Barreiro - «Aqui há Gato» levado a cena pelo TESFALAqui há teatro...de forma hilariante vivemos os sentimentos humanos
Na verdade, a peça proporciona o riso, do princípio ao fim. Foi mesmo brilhante. Sem dúvida é caso para dizer: Bravo!
De facto, aqui há teatro!

Por Jornal Rostos
Assistir ao espectáculo «Aqui há Gato», levado a cena pelo TESFAL – Teatro de Ensaio da SFAL, é assistir a uma peça feita com muita dignidade, em todo o seu conjunto, e, para quem, como eu, tem assistido aos seus diferentes trabalhos, é sentir, simultaneamente, como se regista o crescimento, a evolução e maturidade de um grupo de teatro, quer no plano individual, que no plano colectivo.
A peça é extensa. Um texto complexo cuja dicção é essencial para manter o público atento, para acompanhar o desenrolar da história e contextualizar as situações. A sua encenação realista era, ela mesma um risco, pelas exigências de ritmo, pela intensidade dos diálogos, pelo cruzamento entre personagens.
Foi muito bem conseguida, com um cenário sem superficialidades, criando os espaços necessários para a movimentação dos intérpretes, enquadrando no espaço cénico e vivendo de forma aberta as situações.
A encenação localiza de forma perfeita as marcações e as dinâmicas das sucessivas cenas, permitindo criar um espectáculo, com ritmo, movimento e plenamente integrado no espaço.
O começo da peça está brilhante, inédito, na forma de apresentação dos personagens e seus intérpretes. Ao colocar como ponto de partida o espaço cénico no espaço do público, com surpresa inesperada, o contexto teatral é transportada para a vida real.
O público é, pois, o primeiro figurante, dando a verdadeira dimensão do teatro que é, sem dúvida, uma criatividade que emerge entre o sonho e o real.
Depois, tudo começa e, na verdade, a brincar a brincar, vão-se dizendo coisas e loisas, sobre a vida e os sentimentos humanos - a hipocrisia, a ficção, o real, os dramas das vivências, as ambições, o mais parecer que ser, realidades sentidas de forma plena ao longo do texto e na dramatização.
Uma representação naturalista, onde o sonho e o real co- existem, porque ele é isso mesmo – aqui há gato.
As personagens estão bem construídas e de uma forma geral, todos, mesmo todos, agarram os seus papeis com intensidade e não deixam fugir os seus papeis. Nota-se que houve muito trabalho e entrega. É, por esta razão que registo, um salto qualitativo de todos na forma de estar em palco, com domínio das personagens e vivendo ao longo de toda a peça de forma serena. Nem parecia um dia de estreia.
Quero aqui destacar, por merecedor, o brilhantismo de Rúben Sequeira, com um desempenho isento de falhas que demonstra o seu talento e como cresceu de forma eloquente e sóbria.
Mas, quero sublinhar que foram todos, para mim, uma agradável surpresa, porque demonstraram maturidade, segurança, expressividade, dos papeis mais simples, aos mais exigentes, todos fizeram notar a sua presença em palco e demonstraram como fazer teatro é um trabalho de equipa, onde todos contam e contribuem para valorizar o espectáculo.
Até, aqueles que tiveram papeis mais simples, como Filipe Chagas ou Paula Vilela, estiveram perfeitos e expressivos. O espectáculo é um todo, são todos que o constroem de forma muito dinâmica.
Gostei da força do Rui Pinto. Está espectacular a Mónica Branquinho. Adorei a Ana Martins.
Mas, também a Ana Pessoa, a Filipa Miguel, o Mário Guedes, demonstraram como cresceram e estão perfeitos.
Uma palavra final para os dois veteranos, Lurdes Sales e António Pequito, cuja capacidade e experiência, permite-lhes que desempenhem os seus papeis com plena naturalidade.
Uma peça hilariante, com interpretações muito boas e marcadas por rigor, com qualidade plástica e forte expressão emocional (pena não existir melhor condições de iluminação, mas quase nem se nota).
O guarda roupa está satisfatório. Os adereços dão homogeneidade ao espaço cénico.
E, aquele final de peça que volta a envolver o público e a colocá-lo no centro, motivando-o a aplaudir e a entrar em cena, trazendo a peça para a vida real, está muito bem enquadrado e dá a ideia que o palco é a vida.
Na verdade, a peça proporciona o riso, do princípio ao fim. Foi mesmo brilhante. Sem dúvida é caso para dizer: Bravo!
De facto, aqui há teatro!
António Sousa Pereira
Ficha Técnica
AQUI HÁ GATO
Adaptação da peça «O Gato» de Henrique Santana
Direcção e Encenação – Lurdes Sales
Cenografia – Hugo Guerreiro, Eduardo Oliveira e TESFAL
Luz e Som – Marta Pequito, Vítor Bento e Rogério
Interpretação
Carlos/ Gato – Rúben Sequeira
Amélia – Paula Vilela
Novais - Rui Pinto
Carlota – Mónica Branquinho
Teresinha – Ana Pessoa
Maria – Lurdes Sales
Castro – António Pequito
Joaninha – Filipa Miguel
Toni – Mário Guedes
Laura – Ana Martins
Romualdo – Filie Chagas
Figurinos – TESFAL
Caracterização – Luísa Reis
Design Gráfico – Ana Martins e Filipe Chagas
Fotografia – Ana Martins
Sobre o Autor
Henrique Santana, nasceu em Lisboa em 1924 tendo falecido em 1995.
Foi um grande nome do teatro português, como actor, como produtor, encenador e escritor. Teve uma vida inteira dedicada ao teatro. Era filho de Arminda e Vasco Santana.
Todos recordam a comédia «O Gato» que foi não só um dos seus grandes êxitos enquanto actor, mas também como autor-encenador.
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