«Hotel da Bela Vista» - Companhia de Teatro do Barreiro ArteVivaRir e reflectir sobre a ‘moral’ e o ‘estômago’ neste «eixo da terra» chamado Europa
Uma peça que diverte e abre espaço para reflectirmos sobre este tempo que vivemos, aqui e agora, neste «eixo da terra» - este lugar chamado Europa.

Por Jornal Rostos
Um cenário feito de «colagens», um cenário que é ele mesmo arte – desculpem lá, não resisto, repetir, porque de facto, é, ‘arte no espaço’. Luz. Mensagem. Um cenário onde o encenador pensa o texto e exprime o texto. É, de facto ‘arte no espaço”.
Um cenário que é, ele mesmo, um quadro marcado, com vida própria, com uma estética deliciosa, onde a iluminação está pensada ao pormenor e tem uma dinâmica interactiva com o desenrolar do espectáculo, permitindo a fluidez dos personagens.
Um cenário feito de artefactos, de resíduos da memória, de snobismo decadente, contextualizado naquele mapa do «eixo da terra», a nossa Europa, este lugar de cultura e referências que se espalhou pelo mundo – a europeização do mundo.
Um cenário que é, ele mesmo, uma “personagem" presente que nos acompanha, nos diálogos das personagens e, afinal, encerra toda a dramatização, ali, fortemente iluminado, ao fundo do ‘túnel”, e, despedindo-se do público, com uma interrogação: Será que no futuro ele ainda vai estar de pé?
Um hotel que nos transporta para os «luxos» desta Europa, deste nosso Portugal, deste nosso Barreiro, onde se pretende esconder no «luxo» de «ambientes aristocratas», as dividas, os credores, e a aposta é mais no parecer, que no ser, onde as ideias, facilmente são «irrevogavelmente» alteradas.
Bertol Brecht, um dia afirmou: «Primeiro vem o estômago, depois a moral», é, de facto, esta a mensagem que retiramos no final desta peça, onde, os personagens, facilmente – ‘saem dos seus papéis’ – mudam de opinião, porque o que conta é a sobrevivência e o «Deus financeiro» que comanda os destinos desta nossa Europa – ontem e hoje.
Ah, é verdade, e Portugal, o tal país, que, já nesses anos 30, pelos Alemães, era conhecido como o país onde – “há naturezas corruptas, muito corruptas”.
Gostei de todas as interpretações, coerentes, vivas, que dão dimensão ao texto, vivendo-os nas suas angústias e emoções.
Parabéns ao Rui Quintas, está excelente. Belo regresso aos palcos do nosso Barreiro. Uma interpretação brilhante.
Igualmente, nota máxima, para a nossa «Baronesa» - Patrocinia Cristovão, que de forma sublime, assumiu o seu papel central na peça, com grande criatividade.
Mas, sublinhar, que todos estiveram excelentes, transparentes e fantásticos. Não são caricaturas de personagens, são personagens criticas – no riso, na dor, na violência, na bebedeira. A todos um aplauso, bem forte!
Uma peça admirável, bem encenada, bem interpretada, com um guarda roupa, quanto basta, para dar dimensão epocal e estruturante da situação.
Em suma, uma peça que nos faz rir e reflectir sobre este tempo que vivemos, nesta Europa de sonhos e ilusões e que, de facto, todos os dias nos interrogamos: Será que vai manter-se de pé?!
António Sousa Pereira
Sobre o espetáculo
Um hotel de província, falido, algures na Europa central. Estação baixa. O dono (Strasser), o empregado (Max) e o motorista (Karl) partilham a mesma amante e única hóspede – uma aristocrata decadente (Ada). Chegará alguém (Müller) para cobrar uma dívida de champanhe. Chegará Emanuel, irmão de Ada, a pedir-lhe dinheiro para pagar dívidas de jogo. E chegará Christine, uma antiga conquista passageira de Strasser, afinal “com consequências”. À primeira vista, parece que é tudo uma questão de dinheiro.
“Hotel da Bela Vista” (que esteve para se chamar “Hotel Europa”…) foi escrita em 1926. A Alemanha procurava então sobreviver ao colapso económico do pós-guerra. A inflação e o desemprego tinham atingido níveis insuportáveis. Haviam falhado revoltas da esquerda. Havia falhado o putsch de Hitler, em Munique. Só o exército garantia a sobrevivência da República de Weimar. A pouco e pouco, foi-se percebendo como haviam sido proféticas as palavras de Jean Jaurès, em 1905: “ De uma guerra europeia pode jorrar uma revolução e as classes governantes fariam bem em pensar nisso. Mas pode também resultar, por extenso período, uma crise de contra-revolução, de reacção furiosa, de nacionalismo exasperado, de ditaduras asfixiantes, de militarismo monstruoso, enfim, uma longa cadeia de violência retrógrada”.
Horváth não fala dos grandes acontecimentos, mas do modo como eles influenciam o pensamento e a acção das pessoas. No modo de agir e nos diálogos das personagens deixa o retrato de uma época. E fá-lo, de preferência, num tom irreverente. Horváth (a propósito de outra peça, “Fé, Esperança e Caridade”): “Tal como em todas as minhas peças, também tento, desta vez, ser o mais possível irreverente, contra a estupidez e contra a mentira, pois esta irreverência bem podia constituir a função mais nobre do escritor que, às vezes, só por isso se imagina a escrever para que as pessoas se conheçam a si próprias”.
Há muito que este Hotel estava nos nossos planos. E a cada ano que passava, mais actual nos ia parecendo. Saber se Horváth previu a ascensão do nazismo, a segunda grande guerra ou até o fim da civilização europeia; saber se este Hotel é uma alegoria à Europa, de então e de hoje; saber se estes diálogos ainda nos aproveitam ou não – são assuntos que ficam à consideração dos espectadores.
Afinal, Horváth não impõe, propõe: e é isso que nos prende ao texto. Comédia, disse ele, enquanto subvertia a própria comédia e as suas regras convencionais. E sem final feliz.
Jorge Cardoso
Ficha Artística e Técnica
Hotel da Bela Vista (1926)
De Ödön von Horváth (1901 - 1938)
Encenação - Jorge Cardoso e Carina Silva
Assistente de Encenação - Ana Sofia Samora
Interpretação - Alexandre Antunes, Henrique Gomes, Joana Pimpista, Patrocínia Cristóvão, Ricardo Guerreiro, Rui Félix e Rui Quintas
Cenografia - João Pimenta
Construção e Montagem - João Henrique Oliveira e João Oliveira Júnior
Figurinos - Ana Pimpista
Confeção - O Dedal
Desenho de Luz - João Oliveira Júnior
Operação Técnica - Marisa Conceição
Design gráfico - João Pimenta
Fotografia - Cláudio Ferreira
Produção Executiva - Catarina Santana
Agradecimentos a Eugénio Silva, Céu Madeiras, Mário Maia, Ricardo Nunes, Carmo Oliveira, Ricardo Guerreiro e Miguel Félix.
Classificação M/12 anos.
Reservas: arteviva.reservas@gmail.com; 910 093 886
Bilheteira: quinta a sábado, das 20h00 às 21h30
Bilhetes: Preço normal: 5€; Desconto grupos >10: 3€
Foto - Claudio Ferreira/ Arte Viva













