No Barreiro“Noite Sadina” recorda Bocage poeta injustamente esquecido

Por Jornal Rostos
Daniel Pires é professor de Inglês, mas é a um autor de língua portuguesa que dedica os seus estudos.
Morador em Setúbal, o gosto pela literatura levou-o a focalizar-se num autor sadino, e desde então, Bocage tem sido a sua fonte de estudos porque, como referiu ao Rostos “foi um dos maiores poetas e homem de Portugal. Foi uma figura cívica que sempre remou contra a maré”.
Obra em sete volumes
Parte da extensa obra do poeta já foi editada por Daniel Pires em três livros dedicados respectivamente aos Sonetos, cantatas e canções e as poesias eróticas “o livro mais procurado, mas também a obra mais proibida da literatura portuguesa” referiu o autor.
Por lançar estão ainda mais quatro livros, completando assim uma obra em sete volumes, “um estudo contextualizado com notas explicativas sobre as obras, em que se actualizou a grafia e a pontuação. As notas que apresento nos livros explicam quem são as pessoas a que Bocage faz referência nos seus poemas, porque já se passaram duzentos anos e muitas foram esquecidas pelo tempo.
Além disso, Bocage não é um autor fácil, apesar de quase toda a gente conhecer o seu lado mais popular, mas a sua obra é difícil, e combina o neoclassicismo com o pré-romantismo.”
O poeta que ali apresentam não é o verdadeiro Bocage
Após a publicação dos volumes de Sonetos e de Poesia Erótica e Satírica, o terceiro volume trata as cantatas, os idílios, as canções, odes e cantos. Por publicar estão ainda os volumes “que estão a ser preparados aos poucos” e que se vão debruçar sobre as sátiras, as elegias, os elogios, os epicédios, a poesia anacreôntica, os apólogos, os epigramas, as endechas, as glosas, as cançonetas, as traduções do latim e do francês, bem como textos esparsos
Foi uma parte deste trabalho que os membros do Rotary Clube do Barreiro ficaram a conhecer, mais em pormenor, o poeta sobre o qual realizaram-se diversas comemorações durante 2005, no bicentenário da sua morte, e sobre quem, actualmente é apresentada uma série de ficção na televisão portuguesa.
Em relação a esta ficção, Daniel Pires tem uma opinião divida: “veio trazer de novo o poeta à ribalta, porque estava injustamente esquecido, mas por outro lado apresenta alguns problemas de reconstituição histórica e o poeta que ali apresentam não era o verdadeiro Bocage”.
«Magro, de olhos azuis, carão moreno»
Bocage nasceu em Setúbal a 15 de Setembro de 1765, de uma família de ascendência francesa, remediada mas com vasta distinção social e intelectual.
Perdeu a mãe aos 10 anos e foi criado pelo pai e irmãos, em contacto com a boa sociedade de Setúbal. De natureza inquieta, abandona os estudos e assenta praça no regimento de Setúbal com apenas 16 anos, onde permaneceu até 1783, data em que ingressou na Escola da Armada, onde fica a conhecer a vida boémia lisboeta.
Em 1786 consegue a patente de guarda-marinha e parte para a Índia embarcado no "Senhora da Vida", onde passa dois anos de trabalhos.
De volta a Lisboa, sem ocupação, integra-se na Nova Arcádia, com o sobrenome académico de Elmano Sadino e ganha fama com os seus versos mordazes e uma vida dissoluta. Os versos de livre-pensador levam-no ao cárcere, por ordem do Intendente Pina Manique, e nem do Santo Ofício escapa, sendo internado durante dois anos no Colégio do Oratório para uma «cura espiritual».
Quando sai, tenta mudar de vida, tomando a seu cargo uma irmã, mas os excessos cobram os seus dividendos e a sua saúde piora. Esse facto leva a reunirem-se a seu lado os amigos e inimigos, levados pela piedade e consideração.
No dia 2 de Dezembro, aquele que foi Bocage, morre de um aneurisma, no 4º andar do prédio hoje com o nº25 e placa comemorativa na Trav. de André Valente, em Lisboa.
Maria do Carmo Torres













