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Perspectivas

Pedro Canário, ex-Presidente da Câmara Municipal do Barreiro«Até parece que quem ganhou a Câmara foi o Nelson Favas aquele senhor da Remax»

. No século XX o Barreiro esteve debaixo da supervisão, das ordens, da CP, da APL, da CUF

»Uma pessoa que vai para ali, agora, fazer prédios, e fazer construções, é uma pessoa que não tem a minima sensibilidade e o minimo amor a esta terra.», afirmou Pedro Canário, ex- presidente da Câmara Municipal do Barreiro, eleito pela CDU.

«Ao fim de tantos anos, e pelo esforço que a Câmara fez para aquisição daquela Quinta, venha agora alguém, torpediar, destruir, de uma forma inaceitável, ligeira, inculta, isto é um acto de incultura, uma pessoa culta não faz uma coisa daquelas», disse.

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Pedro Canário, ex-Presidente da Câmara Municipal do Barreiro «Até parece que quem ganhou a Câmara foi o Nelson Favas aquele senhor da Remax»

Por Jornal Rostos

«A Quinta Braamcamp e a sua alienação a coberto do Plano Director, numa perspectiva actual e histórica”, foi o tema que enquadrou o debate que decorreu na sede do União Futebol Clube, promovido pelo Movimento “A Quinta de Braamcamp é de todos!».
Foram convidados Pedro Canário, ex-presidente da Câmara Municipal do Barreiro, eleito pela CDU, e, Madalena Alves Pereira, ex- vereadora da Câmara Municipal do Barreiro, eleita pelo Partido Socialista.

PDM não pode justificar hoje a construção de habitação

Madalena Alves Pereira, PS, na sua intervenção, sublinhou o papel de intervenção e cidadania dos movimentos que desenvolvem a sua acção de compromisso com a cidade, e com a defesa de um património precioso – a Quinta de Braamcamp.
Referiu a importância das zonas ribeirinhas e a necessidade de existir uma estratégia, de valorização da ligação ao rio, e, nesse sentido manifestou a sua discordância sobre a eventual construção de habitação na Quinta de Braamcamp, contestou que, hoje, seja usado o PDM para justificar aquilo que o actual executivo municipal pretende fazer, e, também, alertou para os perigos da venda daquele património municipal.

Mérito de fazer o 1º Plano Director Municipal

No começo da sua intervenção, Pedro Canário, recordou “o espirito que presidia à elaboração do PDM”, quando foi feito e aprovado há 25 anos .
“É evidente que as preocupações de carácter social e ambiental, hoje, estão muito mais vivas, muito mais presentes. Nós nunca teríamos nenhum equipamento para cães, porque era completamente desfasado das novas realidades.”, disse.
Referiu “o mérito de fazer o 1º Plano Director Municipal, no Barreiro”.
“Foi um desafio. Não havia histórico. Havia um histórico interno. Na Câmara havia um esboço de plano, que serviu de guia”, acrescentou.

Um plano director com 170 unidades urbanisticas

“O Plano foi elaborado, prevendo de facto o aumento da população, mas, já sabíamos à partida que não iríamos alcançar totalmente.
O problema que se punha é se dávamos direitos a vários proprietários, ou se dávamos só a um, ou a dois, ou a três, e começávamos a descriminar os proprietários, em relação à valorização possível das suas propriedades.
De modo que decidiu-se fazer um plano director com 168 ou 170 unidades operativas, unidades urbanisticas de intervenção, que contemplaram a generalidade dos proprietários”, afirmou Pedro Canário.

Houve preocupações de carácter ambiental

Recordou que na elaboração do PDM, houve preocupações de carácter ambiental, através da definição de uma estrutura verde, de uma rede verde, no concelho.
“Fixamos a questão muito importante da Mata da Machada e dos sapais. Deram-se passos importantes”. disse.

Uma fábrica de cortiça numa zona privilegiada

“Depois aparece aqui um anacronismo, que era, ainda, a existência de uma fábrica de cortiça numa zona privilegiada.
Todas as outras fábricas de cortiça deram origem a urbanizações. Há aqui uma tradição de se construir dentro das fábricas. Mas, não foi por isso que ali prevemos essa possibilidade”, referiu.
“O que pensámos foi, esta fábrica está cada vez mais a morrer. Creio que só havia um produto que se fazia, um aglomerado de cortiça e borracha, que servia para as bocas das cabeças de motor. Iam para a América, para a General Motors, que fechou esse centro de compras. A fábrica perdeu a clientela e acabou por fechar. Aquilo estava nitidamente com os dias contados”, disse.

