Barreiro - Educação e DesenvolvimentoO centro das aulas é a preparação para os exames e não a preparação para a vida
Em Portugal, na escola pública são um milhão e duzentos mil alunos, 120 mil professores e 5 mil escolas, distribuídas por 811 Agrupamentos.
“Há 25% dos jovens a quem esta escola não serve”, e “esse valor já rondou os 37%”, foi referido no decorrer da Tertúlia com o - «Educação e Desenvolvimento - as mudanças que queremos», que decorreu, ontem à tarde, na Escola Conde Ferreira.

Por Jornal Rostos
Na Escola Conde Ferreira, ontem à tarde, decorreu uma Tertúlia, uma conversa informal, tendo como tema - «Educação e Desenvolvimento - as mudanças que queremos».
A realidade tem mudado e a escola?
Álvaro Cidrais abriu o debate, lançando reptos aos convidados, cerca de 30 pessoas, de diferentes áreas de actividade, entre os quais o cantor José Mario Branco e também Carlos Humberto, presidente da Câmara Municipal do Barreiro.
“Que fazer para mudar p modelo de escola que nós temos? É possível pensar uma escola que vale a pena construir com a comunidade? A realidade tem mudado e a escola? Qual a coisa que mais importante que a escola tem que ser para dar prazer?” – estes foram alguns dos desafios colocados.
Grande concentração para preparar os exames
Um grupo de jovens, transmitiram as suas experiências escolares, recordaram que um dos defeitos da escola é – “uma grande concentração para preparar os exames” e, ali, “não se trabalha na preparação para a vida”.
Referiram que os professores têm como “preocupação acabar os programas e não se preocupam em trabalhar com todo os alunos, nem se todos acompanham as matérias”.
O centro das aulas é “a preparação para os exames e não a preparação para a vida”, esta situação conduz a – “vermos a escola como uma obrigação” e “não pelo prazer de vir a saber mais coisas”.
Recordaram que – “faltam apoios aos alunos, pare que se sintam na escola como estando em casa e não a aprender por obrigação”.
Escola para mim foi uma experiência de prisão
José Mário Branco, salientou – “a escola para mim foi uma experiência de prisão” e recordou que a “escola teve consequências práticas na minha vida” pela “cumplicidade resistente” e “tentar aprender coisas” no “meio da prisão”.
Referiu que a escola “excitou a vontade de aprender” e “ir ver fora da escola”, ou seja, “procurar conhecimentos fora da escola”.
Recordou que viveu a sua adolescência num tempo de e – “papa gelatinosa e escura”, por essa razão, “agarrei-me a coisas básicas”, “valores de referência” – “amor”, “solidariedade” e “justiça”.
Na sua intervenção salientou que na sua adolescência – “não havia TV” – por essa razão “havia mais tempo para nos interessarmos por coisas”, enquanto nos tempos actuais há uma tendência para – “ter a cabeça ocupada com uma tralha, que não seixa sentir, pensar ou sentir os afectos”.
Defendeu a necessidade – “saber em cada coisa, onde está a raiz do problema”.
Neste contexto, salientou a importância de ter “ideologia”, acrescentando que na sua experiência – “não sou eu que saio dos partidos, são os partido que saem de mim”, isto a propósito de se ter afastado do Bloco de Esquerda.
O que mudou foi a sociedade não foi a escola
A conversa continuou, informal, com diferentes testemunhos e observações, Jacinta, professora do Ensino Básico, aposentada, salientou que – “o que mudou foi a sociedade não foi a escola”, acrescentando que “perderam-se os valores da família”.
Referiu que nos dias de hoje – “o importante é ter um curso”, e na “sociedade é cada vez mais cada um por si”.
Servir o meu país
Luisa, referiu a sua experiência de professora em Cabo Verde, optou por esta profissão para – “servir o meu país”, tendo a consciência que a escola era essencial para promover o desenvolvimento.
Recordou a sua experiência na Escola da Mata, no Vale da Amoreira, onde desenvolveu um – “trabalho de motivação” e “comunitário”.
“Sou uma apaixonada pela vida, todos os dias aprende-se a transformar o ‘nada’ em algo importante. Transforma o ‘nada’ em ‘fixe’”, disse.
Encontrar o móbil daquelas pessoas
Tiago Sousa, salientou que nos tempos de hoje, “somos bombardeados com questões do fim do mundo”, ou “o aquecimento global”, perante este clima “não apetece fazer nada”.
Na sua actividade de formador na área da música, referiu que procura – “encontrar o móbil daquelas pessoas” e motivar a partir desse ponto de referência.
Referiu a importância das novas tecnologias – “o mundo tecnológico é uma oportunidade”.
Escola ensina a sobreviver
Ana, aluna, salientou que na “escola não se sabe como agarrar as pessoas na aprendizagem”, “há os que ficam para trás”.
Comentou que a falta de vontade na escola, “não é a falta de vida”, é porque a escola é uma prisão onde não existe “vontade de aprender” e isso leva a desistir.
