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Perspectivas

BARREIRO - Uma conversa sobre a Guerra Colonial na Escola de CasquilhosFicou a mensagem para criarmos «Oásis de Paz»

Na Escola Secundária de Casquilhos, no Barreiro, ontem à tarde, realizou-se uma conversa que teve como tema a «Guerra Colonial», uma iniciativa que foi marcada por momentos de intenda emoção, com as lágrimas que nasciam das memórias a conterem as palavras.

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BARREIRO - Uma conversa sobre a Guerra Colonial na Escola de Casquilhos Ficou a mensagem para criarmos «Oásis de Paz»

Por Jornal Rostos

Uma conversa que decorreu na Biblioteca daquele estabelecimento de ensino, numa sala cheia, com alunos dos 10º e 12º anos. Um debate moderado pelas alunas Filipa, Diana e Tulia, com coordenação da professora Helena Pereira, que dinamiza estas acções no âmbito do projecto «Caminhos (Com)sentidos».

Criarmos “Oásis de Paz”

Luis Rino, Director do Agrupamento das Escolas de Casquilhos, na abertura sublinhou a importância de nos tempos actuais realizar um debate tendo a guerra como tema.
Helena Pereira, salientou que cada um de nós pode ser ruma gota na acção em defesa da Paz e, referiu a importância de através de testemunhos de quem viveu as situações de guerra, neste caso da Guerra Colonial, para que todos possam levar uma mensagem para casa e criarmos “Oásis de Paz”, através de acções de solidárias com os outros.

O que é a guerra?

O que é a guerra? Foi a pergunta que abriu a conversa, para um “é uma luta entre as pessoas”, para outro é “um conflito entre dois países que não se entendem e optam por usar armas”.
E para responder, ou abrir caminhos, para responder a esta pergunta os prelectores convidados partilharam os seus testemunhos de experiências vividas da Guerra Colonial.

Regressamos estranhos, os que ficaram estão estranhos

Carlos Alberto Correia, que viveu como operacional no terreno os combates da Guerra Colonial, na Guiné.
Recordou que na guerra ganha-se mais dinheiro do que aqueles que vivem da paz - “não há dinheiro para hospitais, nem para escolas, mas há sempre dinheiro para as armas”, disse.
Sublinhou que na guerra “há um tempo diferente do tempo da paz”, uma tempo que marca as pessoas de forma diferente, quem vai para a guerra, quando regressa vem diferente, quem fica no regresso de quem partiu, encontra alguém que está diferente – “regressamos estranhos, os que ficaram estão estranhos”.
Recordou que dos 50 militares que, com ele, foram para a Guiné, e deixaram em Portugal, a sua namorada, a sua noiva ou a sua esposa, apenas um, nos dias de hoje mantém a mesma relação.
Carlos Alberto Correia recordou situações de combate e como após a sua presença em África, para onde foi como voluntário, quando regressou sentiu que tinha que combater o regime de Salazar, optando pela luta revolucionária.

Ainda hoje não consigo ouvir foguetes

Maria Filomena, fez parte daqueles muitos portugueses que foram estimulados a colonizar Angola. Era uma criança de dois anos quando sues pais, de Famalicão, decidiram vender tudo e partir para África onde iriam “começar uma vida nova, numa terra estranha”.
“De politica os meus pais não percebiam nada”, disse, onde viviam “a vida era calma, a guerra era longe de Luanda”, recordava.
E, quando recorda os dias, após o 25 de Abril, emociona-se, as palavras sufocam as lágrimas, os tempos de guerra agora eram outros, entre o MPLA, a UNITA e a FNLA, os movimentos de libertação de Angola, uns apoiados pela Rússia, outros pelos Estados Unidos, outros pela China
Recordava que seu pai tinha três cartões de filiado, um por cada movimento politico, para apresentar nos stops nas ruas: se parasse perante o MPLA, tinha que os tratar por “Camaradas”, se fossem controles da UNITA, eram «irmãos», e no caso da FNLA, então tinha que ser o trato de “amigo”. Era a lei da sobrevivência.
Recordou os tempos de racionamento, dos tiroteios nas ruas, da fuga abandonar Angola, escondidos num jeep.
E, depois, em Portugal, recordou os dias dolorosos que viveu no Jamor, num «campo de refugiados», em tendas a partilhar o mesmo espaço, com centenas de famílias – “os retornados, que eram ofendidos”.
Por fim partiu e reconstruiu a casa da sua aldeia, lutou, a trabalhar e a estudar, para concluir seu curso e abraçar a sua profissão de professora.
“Ainda hoje não consigo ouvir foguetes”, comentava emocionada.

Soldados portugueses fizeram dele o «mascote» - Pedro

Pedro Santarém, começou por salientar que a Guerra Colonial não começou em 1961, tinha começado muitos anos antes, no tempo dos descobrimentos, quando os portugueses ocuparam os territórios de áfrica, exploraram os povos e implementar a escravatura.
Em 1961, começou o caminho da luta pela independência, em Angola.
Recordou quando era criança o ataque à sua aldeia, o cerco, os gritos – “limpa a aldeia, tudo o que mexe é para matar” - os tiros, a fuga para o mato. E o estar sozinho junto ao rio a brincar.
Os soldados portugueses fizeram dele o «mascote» - Pedro - decidiram trazê-lo para Portugal, onde foi registado, e, ficou a ser – Pedro Santarém, porque o batalhão era de Santarém.
Foi viver para Viseu. Esteve nos Pupilos do Exército e concluiu no Técnico o Curso de Engenharia.
No final da sua intervenção salientou que – “é mais difícil fazer a paz que fazer a guerra”.

Salazar levou o meu pai parta a guerra

Lina Heitor, filha de um militar de carreira, que em Março de 1961, partiu para Angola, onde a Guerra Colonial tinha começado em Fevereiro desse ano, na sua intervenção também se emocionou ao recordar os dias da sua infância marcados pela ausência de seu pai, e as lágrimas saltaram nos seus olhos, quando recordou as palavras que seu pai tinha dito, junto ao seu berço, antes de partir para a guerra: “Não sei se voltarei ver a minha filha”.
“Salazar levou o meu pai parta a guerra. Não tive a presença do meu pai até aos 2 anos”, disse, e muitas vezes, nas idas e vindas rumo à Guerra, sentiu esse vazio.
“Se eu escrevesse um livro sobre a guerra, eu escrevia um livro sobre a guerra do lado de cá, a dor dos que ficavam, e a dor dos que partiam”, sublinhou.
“As mães, as irmãs, as filhas não faziam a comida que seus maridos, seus irmãos ou seus pais gostavam durante todo o tempo que eles estavam na guerra”, referiu.
Recordou o dia que se u pai regressou e o seu cão – o Tejo – mal descobriu o seu pai na rua, foi a correr para ele e de patas no ar parecia querer abraça-lo- “guardo essa imagem dentro de mim”, disse.
Finalizou a sua intervenção com um poema de Manuel Alegres, uma memória da guerra, de um homem feito em 25 pedaços.

Vai para tua terra

Seguiu-se um período de debate, com intervenções diversas, e, um encontro de palavras com a história de um país que está inscrita no quotidiano de uma comunidade. Como dizia uma jovem, de lágrimas nos olhos, que é filha de africanos, mas que nasceu em Portugal, muitas vezes lhe dizem: “Vai para tua terra!”
Uma tarde de conversa. De muitas palavras. De muitas emoções. Uma tarde que a escola abraçou a vida.

S.P.

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