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Perspectivas

No Barreiro - LavradioLançamento do livro “Combatentes da 1ª Grande Guerra – Os Lavradienses na Guerra de 1914 -1918”

“Interessou-me falar dos combatentes, em detrimento da guerra”

“Escrevemos mais uma página brilhante da nossa SFAL”

Ontem, no dia em que se comemorava o 25 de Abril, foi lançado na SFAL (Sociedade Filarmónica Agrícola Lavradiense) um livro que evoca as memórias da comunidade lavradiense e que marca o início das comemorações dos 140 anos de vida da colectividade.

O seu autor, João Saraiva, poeta e redactor do jornal Cachaporreiro, diz que o livro foi surgindo à semelhança do milho: “ vai-se juntando tudo e depois sai”. A ideia inicial partiu de uma fotografia que estava na colectividade, mas que ninguém sabia quem eram os retratados.

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No Barreiro - Lavradio Lançamento do livro “Combatentes da 1ª Grande Guerra – Os Lavradienses na Guerra de 1914 -1918”

Por Jornal Rostos

”O principal causador deste livro foi o Sousa Pereira”, confessa o autor, explicando que foi quem o incentivou a procurar informações sobre aqueles rostos que eram já presença no SFAL. A ideia, que inicialmente era de publicar os artigos no jornal da colectividade, o Cachaporreiro, depressa tomou outros contornos e a escrita de um livro pareceu ser a mais acertada, porque “as memórias começaram a surgir”.

“Parece um filho nu que ela foi vestindo, aprimorando”.

“Interessou-me falar dos combatentes em detrimento da guerra”, e isto porque João Saraiva considera que já existem muitos livros sobre o conflito e porque a vontade era de descobrir a história que fez o passado, a história daqueles homens fardados. Ao ver o resultado, João Saraiva fala no livro como se de um filho se tratasse, elogiando o trabalho gráfico realizado por Alexandra Antunes: “Parece um filho nu que ela foi vestindo, aprimorando”.
Sousa Pereira, presidente do Conselho Fiscal da SFAL, referiu: “O livro é do João mas o livro existe porque há uma coisa que se chama SFAL” e falando ainda de livros, acrescentou: “o segundo filho está para nascer a seis de Janeiro de 2008”, explicando tratar-se do lançamento de um livro que fala nos 140 anos da SFAL: “Vai ser um livro de arromba”.

Fotografia de Resende – “uma obra de arte de um dos grandes fotógrafos do Barreiro”

Sousa Pereira não quis deixar de partilhar com os presentes uma recente descoberta. Se no início desconheciam o autor da fotografia, com a ajuda do arquivo municipal perceberam que se tratava de “uma obra de arte de um dos grandes fotógrafos do Barreiro”. Descobrindo assim que a fotografia que serviu de mote para o livro se tratava de uma fotografia do fotógrafo Resende tirada em 1921.

“Escrevemos mais uma página brilhante da nossa SFAL”

João Rosa, presidente da Direcção do SFAL, em nota de abertura, referiu que o livro resultou da conjugação de três factores, sendo o primeiro “o trabalho de um homem que do nada partiu para um trabalho”, referindo-se assim ao escritor João Saraiva. O segundo factor: a “capacidade de trabalho de uma pessoa que agregou todo o trabalho em torno de uma equipa, o Sousa Pereira” e em terceiro fez referência às “pessoas e entidades que apoiaram o lançamento do livro, os patrocinadores e apoiantes”. Considerando que com o lançamento do “Combatentes da 1ª Grande Guerra – Os Lavradienses na Guerra de 1914 -1918”: “Escrevemos mais uma página brilhante da nossa SFAL”. Terminou o seu discurso com a leitura de um fax enviado por uma filha de um combatente retratado na foto, Ivone Bexiga Veríssimo, que endereçava a “expressão sentida de agradecimento e de orgulho por ter nascido no Lavradio”.

