Conferência com Fernando Rosas no BarreiroEntrada de Portugal na 1ª Guerra Mundial foi um erro trágico da República
O país endividou-se em 28 milhões de libras a Inglaterra.
O endividamento brutal do país criou as condições para surgir o “mago das finanças- Salazar”.

Por Jornal Rostos
No âmbito do ciclo temático “Portugal nas Guerras e Conflitos Armados do Século XX e XXI”, no dia 15 de abril, realizou-se na Cooperativa Cultural Popular Barreirense, a Conferência “A participação de Portugal na 1ª Grande Guerra e na 2ª Guerra Mundial”, pelo historiador Fernando Rosas, com a moderação de Rosário Vaz.
Antes da conferência registaram-se apontamentos musicais “Canções de Guerra”, interpretadas por Clara Soares e Luís Reis.
Interimperialista pela partilha do mundo
Fernando Rosas abriu a conferência recordando os seus laços ao Barreiro e ao distrito de Setúbal, quer antes do 25 de Abril, quer como deputado eleito pelo Bloco de Esquerda.
O historiador a propósito da 1ª Guerra Mundial salientou que esta foi “tipicamente interimperialista pela partilha do mundo”.
Em causa estava a divisão dos impérios de Ásia e África e no manter a hegemonia europeia.
Referiu que esta guerra gerou dois grandes blocos: um organizado em torno da Alemanha e Áustria mais Turquia; o outro em torno da França e Grã-Bretanha, unidos à Rússia.
Recordou que foi uma guerra que começou com uma assassinato, que conduziu à declaração de guerra à Servia.
Cerca-se o inimigo pela fome e falta de matérias primas
Fernando Rosas, salientou que a 1ª Guerra Mundial deu inicio a uma “guerra de novo tipo”, salientou que antes a guerra tinha território limitado e pagava-se ao general para fazer a guerra.
Esta guerra mundial dá origem, disse, “à mobilização da população” que “é central no conflito”.
“É uma guerra económica, cerca-se o inimigo pela fome e falta de matérias primas. A guerra económica é essencial neste conflito. O campo de batalha é trazido à vida quotidiana das cidades ”, referiu.
Ingleses não queriam Portugal entrasse na Guerra
Fernando Rosas recordou que Portugal era um aliado tradicional de Inglaterra.
A participação de Portugal na Guerra não podia desagradar a Inglaterra, salientou, acrescentando que – “a escolha de Portugal não era se alinhava com a Grã- Bretanha ou Alemanha, a decisão era se alinhava ou não”, porque, “os ingleses não queriam Portugal entrasse na Guerra”.
“Portugal era uma espécie de de semi-colónia de Inglaterra”, salientou.
Entrada de Portugal na guerra foi um erro
O historiador salientou que em Portugal, no ano 1914, existiam os “intervencionistas” e os “não intervencionistas”.
O Partido Republicano, de Afonso Costa e o Partido Evolucionista de José de Almeida, queriam entrar na guerra tendo como objectivo “sacudir a tutela de Inglaterra” e “aproximar da cultura francesa”.
Os argumentos que defendia a entrada de Portugal na guerra são “ideológicos”.
Recordou que os alemães já estavam em guerra com Portugal, em África, desde 1914, embora só tenha declarado guerra a Portugal em Março de 1916.
Fernando Rosas, sublinhou que Brito Camacho, do Partido Unionista e os Monárquicos, era “anti-guerreirismo”, defendia que para Portugal entra na guerra – “só se a Inglaterra pedisse”, coisa que os ingleses não desejavam.
“Portugal entrou na guerra e venceu a resistência dos ingleses. Os ingleses pediram a participação de Portugal”, disse.
“A entrada de Portugal na guerra foi um erro trágico da República. Esta era a guerra mais sofisticada feita pela humanidade e os soldados portugueses não tinham preparação militar adequada”, disse
País endividou-se em 28 milhões de libras
O historiador recordou que os 20 mil homens que Portugal com o “milagre de Tancos” quis preparar para a guerra foi dramático.
“A participação de Portugal foi um desastre e uma mortandade”, disse.
Salientou que a participação de Portugal na guerra – “causou a indignação popular e faz cair a República”.
O país endividou-se em 28 milhões de libras a Inglaterra.
O endividamento brutal do país criou as condições para surgir o “mago das finanças- Salazar”.
“Foi a queda da 1º República”, disse.
Hitler com a «Operação Isabela» visava entra em Portugal
Fernando Rosas, a propósito da 2ª Guerra Mundial, sublinhou que Salazar percebeu os erros da 1ª República, por essa razão defendeu a politica de “neutralidade”.
“Através da neutralidade Portugal manteve Franco e Espanha fora da guerra”, disse.
Recordou que a invasão de Portugal esteve planeada por Hitler com a «Operação Isabela», que visava entrar em Portugal e Espanha
“A neutralidade na guerra é uma das coisas que assegura o regime salazarista”, disse.
Recordou que a neutralidade de Portugal permitiu fazer negócios e essa era a politica da oligarquia portuguesa – fazia negócios com um lado e com o outro.
“Portugal era um homem com bolsos cheios e estomago vazio”, salientou.
Períodos de fome e pobreza
“A neutralidade era um grande negócio e permitiu a acumulação de dinheiro que veio permitir a industrialização”, referiu Fernando Rosas.
Recordou que durante a guerra viveram-se períodos de fome e pobreza, tendo sido registadas grandes acções de protesto, nomeadamente no ano de 1943 – “com grandes greves, contra fome, como se registou, aqui, no Barreiro”.
Aliados anglo-americanos apoiaram Salazar
O historiador recordou que após o fim da guerra quando as forças da oposição contavam com a queda da ditadura de Salazar, nada disso aconteceu, porque os aliados anglo-americanos “apoiaram Salazar” e “integraram Portugal no mundo Ocidental da Guerra Fria”.
Em 1949 Portugal passou a integrar a NATO.
Referiu que só, outra guerra, que começou em 1961, nas colónias, até 1974, conduziu à queda do regime salazarista.













