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Perspectivas

Comemorações do 25 de Abril no Barreiro“O amor à liberdade é característica do Barreiro”

. “O povo é quem mais ordena. Dentro de ti ó cidade”

Carlos Humberto, presidente da Câmara do Barreiro, fez menção à importância da comemoração do 25 de Abril para o Barreiro: “O 25 de Abril foi uma explosão de alegria, de criatividade, foi a conquista da democracia e da liberdade” e é por essas razões que considera que a memória desse dia e da luta que o anteviu é indispensável de ser referenciada em todos os 25 de Abril.

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Comemorações do 25 de Abril no Barreiro “O amor à liberdade é característica do Barreiro”

Por Jornal Rostos

“Recordar todos aqueles que com a sua intervenção, com as limitações da liberdade, com as prisões, com as torturas, com as mortes, com as deportações deram muito do seu esforço para a conquista da liberdade”. Evocando assim a noite de há 33 anos atrás, em que “os militares de braço dado com o povo decidiram que aquela situação era demais e que era preciso dar ao povo a liberdade e a democracia”.

Uma data de “festa, alegria, convívio e fraternidade”

O que foi o corolário de 48 anos de resistência em defesa da liberdade é, para o presidente da Câmara do Barreiro, razão suficiente para que este momento, que fez o passado e o presente do país, seja sempre assinalado. Considerando que “o Barreiro teve um papel significativo na luta pela conquista da democracia”.
Por isso na véspera do 33º aniversário do 25 de Abril, o Barreiro reúne as hostes para comemorar o que foi a Revolução dos Cravos. O local escolhido foi o Parque da Cidade que recebeu a música, a palavra e a poesia que tiveram na década de sessenta uma importância de destaque, nas vozes da resistência, e que tiveram na noite de ontem uma igual grandeza, ou não fosse o 25 de Abril uma data de “festa, alegria, convívio e fraternidade”, salienta Carlos Humberto, o que “se faz muito hoje em dia pela música”. A música marcou presença pelo seu carácter interventivo, e o cantor Pedro Abrunhosa contribui em muito para criar esse ambiente. O presidente da Câmara do Barreiro comenta que a escolha do cantor para animar a festa se deveu: “à poesia que transmite e cria e pelo sentimento que põe nas suas canções”.

O poder da palavra

À semelhança do que aconteceu há 33 anos, a música era um convidado aguardado. A 25 de Abril de 1974 era pela voz de Paulo de Carvalho e de Zeca Afonso, com as canções “E depois do Adeus” e “Grândola Vila Morena”, que a música constituiu um sinal esperado para a partida dos militares na conquista da liberdade. Ontem, foi ao som das melodias de Pedro Abrunhosa que as palavras tomaram forma e souberam falar, dando significado a uma noite que se queria de festa, onde se celebrou a liberdade. Uma noite especial, foi assim que Pedro Abrunhosa a caracterizou. Sem poder deixar de relembrar o passado: “Há 33 anos alguns iluminados saíram dos quartéis para devolver à rua e a cada um de nós o poder que nos tinha sido retirado”. O Poder da Liberdade foi o grito que logo se ouviu nas bocas de cada um dos presentes, que nem a chuva soube afastar, um grito que se repetiu e cuja sonoridade se propagava por entre a multidão.

Pedro Abrunhosa, um cantor de intervenção

Enigmático, irreverente e contestatário, Pedro Abrunhosa assim se revelou ao público que assistia ao espectáculo. A música imperava num tom de alegria e de alguma provocação. Intercalando as suas melodias com palavras que exprimiam os seus sentimentos e opinião. “Tantos têm-se entretido a destruir o 25 de Abril, mas não têm conseguido”. Não deixando de fazer menção ao polémico cartaz do Partido Nacional Renovador, colocado na rotunda do Marquês de Pombal, mas também aí falou em tolerância e em liberdade: “Por isso toleramos aquele cartaz em Lisboa, ainda que seja difícil tolerar a imbecilidade dos outros”. Ao contrário do que é comum, Pedro Abrunhosa quis dedicar um minuto de caos e não de silêncio “pelos agressores”, falando da situação que se vive no Iraque e das mortes que se repetem: “Esses já não falam, já não ouvem”. Em constante comunicação com o público, não hesitava em solicitar a sua participação. E tendo em conta a data que se assinalava, fez uso de um trocadilho do refrão de uma das suas canções. “Talvez Poder” era o grito que pedia que se repetisse: “Isso é que o 25 de Abril”.
As canções que trouxe para agraciar a ocasião, umas já conhecidas, outras que se revelaram pela primeira vez e que fazem parte do novo álbum “Luz” a ser lançado em Maio, fizeram jus a um espectáculo de festa e de reflexão, como se espera nos dias de aniversário.