Eles queriam 500 fogos. Nós fomos até 185

Recordou que Essence comprou duas fábrica no Montijo e comunicou a intenção de mudar para lá o que restava da produção, no Barreiro.
“Não havia dinheiro e a divida da Essence, era uma divida enorme. Tivemos um assédio enorme da parte deles para ver se nós viabilizávamos, alguma construção. Eles queriam 500 fogos. Nós fomos até 185, e, dissemos, daqui não se passa.
Era a tentativa de libertar aquele espaço enorme da fábrica, que era obsoleta e feia.”, salientou Pedro Canário.

Integrada na reserva ecológica nacional

O ex-presidente da CMB, referiu que a parte da Quinta, propriamente dita, ficou salvaguardada, porque foi integrada na reserva ecológica nacional. “Ali nunca se pôs a questão de fazer habitação, na zona da quinta. Isto foi o que nós raciocinamos nessa altura, bem ou mal, a intenção por trás era boa, mesmo que a medida conduzisse a uma solução que não fosse a ideal, do mal o menos.”, afirma.

Ninguém mais pensou naquilo

Pedro Canário questionou porque razão ao longo de 20 e tal anos, - “ninguém mais pensou naquilo, em termos de alterar, fazer um plano de pormenor, alterar o PDM”.
“Eu sei que na revisão do PDM houve problemas, burocracias, respostas não atempadas. Houve uma empresa que faliu, que iniciou a insolvência. Houve percalços que não o permitiram.”, acrescentou.

Soluções que são extremamente retrógradas.

“Mas, o grande percalço, é hoje, estar a mandar nisto quem está, porque quando a Câmara compra, para si, para o nosso património, é de certeza no objectivo de fazer a ocupação daquele espaço à luz dos critérios dos dias de hoje, e não vir com soluções que são extremamente retrógradas.
Até parece que quem ganhou a Câmara foi o Nelson Favas, aquele senhor da Remax, que está num grande cartaz.”, salientou.

Temos que ter respeito pelo património

“Isto não é para brincar. Nós não podemos ir para a Câmara fazer negócios com o dinheiro público. Temos que ter respeito pelo património que estamos a gerir, e, temos que pensar que esse património tem que ser gerido, para concorrer para a felicidade das pessoas e não para a felicidade de meia dúzia. Essa é que é questão. Isto não é para engrandecer o ego seja de quem for. Há que ser humilde quando se vai para estes cargos. Tem que se ter o sentido de responsabilidade.
Isto não é uma questão politica, é uma questão do carácter das pessoas, que assumem esses cargos.”, disse Pedro Canário.

Existe uma grande falta de carácter

“Eu não vejo o Emidio Xavier, sinceramente não vejo, a tomar uma posição destas, e, é do partido que hoje tem a maioria na Câmara.
Isto tem a ver com o carácter das pessoas. Nesta situação, para mim, existe uma grande falta de carácter, uma grande falta de humildade e uma grande falta de sentido da coisa pública”, acusou o antigo Presidente da Câmara Municipal do Barreiro.

Deixem estar aquilo pacatamente à beira Tejo

“Eu não discuto se o projecto tem que ter lá isto, ou se tem que ter lá aquilo, tem é que estar ao serviço da população.
E, não é preciso dinheiro, aquela questão do financiamento, como é que a gente recupera.
É mentira. Quanto menos se gastar, quanto mais barato for o projecto na Quinta de Braamcamp, melhor ele fica, menos se estraga. Quanto mais se meter lá de cimento e porcarias, pior.
Deixem estar aquilo pacatamente à beira Tejo, para a gente fruir, como parque, como prolongamento das duas praias.
Todos esses argumentos caem. Para já, até a União Europeia financia de caras um projecto de recuperação ambiental daquele espaço, tal como financiou os passadiços, o polis, têm é que se meter os projectos.”, afirmou.

Uma pessoa com um minimo de cultura respeita o ambiente

“Que hei-de dizer a isto, como cidadão estou indignado. Tenho evitado falar sobre isto, porque me magoa profundamente, que ao fim de tantos anos, e pelo esforço que a Câmara fez para aquisição daquela Quinta, venha agora alguém, torpediar, destruir, de uma forma inaceitável, ligeira, inculta, isto é um acto de incultura, uma pessoa culta não faz uma coisa daquelas.
Uma pessoa com um minimo de cultura respeita o ambiente, respeita o património, respeita aquilo que os cidadãos barreirenses, sempre defenderam na generalidade, como um espaço, onde o Barreiro sempre esteticamente se reviu dos três Moinhos, Alburrica, etc.
Está ali a nossa memória estética mais rica, do convivio entre o Barreiro e o mar, reside naquele espaço.
Uma pessoa que vai para ali, agora, fazer prédios, e fazer construções, é uma pessoa que não tem a minima sensibilidade e o minimo amor a esta terra.”, disse.

