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Perspectivas

Barreiro - «Jogo de Massacre» uma peça que é ArteVivaUm espectáculo onde a morte afirma-se com um grito à vida.

Um texto tremendo. Irónico. Brutal. Filosófico. Uma peça que tem força na sua riqueza discursiva, muito bem interpretada, com uma excelente dicção de todos os actores, nos gritos, nas emoções, nos diálogos.

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Barreiro - «Jogo de Massacre» uma peça que é ArteViva Um espectáculo onde a morte afirma-se com um grito à vida.

Por Jornal Rostos

É de facto ali, que a peça começa, nas ruas da cidade, onde nos cruzamos, onde, até, talvez, em cada esquina podemos encontrar um amigo, nesse espaço, ponto de encontro com os dias, com o seu ritmo frenético, que nasce a complexidade da vida, na nossa capacidade de nos encontrarmos para além do silêncio, e, rasgarmos os muros de uma cidade fechada.
A peça começa, ali, sincopada, nesse ritual, de cores, sorrisos, onde fabricamos os dias. O trânsito dos dias, porque a vida afinal, é isso mesmo, um trânsito, feito de transitoriedade, onde nos movemos, sorrimos e morremos. A vida.

Aquele cenário ergue-se, ali, na nossa frente, uma paisagem que revoluciona os nervos. Um lugar que domina sobre as personagens. Pode ser uma fábrica, essa, feita nas imagens que emergem na memória, oriundas de cenas do filme «Tempos Modernos», de Charlot. Pode ser o convés de um navio, aquele que nos limita no espaço e tempo, que, mais à frente esbarra num iceberg, tal Titanic.
Pode ser isso mesmo, e, apenas, um alpendre de uma construção que irá nascer algures numa cidade de futuro – uma casa, um quartel, uma prisão, sempre um espaço fechado.
O cenário que é a construção de um mundo, ali, fechado dentro de si mesmo, com as coordenadas bem definidas, no espaço e no tempo, onde, afinal, só existe o existir e morrer. É ali que as personagens se movem, constroem e destroem. Um jogo.

O cenário é deslumbrante aberto ao futuro, e, simultaneamente empurra-nos para os subterrâneos, o lugares onde os ratos vegetam, lugares esses, apenas ganhando vida com os movimentos e as cores dos personagens, que desfilam em gestos, em aparências.
A vida da cidade é o teatro, onde as personagens vivem ou morrem. A morte, ali, é uma banalidade. Um medo. Uma certeza.

O guarda roupa está deslumbrante, colorido, dinâmico, resplandece no espaço, é, de facto, através dele que as personagens traçam na paisagem hermética de aço a energia da sua vontade de estar e ser para além daquele mundo fechado, assumindo colorido e alegria.
Um guarda roupa de excelência. Figurinos que dão asas à imaginação.

A peça é uma sucessão de cenas, cada uma com a sua linguagem e conteúdo que nos obriga a interagir por dentro do pensamento. Sentir com gargalhadas todos os discursos, sejam dos camaradas, ou dos irmãos na fé, as marcas de uma cultura, de conflitualidade, que se dirige entre a realidade real – aquela que vivemos e sentimos, e a realidade virtual aquela que é inventada – numa narrativa que nos conduz ao silêncio – “ninguém sai de casa!”.

A morte entra-nos pelos olhos de forma subtil, convincente, entre o riso e o drama, é figurativa e marginal. Acabamos por nem levar a morte a sério.
A morte, é tão presente que, por fim, chega a um certo ponto, que fica quase desprovida de sentido humanista, de tal forma que somos, na verdade, quase levados a pensar: Matai-vos uns aos outros! Isso, de facto, parece tornar-se mais forte que o «Amai-vos uns aos outros».

Um texto tremendo. Irónico. Brutal. Filosófico. Uma peça que tem força na sua riqueza discursiva, muito bem interpretada, com uma excelente dicção de todos os actores, nos gritos, nas emoções, nos diálogos.
Um texto que levanta problemas e abre um caminho para pensarmos o tempo que vivemos, por dentro de nós, na nossa própria solidão, essa que é o nosso encontro com a morte.
Um texto muito bem encenado. Um texto muito bem interpretado.

