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Perspectivas

Maria Manuel Mota no Rotary Club do Barreiro«O nosso corpo tem mais bactérias que células nossas»

. A malária não é uma doença da pobreza, é uma doença que causa a pobreza

. No mundo são 400 milhões de pessoas afectadas todos os anos pela malária

Maria Manuel Mota, investigadora do Instituto de Medicina Molecular, na sua intervenção referiu que a malária é – “uma das causas principais da migração africana”.
“A malária perpétua a pobreza e destrói a economia africana”, sublinhou.

7 min de leitura
Maria Manuel Mota no Rotary Club do Barreiro «O nosso corpo tem mais bactérias que células nossas»

Por Jornal Rostos

O Rotary Clube do Barreiro, promoveu no Restaurante da Associação de Fuzileiros, mais um jantar-palestra, uma iniciativa que está a despertar a participação e a animar a vida barreirense.
Estes encontros- tertúlia para além de proporcionarem laços de convívio e serem um ponto de encontro, são momentos culturais de referência pelos temas que têm sido abordados.
A convidada do último jantar-palestra Maria Manuel Mota, falou sobre a importância da ciência para a sociedade.
Maria Manuel Mota, investigadora do Instituto de Medicina Molecular, Prémio Pessoa 2013 e reconhecida como uma das maiores autoridades mundiais sobre malária.

Ensino tem que chegar a todos

Maria Manuel Mota, começou a sua intervenção recordando o seu percurso de vida ao nível da aprendizagem.
Tudo começou Na Escola Primária em Vila Nova de Gaia, subúrbios do Porto, seguiu-se a Escola Secundária em Vila Nova de Gaia e a Faculdade de Ciência do Porto, onde licenciou-se em Biologia e posteriormente o Mestrado No Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar.
“Fiz tudo no ensino público”, disse, sublinhando a importância e a qualidade do ensino público em Portugal.
“Conseguimos ter um ensino que atinge todos”, salientou.
“O recurso que nós temos em Portugal são as pessoas, são 9 milhões. Temos que apostar em todos. Temos que ter uma rede de ensino que chegue a todos.
O ensino tem que chegar a todos para que desenvolvam as suas competências”, salientou.

Maria Manuel Mota recordou que foi o sistema de ensino que existe em Portugal – “que me permitiu chegar onde cheguei”.
“Nasci na geração certa”, salienta, porque foi a geração, na qual, Portugal recebeu “fundos europeus” e que deu possibilidades a muitos investigadores de desenvolverem as suas competências.
Recordou a sua ida para Londres, para o Instituto de Investigação mais antigo do mundo, com cerca de 800 investigadores.
“Tive a possibilidade de ir para lá”, refere.

Tudo o que eu penso tem uma base racional

“A base da minha formação é uma base racional. Tudo o que eu penso tem uma base racional”, afirma com entusiasmo.
“Eu queria ser cientista, não fazia a mínima ideia o que era ser cientista”, salienta.
Recorda Mariano Gago. Sente-se que está emocionada.
“Foi a pessoa que fez a diferença. Teve a capacidade de pensar e aplicar os fundos europeus. Formar uma geração de pessoas que vai para fora estudar. Tenho colegas no mundo inteiro”. refere.
Expressa o desejo que um dia “voltem os melhores”, acrescentando – “o país tem que ter condições”.
“Nós precisamos de pessoas com visão e capacidade de fazer. Mariano Gago teve essa visão. Fez a grande diferença de Portugal na Ciência”, afirma.

Colocar as nossas próprias perguntas

Referiu que realizou o seu doutoramento em Nova Iorque, sublinhando a importância de um doutoramento como algo que é importante – “para resolver problemas, isso é sempre bom, o doutorado tem mais formação em determinadas áreas especificas”.
Recordou que após o doutoramento – “começamos a criar o nosso nicho de investigação, a colocar as nossas próprias perguntas”.
“Comecei a criar a minha equipa”, refere.

