António Coimbra de Matos no Rotary Clube do Barreiro«Não pensar no que fez mal ontem, pensar no que fez bem hoje»
. A nossa vida hoje é bastante mais pobre
Comunicar pela internet “é diferente” e nessa comunicação “desaparece muito do relacionamento”, nomeadamente os gestos, os olhares, as expressões do outro.

Por Jornal Rostos
António Coimbra de Matos, Psiquiatra, pedopsiquiatra e psicanalista português foi o prelector convidado para o último Jantar –Palestra promovido pelo Rotary Clube do Barreiro.
O prestigiado psiquiatra abordou o tema "Patologia Mental na Sociedade Actual".
Os laços com o outro são mais finos
António Coimbra de Matos começou por referir como na sociedade actual, com “mais meios técnicos” o ser humano tem “uma maior autonomia” e é “menos dependente”.
O mundo de hoje – “dá-nos uma possibilidade de mobilidade maior” e “necessitamos menos do outro”.
Estas circunstâncias, salientou, contribuem para que – “os laços com o outro são mais finos, menos espessos”.
Na sua opinião esta é – “uma sociedade com relações liquidas, com pouca consistência”, onde as relações se estabelecem com “pouca espessura”.
A nossa vida é bastante mais pobre
António Coimbra de Matos salientou que ao nível da saúde mental – “nascem novas doenças” e a “rede de suporte é bastante menor”, pela existência de “relações pouco sólidas e pouco consistentes”.
“Gosto muito desta pessoa, noutro dia gosto de outra, não é dada pessoal, esta é a característica maior das patologias dos nossos dias”, referiu.>
“A nossa vida é bastante mais pobre e ficamos mais sujeitos aos embates da vida”, disse.
Colocar-se na situação do outro
O Psiquiatra recordou que – “o bicho homem tem a capacidade de conhecer a sua intencionalidade” e procura “conhecer a intencionalidade do outro”, “colocar-se na situação do outro”.
Salientou que a “empatia” é “colocármo-nos no lugar do outro”.
“O outro sabe que tenho uma intenção”, referiu e, esta realidade, ao nível da “teoria da mente” é “uma dupla acção” de intencionalidade através da qual se “projecta a sensibilidade” e procura-se entender – “o que o outro quer da vida”.
Internet prescinde de uma análise do outro
António Coimbra de Matos salientou que “nesta sociedade” existe “mais possibilidade de comunicar”, porque a internet “facilita a vida”.
Mas, a internet, “prescinde de uma análise do outro mais directa – frente a frente”.
Sublinhou que comunicar pela internet “é diferente” e nessa comunicação “desaparece muito do relacionamento”, nomeadamente os gestos, os olhares, as expressões do outro.
Homem é uma unidade do ponto de vista biológico
O Psiquiatra recordou que, até aos anos 50, a depressão, resultava de “perda de afectos”, era “cheia de culpa” sendo caracterizada por “depressão de incapacidade”.
Hoje, disse, “deixamos de ser uma sociedade de culpa, para sermos uma sociedade de sucesso”.
Referiu que o “homem é uma unidade do ponto de vista biológico”, quanto à “unidade psicológica” salientou – “sou eu e o outro” - “a unidade social”.
Salientou que perante a “cultura de competição”, na sociedade de hoje – “a noção de complementaridade não está reflectida, pensa-se mais na completude que no complementar”.
Perde-se a “relação de completar com o outro que me complementa”, esta é uma realidade que resulta da “falta de espessura” das relações.
Temos possibilidades de ser criativos
António Coimbra de Matos salientou que nas relações actuais existe muito presente a pergunta – “Que eu ganho?” e “raramente se pensa que ganhamos os dois”.
As relações não são “uma soma de zero”, são “uma soma de dois”.
“Estamos num mundo com muitas possibilidades e recursos. Temos possibilidades de ser criativos e pensar novas soluções”, disse.
Sublinhou que a “patologia de hoje é diferente” , e, acrescentou que “estamos menos interessados em perceber porque um doente está doente”, em vez de “sabermos como vai sair da doença e construir o seu futuro”.
Há sempre saídas para vencer os obstáculos
António Coimbra de Matos, salientou se “estou zangado”, é preciso pensar “como sair” – “não ficar preso aos problemas” e sim “procurar soluções” porque – “há sempre alternativas”, sendo necessário – “pensar e descobrir”.
“Há sempre saídas para vencer os obstáculos”, disse.
“A observação depende de como observamos, o mais importante é encarar o que se pode fazer para sair da situação”, salientou.
“Não pensar no que fez mal ontem, pensar no que fez bem hoje”, afirmou.
Ficar com medo é complicado
O Psiquiatra, recordou que “há dois tipos de intencionalidade”, ou “procurar as causas” – a retenção – ou com “mais intenção”, e, portanto – “fazer qualquer coisa de novo”.
Salientou que – “ficar com medo é complicado” porque gera “ansiedade”.
“Na minha terra chama-se cagaço”, disse.
Ou então, a outra opção é “ficar fascinado” assumir uma “atitude de entusiasmo” e ficar encantado, para “ter mais”, “ter força” e acreditar – “irei vencer”.
Situação actual facilita muito a depressão
No período de debate, em resposta a diversas perguntas, sobre a realidade do mundo de hoje que nos coloca perante situações de medo e incerteza, António Coimbra de Matos, sublinhou que – “estamos perante uma situação de medo”, sendo essa uma das causas do aumento de suicídios e de aumento de depressões – “a situação actual facilita muito a depressão”.
Recordou que – “vivemos cada vez mais numa sociedade de pensamento único”.
“A depressão está muito ligada à submissão e a submissão não permite a revolta”, referiu.
Salientou que “o homem tem prazer, prazer enquanto pesquisa, enquanto explora e quer fazer o novo”.
Lançou o desafio de cada um aprender a vida com interesse para “não morremos tristes”.
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