“Porque estou com o 25 de Abril”

Numa noite em que a chuva marcava presença, muitos foram os que procuraram o Parque da Cidade para assinalar a data e comemorar, em festa, a ocasião. José Neves de 65 anos, nascido no Alentejo “mas já mais barreirense”, encontrou facilmente a justificação para a sua presença no recinto: “Porque estou com o 25 de Abril” e a palavra liberdade foi logo proferida quando questionado com o significado da data.
Rafael Oliveira tem oito anos e vem acompanhado pela mãe e pelas duas irmãs. O 25 de Abril de 74 é uma data que conhece das aulas de história e, mesmo não tendo vivido na pele esse tempo, sabe dizer: “Vivíamos numa ditadura”.

“Uma utopia que se transformou em liberdade

Ao concerto do Pedro Abrunhosa seguiu-se a intervenção do presidente da Câmara do Barreiro. No palco juntaram-se os presidentes das Freguesias do concelho, assim como de alguns autarcas. Carlos Humberto fez menção ao dia em que a ditadura foi derrubada: “Foi há 33 anos que começamos a construir a liberdade, conquistada por muitos homens e mulheres que souberam resistir e lutar contra a opressão que nos roubava a liberdade”. Fazendo questão em referir que o Barreiro “tem um papel importante nessa resistência, na luta e na conquista de um sonho”, ao que acrescentou: “de uma utopia que se transformou em liberdade”. Prestando homenagem a todos os envolvidos na Revolução, destacou, no seu discurso, os que sofreram na pele os males da opressão, os presos e torturados: “O seu esforço não será esquecido”.

“Que ninguém encerre as portas que Abril abriu”

Fazendo alusão às manifestações que tem ocorrido nos últimos tempos, nomeadamente pelos movimentos de extrema-direita, referiu: “Numa altura em que tentam branquear o Estado Novo e o fascismo, é preciso reafirmar os três D: Democracia, Descolonização e Desenvolvimento”. Tudo para que “unidos como os dedos da mão” se preserve esse bem, a liberdade. “Que ninguém encerre as portas que Abril abriu”, foi o desejo que expressou.
Lançando a interrogação: “O que resta de Abril?”, logo replicou que muitas são as suas heranças, entre elas o poder local “um símbolo das conquistas de Abril”.
Afirmando que a autarquia do Barreiro defende: “uma cidade de cultura, de liberdade, de juventude, de participação cívica dos cidadãos”, terminou o discurso dizendo: “A nossa terra tem passado, tem presente. O Barreiro tem futuro, tem democracia. O futuro tem liberdade porque a conquistámos e exercemos. O Futuro tem 25 de Abril”.

“O povo é quem mais ordena. Dentro de ti ó cidade”

Ainda antes do célebre fogo de artifício que assinala a passagem para o dia 25 de Abril, os grupos corais TAB, UTIB, AARB, ESSA Voz e Polifónico do Alto do Seixalinho interpretaram a uma só voz, sob a orientação do maestro Manuel Gonçalves, a canção que há 33 anos atrás constituiu o segundo sinal para o início da Revolução. Foi às 0h20 que a rádio Renascença transmitiu a música ”Grândola Vila Morena“ de Zeca Afonso. Uma senha, um hino que na noite de ontem uniu os presentes. “O povo é quem mais ordena. Dentro de ti ó cidade”, foram as palavras que se ouviram na cidade do Barreiro.

Andreia Lopes Gonçalves

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