Em Portugal nada estava construído

Referiu que no ano 2005, foi fundado o Instituto de Medicina Molecular, junto ao Hospital de Santa Maria – “recebi o desafio de ir par lá com a minha equipa”.
“Em Portugal nada estava construído. Foi entusiasmante. Era um oásis comparado com o resto do país. Era criar tudo ao longo do tempo”,. refere.
Foi um projecto que envolveu 400 investigadores.
“Um sítio onde a ciência encontra a medicina. Conversas entre clínicos e investigadores, encontrar respostas a problemas fundamentais da saúde humana”, salienta.

Em contacto constante com o mundo inteiro

Referiu que o Instituto de Medicina Molecular tem como modelo de funcionamento – “uma estrutura horizontal”, com “grupos líder” e todos respondem de igual perante a Direcção.
Por outro lado, sublinhou que a instituição mantém ligações estreitas com instituições de todo o mundo, num tempo que é essencial – “a globalização das ideias e da comunicação”.
“Em Lisboa estamos em contacto constante com o mundo inteiro”, disse.

No mundo uma criança morre de malária por minuto

«Porque ando a passear pelo mundo?» - esta pergunta colocada por Maria Manuel Mota, foi o ponto de partida para falar da «malária» - “um problema do mundo, sou cidadã do mundo”.
“No mundo uma criança morre de malária por minuto. Metade da população do mundo está em risco de contrair malária”, disse.
Recordou que em África – “a malária mantém as crianças fora da escola, mais que qualquer doença”.
Sublinhou que – “a malária perpétua a pobreza e destrói a economia africana”
Na sua opinião – “ é uma das causas principais da migração africana”.

A malária não é uma doença da pobreza

A investigadora referiu que 400 milhões de pessoas são afectadas todos os anos pela malária e que esta é uma doença para o resto da vida.
“A malária não é uma doença da pobreza, é uma doença que causa pobreza, não tema nada a ver com falta de higiene”, afirmou.
“É nisso que tenho trabalhado toda a minha vida”, salientou.
Recordou que a malária – “não é uma bactéria, não é um vírus. Um vírus é um organismo singular, tem que entrar nas nossas células. A bactéria é um organismo parasita”.
Salientou que – “o nosso corpo tem mais bactérias que células nossas”.

Malária é uma doença limpa

Maria Manuel Mota referiu que a malária “é uma doença limpa”, que é transmitida por um mosquito.
O mosquito pica e através das células e da corrente sanguínea – o organismo unicelular - instala-se no fígado – “entre dois a sete dias replica-se”.
“Não há doença. Começa a doença quando vai para o nosso sangue e afecta as células vermelhas do nosso sangue”, disse.
Os sintomas da doença são febre o síndroma da gripe, sendo entre a meia noite e as 4 da manhã que mais se manifesta.

O parasita está dependente do hospedeiro

Maria Manuel Mota salientou que a investigação da malária tem sido o centro do seu estudo cientifico, nomeadamente procurando resposta à pergunta: Porque morrem uns e outros não?
No seu estudo concluiu que – “o parasita está dependente do hospedeiro”.
“Descobrimos a malária que é o sensor do hospedeiro, detecta os níveis energéticos”, disse.
Recordou que – “nós somos aquilo que comemos”.
As células perante uma dieta adaptam-se, diminuem de tamanho, adaptam-se ao futuro.
“Aumentamos de peso ao longo da vida porque comemos demais”, disse.

Todos os países têm que apostar na educação

Maria Manuel Mota, sublinhou – “sou positiva por natureza. A pessoa deve fazer o que gosta”, expressando a paixão pelo estudo e a importância do Instituto de Investigação Molecular – “há 20 anos não tínhamos capacidade de ter o Instituto”.
“Todos os países têm que apostar na educação. Nós precisamos de apostar nas pessoas, na formação das pessoas. A nova geração tem uma grande capacidade de fazer uma formação de grande qualidade”, sublinhou.
“Todos temos um pequeno talento é o papel da Universidade desenvolver esse papel de descobertas de talentos”, salientou.
“Em Portugal temos algumas equipas de investigação fantásticas. Temos cientistas de topo. Ainda somos poucos. Temos que melhorar. Temos que subir a média e atingir uma média superior”, afirmou.
“A investigação tem que contribuir para criar situações de vivências por todo o mundo”, disse.

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