Barreiro à medida dos seus interesses CP, CUF e APL

Pedro Canário, CDU, ex- presidente da CMB, recordou que – “o Barreiro esteve no século XX debaixo da supervisão, das ordens, de uma CP, duma APL, duma CUF, que fizeram e moldaram o Barreiro à medida dos seus interesses e nunca à medida dos interesses dos barreirenses.”
Salientou que “ingenuamente”, pensava “no meu caso pelo menos”, que o desenvolvimento do Barreiro no século XXI – “tinha que se basear noutros pressupostos, ou seja, no trazer estas áreas (da CP, CUF,APL) como contributos fundamentais para o desenvolvimento”.

Temos poucas áreas, temos poucos recursos
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Recordou que no concelho do Barreiro, “temos poucas áreas, temos poucos recursos”, por essa razão as áreas que temos têm que se “transformar como factores de progresso e assentar nelas os factores de desenvolvimento, deste século que já estamos a viver.”.
Sublinhou, aquelas que considera “ameaças”, nomeadamente o aeroporto no Montijo, o porto de águas profundas, com um cais enorme, e, mesmo que seja parcialmente, - “aquele é o único sitio que temos”.

O único espaço cultural, paisagistico e natural.

Pedro Canário, recordou que a CP, APL e CUF – “deixaram-nos este espaço do Braamcamp, como o único espaço cultural, paisagistico e natural. Tudo o resto foi absolutamente destruído, tudo o que era natural desapareceu, as marinhas no Lavradio, enfim, a gente sabe como foi.
Se tivermos o aeroporto, se vier para aqui o porto daquela natureza, e, se nos deram cabo da Quinta da Braamcamp, qual é o modelo de desenvolvimento que o Barreiro tem, onde é que está aqui a modernidade, onde é que está aqui a qualidade, onde é que está aqui o turismo?.
Algum turista vem meter-se debaixo de um avião, tudo isto é condenar o Barreiro, a mais um século desgraçado, desqualificado?”, interrogou.

Barreiro precisa muito de população

«Isto desvaloriza o nosso património, as nossas casas, o ambiente social, a piramide social desequilibrada, porque não existe procura para um concelho com estas condições futuras. Num concelho com estas condições não vai existir procura, por parte de um determinado extracto social que nos faz falta, que é importante estar presente num concelho, numa população saudável, do ponto de vista económico, do ponto de vista mental.
O Barreiro precisa muito de população. O Barreiro, mesmo com o Plano Director, falou-se que havia uma especulação imobiliária, quando eu estava na Câmara. Era inocência. Perdemos população. As pessoas deixaram as casas velhas para ir viver para casas novas. Ainda bem», referiu.

Futuro do desenvolvimento está nas pessoas

“As estratégias de desenvolvimento não podem assentar só nas grandes coisas, nas grandes construções. A verdadeira estratégia de desenvolvimento tem que assentar no progresso social e cultural dos jovens, das populações, do trabalho cultural, do trazer aos jovens as valências no seu conhecimento, que podem ser as ferramentas do futuro.
O futuro do desenvolvimento está nas pessoas, não está nos aeroportos. Está na valorização do capital humano. Este é o grande capital do concelho.
Nada disto se faz, antes pelo contrário, vai-se cada vez mais sacrificando a qualidade e esse capital humano, digamos, às miragens dos grandes projectos e das grandes opções”, disse Pedro Canário.

Barreiro hoje tem milhares de pessoas sem médico de familia

“Nós conseguimos fazer na altura o Parque da Cidade. O Parque da Cidade faz mais pelo quotidiano das pessoas, daquela zona, das crianças e todos que o frequentam, faz mais pela valorização dessas pessoas, do que faz uma ponte.
É no dia-a-dia que nós temos que investir nas nossas crianças e nas nossas pessoas, quer nos idosos, mas fundamentalmente na juventude, é por aí que se tem que caminhar, na colaboração com os professores, na saúde.

Estar vigilantes em relação aos Hospitais, aos Centros de Saúde, aquilo que se está fazer no concelho.

O Hospital do Barreiro é muito bom, agora, em termos de saúde, o que é que o Barreiro hoje tem, milhares de pessoas sem sequer médico de familia.
Na lista dos sem médico há milhares. E quando os médicos se vão reformando o número dos milhares sem médico vai subindo.”, referiu.

Defender para a nossa terra o melhor

«A minha bandeira é a minha condição de barreirense. É por aí que eu vou. Não vale a pena ir por outro lado. Esta é a nossa primeira obrigação. Os politicos fazem um juramento, está implicito, defender a sua terra.
Dar dignidade ao cargo, para que foram eleitos. Uns tentam cumprir com o juramento. Outros não.>
Defender para a nossa terra o melhor. Não queremos deixar aos nossos filhos uma terra condicionada, que continuará, marginal, triste, por falta de consciência. Neste caso é o PS que está na Câmara, podia ser outro”, referiu Pedro Canário..

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