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Bandeiras da resistência regressaram ao BarreiroNa jornada de agitação de 1935 foram presos 35 cidadãos no Aljube, Caxias, Peniche ou Tarrafal

. Barreiro ficou sem luz durante 30 minutos

Entre os dias 24 de Fevereiro e 2 de Março de 1935, realizou-se em Portugal uma «Jornada de Agitação, contra a fome, a guerra e o fascismo».

No âmbito dessa jornada promovida pela Comissão Inter Sindical, no dia 28 de Fevereiro, foi escrita uma das mais importantes páginas da história da resistência e luta pela liberdade, que ficou registada na memória colectiva dos barreirenses como o «Dia da Bandeira»

5 min de leitura
Bandeiras da resistência regressaram ao Barreiro Na jornada de agitação de 1935 foram presos 35 cidadãos no Aljube, Caxias, Peniche ou Tarrafal

Por Jornal Rostos

Para assinalar os 80 anos dessa Jornada de Agitação e Luta de Fevereiro de 1935 no Barreiro, ontem à tarde, no Espaço Memória, foi inaugurada a exposição “O Regresso das Bandeiras”.
Uma exposição que resulta de uma parceria entre o Município do Barreiro e o Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

O regresso das bandeiras

Na exposição estão patentes diversos documentos do «Processo das Bandeiras», entre eles, duas das bandeiras que foram hasteadas, uma delas nas chaminés das Oficinas Gerais da CP, a 36 metros de altura, que constam do processo, como elementos de prova, nas quais está pintado a foice e o martelo e as iniciais P.C.P..
Em sequência da jornada de agitação no dia 28 de Fevereiro de 1935, no Barreiro, foram presos 35 cidadãos, interrogados e acusados, sendo condenados, alguns a décadas nas prisões, do Aljube, Caxias, Peniche ou Tarrafal.

Contexto Nacional e Internacional

Na exposição patente ao público no Espaço Memória, para além da documentação do «Processo das Bandeiras», estão expostos documentos relativos ao contexto internacional da época, nomeadamente a ascensão do Nazi-fascismo, assim como ao contexto nacional “da ditadura militar ao Estado Novo”.
São diversas as imagens e documentos sobre as condições de vida no Barreiro nos anos 30 e 40 e a organização politica e do movimento operário na resistência.

Reforço da nossa identidade

Na abertura da exposição, que é a primeira exposição permanente que o Espaço Memória acolhe, Carlos Humberto, presidente da Câmara Municipal do Barreiro sublinhou que esta iniciativa contribui para “o reforço da nossa identidade” como “uma terra de resistência, trabalho e luta”.
“O regresso das bandeiras assume para nós uma enorme importância”, sublinhou o edil, porque são uma referência a “um facto histórico” que foi para além das “fronteiras do Barreiro”.

Em causa a civilização que conquistamos

Carlos Humberto, salientou que, também, nos dias de hoje, “é preciso ter coragem” como aquela que “houve nos tempos da resistência” e continuar a “construir futuro”.
O autarca sublinhou que – “hoje na Europa e no mundo, assiste-se ao avanço de forças e ideologias” que, alertou, “podem por em causa a civilização que conquistamos”,

Memória que é um campo de batalha

Silvestre Lacerda, Director-Geral do Livro dos Arquivos e das Bibliotecas, recordou que “os acontecimentos são factos da actividade humana” e das suas organizações, por essa razão considerou importante “chamar à atenção para uma memória que é um campo de batalha”.
Recordou que a Jornada de Agitação que decorreu em Portugal, entre 24 de Fevereiro e 2 de Março, um ano após o 18 de Janeiro de 1934, contribuiu para demonstrar que o Movimento Operário que foi brutalmente reprimido – “não desapareceu”
Sublinhou que após o 18 de Janeiro de 1934, foram presos os 700 Delegados ao Congresso Sindical – “era como se prendessem nos dias de hoje todos os delegados ao Congresso da CGTP”

É preciso afirmar a memória

Silvestre Lacerda, referiu que a jornada de agitação de 1935 no Barreiro foi muito intensa – “o Barreiro ficou sem luz durante 30 minutos”, foram distribuídos um conjunto significativo de documentos.
“As bandeiras são um dos elementos de prova para acusação, que consta do processo”, sublinhou.
“A nossa historiografia diz muito pouco sobre este acontecimento”, disse, acrescentado que esta visão precisa ser divulgada porque – “é preciso afirmar a memória”.

«Bandeira Vermelha»
Texto de Vanessa de Almeida, historiadora, publicado no trabalho sobre a «Rota da Resistência no Barreiro».

No dia 28 de Fevereiro de 1935 tem lugar uma jornada de agitação no Barreiro, organizada pela Comissão Inter-Sindical (CIS), afecta ao PCP. Envolvendo operários da CUF e ferroviários, ilustra a influência crescente do partido comunista no seio do operariado barreirense.
A acção tem início às 22.15h, mediante o corte da energia eléctrica, apagão que só viria a ser normalizado com o restabelecimento da corrente eléctrica meia-hora mais tarde. São hasteadas bandeiras vermelhas em toda a vila, a par da distribuição de material de propaganda. Na chaminé das oficinas dos Caminhos de Ferro do Sul e Sueste, é hasteada uma bandeira vermelha de grandes dimensões, pelas mãos de Acácio José da Costa, responsável pelo Comité Local
do PCP, coadjuvado pelos ferroviários José João Rodrigues, Joaquim Rebelo e António Fernandes. Face à dimensão dos
acontecimentos, a PVDE é chamada a intervir, deslocando-se à CUF e às Oficinas dos CFSS à procura de possíveis cabeças de motim, acabando por prender 45 operários, os quais viriam a ser submetidos a violentos interrogatórios no posto policial da vila.
Posteriormente, Acácio José da Costa, será enviado para o Tarrafal, integrando a primeira leva de prisioneiros que inauguram o campo de concentração.

A exposição no ESPAÇO MEMÒRIA recebe visitas de terça a sábado, entre as 10h00 e as 13h00 e, no período da tarde, das 14h00 às 18h00.
O Espaço Memória da Câmara Municipal do Barreiro fica localizado na Rua 17, nº10, no Parque Empresarial do Barreiro.
Contactos - Telefone 21 206 81 85 ou pelo endereço eletrónico espacomemoria@cm-barreiro.pt

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