, nomeadamente, fragmentos de uma história que considera ‘invisível’ e esquecida. Labor #1 estreou em Julho de 2013 no Teatro Municipal Maria Matos, em Lisboa.
Ficha Técnica
Direcção e texto: Joana Craveiro
Interpretação: Ainhoa Vidal, Estêvão Antunes, Gustavo Vicente, Rosinda Costa e Tânia Guerreiro
Assistente de encenação: Sabine Delgado
Figurinos: Ainhoa Vidal
Direcção técnica: Carlos Ramos
Técnico: José Pedro Sousa
Produção: Cláudia Teixeira
Assistência no terreno: Igor de Brito
Co-produção: Teatro do Vestido e Artemrede
Apoio: Alkantara, Citemor – Festival de Montemor-o-Velho, Dupla Cena e Espaço L – Estação do Lavradio













