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Perspectivas

Nova época no Auditório Municipal Augusto Cabrita – BarreiroQuando o teatro, a vida e a actualidade dão as mãos no palco

. Participaram jovens do Barreiro alguns deles ligados ao Instituto dos Ferroviários do Barreiro.

O espectáculo, “E Agora Nós!”, é uma «construção ficcional», intimista, que tem por finalidade gerar um “composição” teatral que ligue a vida à arte.

Perguntas que abrem a porta para estórias de vida contadas.
“Qual foi a primeira vez que te impuseste como preto?”, esta pergunta sufoca e marca a cena com um forte silêncio.

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Nova época no Auditório Municipal Augusto Cabrita – Barreiro Quando o teatro, a vida e a actualidade dão as mãos no palco

Por Jornal Rostos

Já tinha assistido ao espectáculo realizado no Forum José Manuel Figueiredo, na Baixa da Banheira, mas, a curiosidade de ver a sua continuidade levou-me, ontem à noite, ao Auditório Augusto Cabrita, para ver o espectáculo, “E Agora Nós!”, que nasceu no âmbito de uma oficina, realizada no Barreiro, dirigida e de autoria de Rui Catalão, que contou com a participação jovens do Barreiro, alguns do Instituto dos Ferroviários do Barreiro.

Como disse, Rui Catalão, ao iniciar o espectáculo, o que ia acontecer no palco seria um «improviso», nem os próprios actores sabiam qual seria o resultado final.
“Um espectáculo que ninguém sabe o que vai ser, mesmo os que nele participam”, disse Rui Catalão.

Na verdade “E Agora Nós!” não é uma história. São estórias. São descobertas. São encontros com as memórias. A vida contada ao vivo. A vida em movimento, em trocas de olhares, de sorrisos.
Há personagens que entram em cena, convidadas pelo olhar de um actor. Uma partilha.
Trocas de lugares. Onde afinal cada um é único. Mas, onde, cada um, partilha o espaço – vivendo os silêncios e as emoções.

E, na verdade, é nos silêncios, nos gestos, nas trocas de olhares ao longo do espectáculo, que, por vezes, quem é espectador, sente também uma vontade interior de responder às perguntas.
Perguntas que abrem a porta para estórias de vida contadas.

Uma primeira nota que registo, dado que vi a estreia, é que, na verdade, os actores principais – aqueles que são a estrutura do espectáculo – estão senhores absolutos dos seus papeis, movem-se com a destreza de quem já domina as situações, são a personagem e a pessoa com plena naturalidade. Evoluíram positivamente, são mais actores. Parabéns.

Depois, registei o facto de neste espectáulo a temática da xenofobia emergir com plena naturalidade, levando-nos a reflectir sobre os sentimentos e as dificuldades de integração cultural, assim como a preservação das raízes.
Isto não é um problema de cores, é um problema que marca cada vez mais a actualidade, um pouco por todo o mundo, com o processo da globalização.
“Qual foi a primeira vez que te impuseste como preto?” , esta pergunta sufoca e marca a cena com um forte silêncio.
“Porque tens vergonha de ti?”, são perguntas que ficam no ar na voar pela consciência de cada espectador e dos actores.
Não se procuram respostas, colocam-se interrogações.

Um abordagem dos mais diversos temas, desde a gravidez inesperada de uma adolescente, passando pelos problemas de emprego, ou o insucesso escolar, até mesmo, às opções de sexualidade.

Qual foi a primeira vez que te sentiste enganado?
Qual foi a primeira vez que te sentiste desiludido?
Já foste obrigado a fazer alguma coisa que não querias?
Os actores mergulham por dentro do tempo, escavam nos sentimentos. Interrogam e interrogam-nos.

Um espectáculo com momentos escultóriocos, únicos e irrepetíveis, de uma beleza e grande dimensão plástica.
Sim, é verdade o espectáculo não é uma história. São estórias da Jessica, Adriano, Joãozinho e Vânia. Improvisos. Expressão dramática. O teatro, como nunca me canso de repetir - arte no espaço e no tempo.

O projecto começou em Outubro de 2015, a partir de uma oficina de teatro dinamizada no Centro de Experimentação Artística do Vale da Amoreira.
O espectáculo, “E Agora Nós!”, é uma «construção ficcional», intimista, que tem por finalidade gerar um “composição” teatral que ligue a vida à arte.

Revi com muito prazer, e fiquei com a sensação que este espectáculo, no final, deixa a cada espectador e aos próprios actores um desafio, ou seja, que cada um de nós, no quotidiano, não tema colocar perguntas, viajar por dentro das memórias e das suas experiências de vida. Isso ajuda a viver.
Afinal é nas perguntas que encontramos a resposta e os caminhos para as escolhas da vida.
Gostei, mais uma vez, de partilhar convosco uma noite de perguntas, de qualidade estética e de sonhos.

Foi, sem dúvida, um bom ponto de partida para a nova época de actividades no Auditório Municipal Augusto Cabrita

António Sousa Pereira

Ficha técnica:

Autoria: Rui Catalão
Interpretação: Adriano Diouf, Jéssica Ribeiro, Vânia Lopes
Produção: [PI] Produções Independentes | Tânia M. Guerreiro |
Coprodução: Teatro Maria Matos, Artemrede/Projeto Odisseia e Câmara Municipal da Moita / Centro de Experimentação Artística
Apoios: Partis/Fundação Calouste Gulbenkian
Parceiro: RUMO
Produções Independentes é uma estrutura financiada pelo Governo de Portugal - Secretário de Estado da Cultura / Direção Geral das Artes

No espectáculo participaram jovens do Barreiro, alguns deles ligados ao Instituto dos Ferroviários do Barreiro.

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