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Perspectivas

TEB apresenta “A Lixeira”Será que os fantasmas da censura perduram ?

O TEB- Teatro de Ensaio do Barreiro estreou o seu novo trabalho, levando à cena a peça “A Lixeira” de Miguel Barbosa.
O espectáculo pode ser visto aos sábados, pelas 21, 30 horas, na Oficina de Teatro Mário Pereira, ali, perto do Largo das Obras, junto ao Restaurante “A Transmontana”.
5 min de leitura
TEB apresenta “A Lixeira” Será que os fantasmas da censura perduram ?

Por S.P.

O espectáculo vai começar. Agradecemos os apoios da Câmara Municipal do Barreiro, da Imprensa Local, da Rádio Popular FM, da Companhia de Teatro de Almada e do “nosso senhorio Srº Jorge Ribeiro, um senhorio porreiro”.
“Agradeço o contributo desta excelente equipa, porque sem ela este trabalho não podia ser feito” –disse Graciano Simões, encenador e cenógrafo deste espectáculo, no início da estreia do novo trabalho do TEB.
Escutam-se as primeiras notas musicais. Abre o pano. E estamos perante um cenário com uma dimensão inesperada, para quem conhece a pequena Oficina de Teatro Mário Pereira.
A primeira imagem que me ocorreu ao olhar para aquele cenário foi a encenação da Ópera “Cats” que tive a oportunidade de ver em Manchester.
O cenário é uma paisagem de uma lixeira cujo “chão” está coberto de jornais. As palavras ditas e pisadas ali no palco onde a arte é questionada a todo o momento.

As palavras, as cores e os cheiros

Um pintor que decide viver numa lixeira e que se interroga sobre valores morais e estéticos. Este papel é desempenhado pelo veterano do TEB – António Jorge – que consegue, apesar da dificuldade do texto manter firme a presença do personagem durante toda o espectáculo. Notou-se o nervosismo normal de uma estreia e as “fifías” que aconteceram ele soube rapidamente superar. Está de parabéns.
Um “negociante de arte” que procura encontrar o caminho para motivar o pintor a criar e que pretende utilizar a lixeira como um elemento de marketing potenciador do negócio. Este papel é desempenhado por Pedro Baião, um estreante, que pode dizer-se começou com o pé direito.
A cena dos “fantasmas” que atormentam o pintor, que faz o espectador mergulhar na sua “consciência” e nos seus dramas, é marcada por uma força que revela como o encenador conseguiu “agarrar” a proposta do autor da peça, ou seja, levar-nos a pensar que os fantasmas existem cá fora porque nós os criamos na nossa interioridade.
Depois, na segunda cena, chega-nos a censura, com as cores nacionais, a censura que marcou um país, que fez Portugal calar-se e interiorizar muitos medos. Um papel representado pela veterana do TEB – Tina Santos – que é uma presença brilhante neste espectáculo nos seus diferentes papéis.
Os quadros vivos. A sobriedade da lixeira. A força das cores . O cheiro que se sente presente, oriundo dos velhos pneus. Todo o conjunto, são pinceladas do cenógrafo e encenador que levam o espectador a fixar-se no espaço cénico e a viver as palavras com intensidade.

Realidade reinventada

O espectáculo tem momentos de beleza estética e de magia, aquela magia que só o teatro nos faz sentir – a realidade reinventada.
No final fica a pergunta – Será que os fantasmas da censura que marcou a nossa cultura durante quatro décadas, não continua a pairar, mesmo no cérebro daqueles que lutaram para se libertar desses medos ?
Um texto demasiado analítico, carregado de conceitos, que por vezes parece mais um monólogo interior, uma vontade de desvelar a consciência, colocando-a em confronto com a realidade, mas que desperta a curiosidade e que o espectador procura não perder o seu sentido.
Uma peça que, penso, merece ser vista mais que uma vez, para a interpretar, para reintereptar, para a descobrir nos seus pormenores de linguagem e de encenação.
Os actores principais, certamente que com a “rodagem” irão dominar mais o texto e contextualizá-lo, dando-lhe as necessárias paragens para uma maior inteligibilidade.
A luz da cena está perfeita, embora, como é normal numa estreia, surjam alguns desfoques, compreensíveis e que não afectaram a qualidade da encenação.
Graciano Simões está de parabéns. Pode dizer-se que esta peça do TEB trouxe o regresso do Graciano Simões, com a sua criatividade, com a sua força plástica e com garra, com os recursos humanos que dispõe, agarrar esta peça é mesmo de quem gosta de arriscar e adora fazer teatro com qualidade.
Uma nota marginal, talvez, os esbirros não careçam de ser tão agressivos, porque a sua presença, só por si em palco, remete-nos para um sistema opressivo.
Outra nota, a cena final – pós espectáculo – quando a mulher do pintor limpa as mãos sujas de lama ao corpo do pintor merecia, talvez, uma focagem de luz com mais intensidade e um fundo musical, de forma a atrair a atenção do espectador e, naturalmente, a cena não ficar como uma mera nota de rodapé.
Este gesto final, tem força e fez-me recordar aquela vela acesa na escuridão do palco da peça – Desperta e Canta´, porque é o momento de “ponto final” que nos remete de forma ostensiva e plástica para todo o texto e conteúdo temático da peça.
“A Lixeira” afinal não é mais que a “lama da consciência” de um pintor que se divide entre o criar, morrer, ou renascer do seu “cavalete-cruz”.
Parabéns TEB !














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