Na sua opinião – “a escola ensina a sobreviver e não a desenvolver”, porque os professores “trabalham para ganhar” e levam os alunos a estar – “hora e meia a ouvir”.
“Custa mais aprender a pensar”, disse.
Recordou as faltas de condições nas salas de aula ou até mesmo em instalações sanitárias.
Referiu existe um “egocentrismo nas escolas”, no “defender as escolas”, no “defender os professores” e não “defender os alunos”.
“A escola não nos prepara para vivermos”, salientou.
Escola é que tem que se adaptar a nós
Mónica, deu a conhecer um projecto que desenvolveu indo ao encontro – “das formas de vida e de estar”.
Nós não temos que nos adaptar à escola, a escola é que tem que se adaptar a nós”, salientou.
A escola não pode ser igual para todos
Carlos Humberto, recordou que estudou na Escola Conde Ferreira, num tempo em que muitos iam descalços para a escola, e sublinhou a importância da Escola Alfredo da Silva na sua tomada de consciência social – “pusemos em causa a escola prisão”.
Por outro lado, referiu que nos tempos de hoje – “há avanços na Escola Pública”, dando o exemplo da integração das pessoas com deficiência.
Na sua intervenção, sublinhou que os dos temas a reflectir é que – “a escola não pode ser igual para todos”.
Uma onda positiva
Alguém que não registamos o nome, comentou a importância de na escola serem dinamizadas Assembleias de alunos, onde pudesse existir escolha de disciplinas, desenvolver projectos de formação cívica.
“Trazer para a escola uma onda positiva”, disse.
Perpetuar-se na destruição da criança
Augusto, referiu que a escola continua a - “perpetuar-se na destruição da criança”, transformando o Pinóquio de madeira, num Pinóquio de carne.
Recordou um projecto desenvolvido na Rua Combatentes da Grande Guerra, como exemplo para a necessidade de a escola – “trabalhar com as comunidades”.
Escola voltada para a comunidade
Filipe Jeremias, via skipe, defendeu que na escola tem que existir – “uma visão de sociedade diferente”, sendo uma escola voltada para a comunidade.
Recordou o que se aprende na escola e o que se aprende fora da escoa – “fora da escola não se aprende o bullyng”.
Defendeu que o sistema estrutural da escola de via piramidal tem que ser alterado para estruturas horizontais, dando dimensão - à nossa parte ética, estética e espiritual”.
“A mudança na escola está a vir da parte dos pais, porque alguns ouvem os filhos”, disse.
Salientou que na escola – “os actos administrativos não pode impor-se aos actos pedagógicos”.
Escola possível nos tempos de hoje
João Carlos, professor, referiu – “o meu coração está na escola”, defendeu que – “na educação e desenvolvimento há espaço para a escola, mas a escola não deve ocupar todo o espaço”.
“A escola que temos hoje é a escola possível nos tempos de hoje”, disse.
Na sua opinião – “a escola funciona bem em Portugal, são um milhão e duzentos mil alunos, 120 mil professores e 5 mil escolas, distribuídas por 811 Agrupamentos”.
“Há 25% dos jovens a quem esta escola não serve”, disse, recordando que esse valor já rondou os 37%.
Recordou que a escola em Portugal forma, mas “a economia não absorve”.
A dor é uma zona de aprendizagem
Pedro, expressou as suas dúvidas se a escola é uma prisão, defendendo que a escola cria espaço para que os alunos ganhem asas e inspiração – “onde cada um encontra a sua liberdade”.
Recordou que – “a dor é uma zona de aprendizagem”, porque – “a prisão não é a escola, a prisão sou eu”.
Considerou que existe um “pessimismo terrível” em torno da escola, acrescentando a necessidade de existir em relação à escola – “uma óptica de amor”.
Há muitos professores a desistir
André Carapinha, decidiu que não queria ser professor – “aquilo não era para mim”.
Sublinhou que há projectos onde os pais apostam porque – “querem os filhos a aprender de outra maneira” que “não existem na escola pública”.
Recordou que há muitos professores a desistir da escola pública.
Aluno devia ser o centro
Joaquim Raminhos, referiu o absentismo escolar precoce e o insucesso como problemas que afectam a escola, sublinhando que – “na escola não há espaço para pensar a educação”.
“Em que media a escola está rendida às leis do mercado?”, interrogou.
Na sua opinião a escola, devia apostar na “formação integral da pessoa” e nela o aluno devia ser o centro, sendo necessário pensar outros curriculuns, criando “ritmos de afectso”.
“A massa critica da sociedade devia sair da escola. A escola tem que percorrer um caminho mais humanizado”, referiu.
As boas e más relações
A encerrar Álvaro Cidrais, recordou a importância da colaboração, entre a escola e a comunidade, entre entidades, entre pessoas, afirmando-se uma “relação de construção”.
“São as boas e más relações e as boas e más colaborações”, o lugar onde está a génese dos problemas, na educação, no desenvolvimento, na vida.
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