Moita - Baixa da Banheira foi uma terra que nunca vergou«Memórias da Resistência recordam que «o silêncio é a resposta mais cobarde»
Uma noite que recordou tempos vividos, nas noites escuras antes do 25 de Abril, quando cantar era protesto, resistência, luta e sonho.

Por Jornal Rostos
José Beira Mar, foi o apresentador, na abertura salientou que esta era uma “homenagem aos que tiveram a coragem de dizer que aquilo, naquele tempo, não estava bem”. Recordou o seu próprio grupo musical «Aqueduto» que também cantou para “romper o silêncio e trouxe a poesia, como eco da memória e da luta.
O Ginásio Atlético Clube foi, antes do 25 de Abril, uma das referências da resistência, ponto de encontro e espaço de combate de artistas e combate ao fascismo – “um espaço aberto, onde José Afonso foi acolhido várias vezes” – como sublinhou Jorgete Teixeira da Associação José Afonso – Núcleo Barreiro/ Moita.
Ter tempo para viver
A noite musical começou com A.P. Braga, que recordou, como nos anos 70 – “cantar não era uma actividade livre”. Trouxe os sons do “soldado catrapim”, emocionou a plateia com a «Lágrima de Preta» de António Gedeão.
Salientou que voltou a cantar – “porque não estou a gostar do caminho que o mundo está a levar” e que é preciso dizer que – “queremos paz” e que “não há só a cultura do deficit”.
Recordou Maio de 68, quando os estudantes em França saíram à rua para dizer que era preciso “ter tempo para viver”. Tema que continua actual.
Diamantino Patarata, trouxe a poesia inédita de Zeca Afonso.
Um lugar onde não ia cantar quem queria
Carlos Alberto Moniz, recordou que, nas suas memórias, tem o registo que a Baixa da Banheira – “é um lugar onde não ia cantar quem queria, mas aqueles que eram convidados”.
“Fico honrado pelo vosso convite”, disse.
“Não há machado que corte a raiz ao pensamento”, escutou-se num enorme coro, vivo e intenso.
Uma luta de ideias
Helder Mateus Costa, do Grupo «A Barraca» recordou as diferenças que sente na luta politica de hoje, para os tempos antes do 25 de Abril.
Salientou que naquele tempo era – “uma luta de ideias”, nos combates – “as ideias estavam lá”.
No 25 de Abril, tudo aconteceu com rapidez porque os ideais de luta estavam na rua.
Helder Costa, proporcionou um momento de humor, hilariante, ao contar a história de um politico que queria ser corrupto e que afinal era um corrupto incorruptível. Uma delicia, de ironia, critica social, infelizmente, plena de actualidade.
Ser feliz agora
Afonso Dias, vindo do Algarve, onde, recordou Zeca Afonso viveu grande parte da sua vida e onde escreveu muitas das suas canções míticas, entre elas a «Grândola», após uma viagem de regresso, numa ida aquela, à então vila alentejana.
Sublinhou a importância de se lutar, de afirmar valores e que toda a nossa vida deve ter um lema – “ser feliz agora”.
Um momento de grande emoção ao cantar – “Acordai”, de Fernando Lopes Graça, com poema de José Gomes Ferreira.
Ao cantar “Os vampiros”, esse foi um momento de apoteose na noite, revivendo-se tempos de luta e resistência, de paixão e amor à Liberdade.
Há sempre alguém que resiste
Toni Costa, Rui Curto e Octávio, trouxeram as «Cantigas de Maio» de Zeca Afonso, e a sala vibrou a cantar – “Há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não”. Um momento de muita musicalidade e ritmo, nas palavras e sons.
Antes Geogete Ferreira, tinha declamado os poemas de abril, assim como José Beira Mar, trouxe os seus poemas.
Baixa da Banheira foi uma terra que nunca vergou
Francisco Naia, recordou que – “nesta casa cresci muito, aqui, dentro destas paredes”.
Sublinhou – “encontrei aqui gente de muita coragem, gente com uma grande alma, como o Coelho ou o José Figueiredo”.
“A Baixa da Banheira foi uma terra que nunca vergou”, disse.
Naia, acompanhado por Ricardo Fonseca e José Carica, com a sua voz única, de grande sonoridade e melódica, proporcionou um momento apaixonante na noite Banheirense. Foi, lindo pá!
Luciano Barata, com a sua entoação característica, rebeldia poética e emoção trouxe o poema «Operário em Construção”.
O silêncio é a resposta mais cobarde
A encerrar Francisco Fanhais – “esta casa faz parte da minha construção, foi nesta casa me construi, nesses anos que foram fundamentais na minha vida, esses anos que vivi aqui e no Barreiro”.
Fanhais trouxe os seus cânticos que estão na memória de dias de luta, a sua voz ecoou na noite, recordando – “qualquer dia, qualquer dia”.
“O menino do Bairro negro”. foi emocionante, referindo Francisco Fanhais que hoje, como ontem, é preciso continuar uma – “esclarecida resistência” e “manter a incapacidade de indignação”.
“O silêncio é a resposta mais cobarde”, disse.
“25 de Abril, sempre!”
Esta noite que, certamente, vai ficar na memória daqueles que a viveram, culminou com o «hino da liberdade» - Grândola, Vila Morena”. Em apoteose, com cravos erguidos assim como quem lança um desafio, ao presente e ao futuro naquele grito que se escutou – “25 de Abril, sempre!”
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