E, digo-vos, aquele final é deslumbrante. Dantesco. Tem uma energia avassaladora que explode num ritmo vibrante de sonoridade e luz, numa sincronização plástica de movimentos, tão perfeita, que atinge uma beleza única, dando ao final uma dimensão estética que se inscreve nos nervos e na memória.
Um final que é um grito, um basta, um protesto, onde, afinal, a morte afirma-se com um grito à vida.
Um final que é quase como um rasgar de todas as máscaras, afirmando: Desperta e canta, tu que és pó, e, em pó te vais transformar! Recordei este texto ao ver aquele final – espectacular – que por ser tão radical, abre as portas ao emocional, numa plasticidade que é, sem dúvida, ela mesma, a síntese de todo o texto e de toda acção vivida pelas personagens.

Ali, ao vermos aquela imagem a penetrar os nossos olhos, viajamos, subitamente, por dentro dos dias e do tempo, pensamos, agarrados às grades, é isso, é mesmo isso, é esse eco que vem do tempo, para além das grades, existe - “Lá fora a cidade..”.

Sempre me interroguei sobre a dimensão da actualidade dos textos que o ArteViva escolhe, a sua contextualização epocal, particularmente nas vivências da comunidade, esta nossa comunidade.
Acaso, coincidência, fiquei com essa mensagem, que há sempre mais vida que a vida que, por vezes, o sistema quer projectar …e, se a vida é teatro, ali, sentimos que o teatro é vida.
Parabéns Carina Silva, excelente encenação. Parabéns a todos os actores, criadores de música, som e luz. Um trabalho de excelência.

Lanço um repto, numa noite destas, durante este tempo que o espectáculo estiver em cena, convidem alunos e professores da disciplina de Filosofia das Escolas Secundárias do Barreiro, e, promovam conversas, tendo a peça como tema de debate e reflexão.
Era giro, pensar a vida e a morte…numa cidade que luta por sobreviver e quer renascer.
Afinal, uma cidade não morre só de morte, morre também da morte da sua sociedade civil quando ela se cala e fica fechada nos seus fantasmas e silêncios.

António Sousa Pereira

SINOPSE

Numa cidade que não está claramente identificada, assim como num período igualmente indefinido, num belo dia, de repente, sem que haja o menor aviso uma epidemia explode.
Ninguém sabe o que é nem de onde vem, mas o facto é que as pessoas morrem como bonecos, ao acaso.
A morte, o mal, o grande mal.
Neste espectáculo, a morte tem pouca importância. O que importa é o que acontece com os seres humanos numa sociedade que está sob ameaça. Com que facilidade as liberdades humanas são comprometidas e manipuladas pelo medo.
O que interessa é o absurdo da capacidade humana, de engano e loucura e a possibilidade sempre contingente da verdadeira comunicação. A construção social que nos cerca. Somos colocados dentro de um sistema, de uma ordem social que nos molda.
Como nos comportamos quando tudo isso desaparece?
A maioria das personagens são imbecis e o público sempre se riu dos imbecis. Continua a rir-se, mas vai-os descobrindo cada vez mais inquietantes, ameaçadores ou invasores. Os imbecis tornaram-se mortíferos, proliferantes, insidiosos.
Como é que os nossos semelhantes se comportam mediante um fenómeno que excede a imaginação? O resultado pode ser uma grande visão da comédia humana.
Todos são reconhecíveis.

Carina Silva

Ficha Técnica
Jogo de Massacre

Autor – Eugène Ionesco
Tradução – Lurdes Faneca
Encenação – Carina Silva

Elenco
Alexandre Antunes, Ana Sofia Samora, Catarina Santana, Celeste Mestre, Luís Pacheco, Patrocínia Cristovão, Ricardo Gurreiro, Rita Reis, Sara Santinho, Vanda Robalo, Vítor Nuno.

Cenografia – João Pimenta
Figurinos – Ana Pimpista
Música – Fast Eddie Nelson
Construção e Montagem – António Santinho
Apoio Figurinos – Oficina de Costura Criativa
Luminotecnia – João Oliveira Júnior
Operação Técnica – Maria Inês Santos
Contra- Regra – Adriana Lopes
Design Gráfico – João Pimenta
Produção Executiva – Catarina Santana
Fotografia – Cláudio Ferreira
Apoio Geral – João Henrique Oliveira

Classificação – M/14
Agradecimento Especial a Maria Genoveva Pimpista
76ª Produção da ArteViva – Companhia de Teatro do Barreiro

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