Barreiro - Projéctor no «Teatro de Bolso» da Verderena«Estrelas no Céu da Manhã» - onde espreitámos a luz a rasgar o tempo

Por Jornal Rostos
A peça «Estrelas no Céu da Manhã», a 38ª produção do Grupo de Teatro Projéctor, com duração de cerca de duas horas é vivida com tal ritmo e intensidade dramática que não sentimos o tempo passar e, no final, até, parece que fica em aberto o desejo de querermos mais, sentir mais, pensar mais, viver mais…
Sim porque esta é uma peça para pensar, sentir e viver.
Uma peça com uma linguagem simples, directa que se coloca dentro da análise de ideologias, mas saltando para a vida, real, que é sempre mais, muito mais que as ideologias, que são uma interpretação e um modo de pensar o real.
O ritmo dramático é intenso, percorremos por dentro os sonhos, o imaginário de pessoas e de um país – ambas realidades esquizofrénicas – num tempo histórico, marcado de sofrimentos, que, afinal anunciam outro tempo, demonstrando que, no ciclo real da história da humanidade, o velho trás dentro de si o novo a renascer.
Uma peça com um conjunto de actores e actrizes, brilhantes, na interpretação, na dicção, na vivência das personagens.
Todos excelentes. Gostei de todas as interpretações. Uns que já conheço, voltaram a impressionar. Outros, novos, estiveram perfeitos e foram uma agradável surpresa.
Uma equipa que enche em plenitude o espaço cénico, dando-lhe dimensão humana, pela riqueza psicológica dos personagens, e, que se projecta para lá do espaço cénico, numa paisagem exterior imaginária, mas que, de facto, está presente, de forma viva, pela expressão dos olhares e projecção de sentimentos – ali, dois mundos são sentidos, aquele real o espaço – de hospício, muito bem encenado, com simplicidade, mas com uma grande beleza e uma dimensão estética, na qual brota o próprio drama, na sua frieza e crueldade, aquele, o lugar onde se vivem os dramas individuais.
O outro, o imaginário é a relação com um país que emerge numa circunstância histórica – ali e lá longe, vivido na chama dos jogos olímpicos a cruzar as estradas e os guardas escondidos entre arbustos.
Uma peça onde as escolhas musicais, as sonoridades, a luminosidade, nos brilhos e obscuridão, são sentidas e contribuem para o estabelecimento das relações entre as personagens, o espaço cénico, e, entre estas o mundo e todos os sonhos da humanidade.
Uma peça que apesar dos condicionalismos do espaço cénico, desenvolve-se sem conflitualidades, com um resultado final muito bom, com personagens a galvanizar o público – fazendo sentir o texto e os contextos, de forma muito viva. Isto é teatro.
Uma das melhores encenações de Luciano Barata, que se complementa num todo, de figurinos, cenografia e interpretações. Parabéns.
Hoje, por mero acaso, li uma frase de Leonard Cohen, onde este afirma – “Há uma fenda em tudo. É assim que a luz entra”.
Esta peça é assim como uma fenda, por onde espreitámos a luz a rasgar o tempo…aquele vivido entre sonhos e frustrações, esse, afinal, apesar de tudo, que nos diz sempre, na vida o que resta é que somos humanos - sentimos, vemos, vivemos…pensamos e amamos!
António Sousa Pereira
Teatro Projéctor
38ª produção
Ficha Técnica
Título - «Estrelas no céu da manhã»
Autor - Aleksandr Galine
Encenação - Luciano Barata
Assistente de Encenação – Dora Silvestre
Cenografia e Publicidade – Abílio Apolinário
Guarda Roupa – Inês Nunes
Director de Montagem – José Palácio ( Pepito)
Personagens/ Intérpretes
Ana Filipa – Maria
Inês Nunes – Lora
Lilia Pinto – Ana
Paula Almeida – Clara
Svetlana Manta – Valentina
Tiago Martins – Nicolau
Dinis Borges – Azevedo
SINOPSE
Respira-se o ano de 1980.
Toda a acção decorre dentro e fora de um sórdido barracão e antigo hospício, situado numa zona da alta floresta, a algumas dezenas de quilómetros da cidade de Moscovo.
É este local que serve de albergue a algumas prostitutas, que transportam em malas vazias de esperança os seus destinos cruéis, as histórias insólitas e os sonhos inacabados; mulheres com personalidades vincadas, todas elas diferentes, mas marcadas pelo mesmo sentimento do passado e por um indisfarçado medo do futuro.
Viam-se afastadas pelas autoridades das ruas da cidade, para não borrarem a pintura, enquanto decorrerem os Jogos Olímpicos de Moscovo, na União Soviética.
Para que isso seja levado a cabo com sucesso, existem responsáveis actuantes, mandatados para o fazer cumprir integralmente.
A gestão do barracão está ao cuidado de uma outra mulher, Valentina, guarda florestal, que tem um filho policia, o qual se deixa apaixonar por uma das prostitutas.
Mas, em todo este ambiente deveras hostil ainda há espaço para a solidariedade, o que nos faz acreditar que, apesar de todas as adversidades, nem tudo ainda está perdido.
O Autor
Aleksandr Galine nasceu em 1947, em Kursk, pequena cidade a sul de Moscovo. As memórias de infância da sua terra natal, as recordações nostálgicas do passado, da sua juventude no pós-guerra dão a tal mistura do cómico e triste às suas peças.
Galine é um dos mais brilhantes escritores da sua geração que se designou por uma nova vaga da dramaturgia russa, procurando dar testemunho do seu tempo, da contradição entre esperanças da sua geração e o desencanto da sua vida profissional e amorosa, do peso da sociedade soviética no período de Brejnev.
Para além das «Estrelas no Céu da Manhã» em 1981, escreveu «O Muro», «Rectro», «O tecto» e «Bancada Leste».
«Estrelas no Céu da Manhã», estreou no Teatro Maly de Leninegrado, em 1986.
Em cena no Auditório da Freguesia da Verderena
Dia 18 e 25 de Novembro - 21h30
Dia 26 de Novembro - 16 horas
NÃO PERCA!
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