Barreiro - Redes Sociais da Península de SetúbalFuncionam muito bem é o que se faz de melhor em Portugal
. Sem abrigo são caso de saúde
António Bento, considerado um investigador de referência, na matéria dos «sem abrigo», esta manhã, no Hospital do Barreiro, no decorrer de workshop com o tema “Os sem-abrigo e as boas práticas do serviço social em saúde”, sublinhou que de acordo com um estudo realizado em 1998, sobre as situações de «sem abrigo», em Portugal, 90% dos casos estão referenciados como «casos de saúde».

Por Jornal Rostos
«Os sem-abrigo e as boas práticas do serviço social em saúde», foi o tema do workshop que esta manhã decorreu no Auditório do Hospital do Barreiro, promovido pelo Serviço Social do Centro Hospitalar Barreiro Montijo, evento que contou com a presença de Carlos Humberto, presidente da Câmara Municipal do Barreiro e Carlos Moreira, presidente da União de Freguesia do Alto do Seixalinho, Santo André e Verderena, para além de muitos profissionais de saúde e personalidades da vida local.
Um assunto que diz respeito a toda sociedade
Na abertura, Pedro Lopes, o novo Presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar Barreiro Montijo, referiu a importância da abordagem do tema dos «sem abrigo», aqueles que pela sua condição humana estão colocados num patamar de «sobrevivência» e «isolados do seu meio».
“Este á um assunto que diz respeito a toda sociedade”, salientou.
Referiu a importância de sobre esta matéria existir ligação entre a Segurança Social e os Serviços de Saúde.
Sem a comunidade não resolvemos o problema
Paulina Santos, do Serviço Social do Centro Hospitalar Barreiro Montijo, salientou a importância desta reflexão, que se insere numa estratégia de ligação do serviço com a comunidade – “abrir-se à comunidade”.
Referiu que – “sem a comunidade não resolvemos o problema de alguns utentes que se dirigem ao Hospital”.
Uma fatia da minha vida profissional
António Bento, considerado uma referência nacional nos estudos sobre esta área, foi o prelector convidado.
António Bento, começou por recordar que o Hospital do Barreiro – “tem uma fatia da minha vida profissional”.
“Abri a Psiquiatria, com jovens entusiastas e estive aqui sete anos”, recordou, evocando as dificuldades e, também, as condições de trabalho existentes nos anos 90 – “não era fácil ter um computador, mas eu tinha”.
Os sem abrigo não são só pobres
António Bento começou por clarificar os conceitos – “casos sociais” e “casos de saúde”
“Os sem abrigo não são só pobres, podem ser doentes”, disse.
Referindo um estudo sobre os casos de «sem abrigo», em Portugal, realizado em 1998, sublinhou que então os casos identificados – 90% era casos de saúde”- alcoolismo – droga- esquizofrenia- depressão- , os restantes 10% eram casos de sem abrigo.
Neste contexto, salientou que – “os casos sociais são casos de saúde muito complicados”.
Recordou, igualmente um estudo de 1000 casos de sem abrigo, realizado em 2001, onde se concluía que existiam situações relacionadas com alcoolismo – 58% e droga- 27%.
“O alcoolismo é o maior problema”, disse, seguindo-se a droga e esquizofrenia.
Sem abrigo são um caso de saúde difícil
“Os sem abrigo são um caso de saúde difícil”, sublinhou, acrescentando que este é um problema que afecta todos os países – “a Dinamarca tem os mesmo nível de sem abrigo que nós temos”.
Neste contexto, referiu que este é um assunto que obriga a instituições a trabalhar em conjunto.
“Ninguém, nenhuma instituição sozinha pode resolver o problema dos sem abrigo”, disse.
António Bento, falou sobre o funcionamento dos serviços de psiquiatria – “psiquiatria do silo”, onde – “estamos fechados dentro das nossas quatro paredes”, agindo em três áreas – Urgências, Consultas e Internamento.
“Há jardins fora dos silos”, salientou, referindo o trabalho que tem realizado desde 1988 – “andar na rua em contacto com os sem abrigo”.
“Estes são casos de saúde que ninguém trata”, sublinhou.
António Bento, referiu que – “a condição de sem abrigo é uma condição legal, mas não se sabe se são, ou não, casos de saúde”.
Primeira pessoa em Portugal a internar um pombo
Na sua intervenção deu exemplos diversos de casos que acompanhou, desde o doente que o catalogou por «Drº Táxi», ao doente que se considerava o Hitler, ou o aquele que pretendia ser internado conjuntamente com o seu pombo.
“Fui a primeira pessoa em Portugal a internar um pombo”, comentou, momento que, como noutros provocou o riso.
Comentou as dificuldades e burocracias do sistema, da função pública – “prefiro ir comprar do meu bolso papel higiénico, que estar a perder tempo com notas para o Conselho de Administração”.
Falta o diagnóstico de saúde mental dos sem abrigo
Referiu a experiência de criação da equipa – AMOR – Acção Multidisciplinar Operacional Rápida, procurando através deste projecto – “jogar com o melhor que tem a função pública” e com “a nossa motivação”.
Também o Grupo de Psicoterapia aberta, que envolve 1.121 utentes, entre eles 519 são casos de sem abrigo, mas há refugiados, pessoas oriundas de diversos pontos do mundo, em fuga a guerras e muitos dramas humanos.
“Ao longo dos anos tenho tratado milhares de casos de sem abrigo, este ano já acompanhei mais de 200 e no geral são casos de alcoolismo, drogas e esquizofrenia”. disse.
“O sem abrigo é um caso de saúde grave. Falta o diagnóstico de saúde mental dos sem abrigo ”, sublinhou.
A definição de pobre é uma fórmula
Na sua intervenção António Bento, abordou a temática da “pobreza” que referiu ser “a situação de privação de recursos” a definição de “pobre é uma fórmula”.
Quanto à “exclusão social” salientou que se relaciona com, “a inacessibilidade aos sistemas sociais básicos”.
Recordou que o conceito “exclusão social” surgiu na Alemanha que “não queria ter pobres” e criou o conceito “exclusão social”.
Por outro lado, acrescentou que, nos dias de hoje, está a emergir um novo conceito – “desigualdade, este conceito veio para ficar”.
Redes sociais de Setúbal funcional muito bem
António Bento, no que diz respeito a trabalho no terreno de intervenção na área dos sem abrigo, referiu as estruturas NPISA – Núcleos de Planeamento e Intervenção dos Sem Abrigo – que funcionam no Seixal, Almada e Setúbal.
Nos restantes concelhos o acompanhamento é efectuado através das Redes Sociais, com coordenação através da Plataforma Supraconcelhia da Península de Setúbal.
“As redes sociais de Setúbal funcional muito bem, é o que se faz de melhor em Portugal”, salientou António Bento.
Referiu que as Redes, promovidas pelas Câmaras Municipais, “juntam todas as instituições” e “sem hierarquias” para tratar dos problemas.
No decorrer do debate foi salientado que na área de influência do Centro Hospitalar Barreiro – Montijo, que abrange os concelhos de Alcochete, Barreiro, Moita e Montijo, estão referenciados 47 casos de sem abrigo, dados do ano 2015.
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