Projéctor apresenta“As espingardas de Teresa Carrar”
Vivemos num tempo marcado pela presença quotidiana da “guerra”, e, mais não seja, talvez, por esta razão, e, naturalmente, por outras, vale a pena assistir ao espectáculo encenado por Luciano Barata.

Por António Sousa Pereira
Li, um dia, num qualquer texto, nem sei de cujo autor, que o fenómeno cultural e a cultura como desenvolvimento é aquilo que diferencia o homem do animal nessa sua capacidade de “organizar a cultura, com produto das suas vivências”.
Referia-se no dito texto que o “fenómeno cultural afirma-se com os valores que são a essência do homem, enquanto ser transformador e criador, que através da cultura liberta-se dos condicionalismos naturais, da sua animalidade”.
Que é o teatro?
O Teatro é uma das formas de expressão do homem, de comunicação e de representação do real e do imaginário.
O Teatro é arte. O Teatro é o actor. O Teatro é um acessório da literatura dramática. O Teatro é um meio de distracção. O Teatro só existe com público.
Dizia Almeida Garret, passo a citar : “O Teatro é um grande meio de civilização, mas não pode desenvolver-se onde a civilização não existe”.
Vem tudo isto a propósito da peça que fui assistir, ali, ao Centro de Convívio Marques da Costa, na Rua Adriano Correia de Oliveira, na Quinta da Lomba, onde o Grupo de Teatro – PROJÉCTOR – leva à cena a peça : “As espingardas de Teresa Carrar”, encenada por Luciano Barata.
O Teatro é o público
Num final de uma tarde de sábado, numa sala repleta, nos seus cerca de 50 lugares, essencialmente com idosos oriundos do CRIVA – Centro de Reformados e Idosos do Vale da Amoreira, o PROJÉCTOR levou à cena mais uma vez o seu novo espectáculo. Aqui o Teatro é o público.
Vivemos num tempo marcado pela presença quotidiana da “guerra”, e, mais não seja, talvez, por esta razão, e outras, vale a pena assistir ao espectáculo encenado por Luciano Barata.
O Teatro é o actor
Mas, naturalmente, há outras razões, uma delas é o facto de o “teatro ser arte” e, de facto, com todos os condicionalismos do espaço, é verdadeiramente arte, com cenas de grande força estética e realismo, o espectáculo “As Espingardas de Teresa Carrar”.
A actriz que desempenha o papel de “Teresa Carrar”( salvo erro, Ana Dias), mais uma vez, marca com a força do seu talento e expressividade o seu papel e, sem dúvida, consegue transmitir ao espectador a emoção, que “rasga” do principio ao fim a personalidade central do texto de Beltolt Brecht. É na verdade o fio condutor do texto e quem mantém a vivacidade do espectáculo que, por vezes, parece “esmorecer” em cenas marcadas pela lentidão, das personagens e do discurso. Aqui o Teatro é o actor.
Aliás, o espectáculo, ganha força e dramatismo nas suas cenas finais, fazendo raiar as lágrimas nos olhos de alguns espectadores que vivem o espectáculo de forma intensa.
O Teatro é o texto
Mário Durval, narrador, neste espectáculo, notou-se estar um pouco nervoso, teve algumas “brancas” e até entradas em falso, mas desempenhou o seu papel com altivez, dando-nos a conhecer uma nova faceta do homem e político que, certamente, vive esta peça como uma arma de combate e de afirmação de um projecto de vida.
A peça de Brecht conduz-nos aos tempos da Guerra de Espanha, aos confrontos que dilaceraram gerações, aos conflitos que marcaram uma época da humanidade, de sonhos, de paixões e de combates entre ideias transformadoras e ideias reaccionárias.
O Homem colocado perante opções ideológicas, desafios, entre o amor, o ódio, a vida e a morte.
As mensagens que nos alertam para aqueles que vivem, em todos os tempos, com as mãos manchadas de sangue ( quer em nome de Deus, quer em nome da razão).
A mensagem que nos alerta para uma certeza, em tempo de guerra e de opções, não há neutralidade que nos desvie dos caminhos do confronto, porque afinal, mesmo que não opta pode “morrer em combate”.
Aqui o teatro é o acessório da literatura dramática.
Um espectáculo marcado, afinal, pela dialéctica, da vida, seus contrários e suas sínteses.
Um espectáculo que vale a pena ver e sobre ele meditar neste tempo em que a guerra nos entra todos os dias pela casa adentro.
O Teatro é arte
A encenação está sóbria. A rede decorar a sala, junto ao tecto, parece um excesso e, certamente, mais uma decoração dos anos 90, do que uma “realidade” dos ano 30.
O Guarda Roupa muito bem conseguido deixa bem vincadas as próprias personalidades das personagens.
A música entra nos momentos próprios, de forma marcante e deixando bem vincados momentos cruciais de desenvolvimento da dramatização.
O irmão da Teresa Carrar e o filho, bem como o Padre e a vizinha, conseguem contracenar de forma positiva com a “Teresa Carrar” que, de facto, enche o palco do principio ao fim com brilhantismo.
Afinal o pão cozeu. Tornando real a luta. Porque, afinal, é preciso comer para pegar em armas.
A iluminação do Narrador pode ser intencional ao deixar o seu rosto no preto e branco, mas carecia de ter mais “focagem centralizada”, reduzindo o “ruído” da sua entrada em cena.
Há cenas em que a luz podia ser mais explorada, procurando separar as personagens em cena, nomeadamente no jogo de cartas.
Mas, em conclusão, Luciano Barata está de parabéns, pois, nas condições existentes, é muito positivo o produto final apresentado.
Aqui há Teatro
E, a finalizar, dizer, que é evidente que no Barreiro, continuam a existir homens e mulheres que amam o teatro, que sentem o teatro e que são uma chama viva que nos diz...afinal aqui há civilização, há pessoas que, com intencionalidade cultural, continuam a demonstrar que o que diferencia o homem do animal é o fenómeno cultural, no respeito pelas diferenças e com a vontade de afirmar os sonhos dos homens por um mundo melhor.
Parabéns Projéctor.