Intenso debate em Portugal: Portugal deveria ou não combater na frente europeia

Fernando Rosas, historiador e deputado do Bloco de Esquerda brindou os presentes com uma pequena lição de história relativa ao significado da presença de Portugal na 1ª Guerra Mundial. Começou por referir que se tratou de um “período dramático”, muito difícil para Portugal e que a guerra de 1914/1918 não foi apenas a primeira Grande Guerra a nível mundial mas, também, do ponto de vista tecnológico, alcançou os maiores graus de sofisticação, o que teve expressão numa frase: “foi a mais mortífera”.
Em Portugal, Fernando Rosas explicou que mesmo antes de entrar no conflito, a guerra suscitava um intenso debate, não a respeito de em que lado é que Portugal deveria alinhar, “não havia escolha, era pelos ingleses que tinha de optar Portugal”. O que se discutia, era, como referiu Fernando Rosas, se Portugal deveria ou não combater na frente europeia, para a “zona pantanosa de Flandres”, pois a entrada em África já era consensual: ”tinha de se ir para África para defendê-la dos apetites dos alemães”.
Tratou-se de um “debate intensíssimo que dura de 1914 a 1916”. O que é certo é que Portugal acaba por entrar na guerra em Janeiro de 1917, apesar das tentativas da Inglaterra para que Portugal não se envolvesse no conflito. Mas quando os ingleses decidiram pedir ao estado português a apreensão dos navios germânicos na costa lusitana, os alemães declararam guerra a Portugal.

Entrada na Grande Guerra – Aumento da miséria e queda da 1ª República

A entrada na guerra, nas palavras de Fernando Rosas, teve “os efeitos suficientes para acabar com a 1ºRepública”. Portugal era composto, na altura, maioritariamente por trabalhadores rurais, com um elevado analfabetismo e a população não via com bons olhos a entrada na guerra. Segundo o historiador, nem o país “com uma economia quase sem indústria”, nem os portugueses “bastante tisnados pelo sol” estavam preparados para entrar no conflito.
Os resultados foram o aumento da miséria e da subalimentação “que era o mesmo que no norte de África”, salienta o historiador, para além da inflação, da redução dos salários e do aparecimento de epidemias: “a guerra significava doença”, sublinha.
No campo de batalha, as trincheiras “eram por si uma guerra horrenda” e os hábitos dos portugueses também não se adequavam aos dos ingleses, como dizia Fernando Rosas: “como se vai convencer um alentejano a comer rosbife com ervilhas”.
Em 1917 aparece o milagre de Fátima, a que Fernando Rosas diz na altura ter simbolizado a esperança de que “Alguém ia salvar os portugueses da guerra”.
Em termos políticos, o historiador afirma: “o país começava a estar maduro para a república” e por isso cai a ditadura de Sidónio Pais. Mas o “peso terrível” na economia e sociedade não deixa que a República se recomponha dos efeitos da guerra.

“O melhor será juntar a paz à democracia”.

Na opinião do historiador, a Grande Guerra era “um conflito que pouco tinha a ver com os interesses portugueses”, acrescentando, no entanto, que isso não diminui o “respeito que sente pelos homens que entraram na guerra”. Considera oportuno o lançamento do livro “no dia em que celebramos o fim da ditadura”, ditadura que se impôs à sombra dos efeitos terríveis que teve na sociedade a Grande Guerra. Acabou o discurso prestando uma “grande homenagem às vítimas directas e indirectas da guerra”. Referindo que é preciso lembrar que “as guerras trazem sempre coisas más” e acrescentando que “o melhor será juntar a paz à democracia”.

“É das formas mais humanas e abrangentes de dar o conhecimento da realidade”

Teresa Almeida, Governadora Civil de Setúbal, começou por dizer que o lançamento do livro “era uma das mais bonitas maneiras de comemorar o 25 de Abril”, considerando importante a possibilidade de se aprender mais sobre o que foi um percurso recente do país. “É das formas mais humanas e abrangentes de dar o conhecimento da realidade”. E em jeito de confissão, referiu ainda que, depois de ter ouvido o historiador Fernando Rosas, ficou com vontade de saber um pouco mais acerca desse momento da história de Portugal. “Que temos uma grande responsabilidade em passá-la aos mais novos”, salientou.
Apelidando a circunstancia como sendo um “momento que nos enriquece”, disse que não poderia deixar de estar presente, mesmo sendo esse um dia com tantas solicitações: ”Antevi o amor e a vontade com que estava a ser feita a obra”.

“Só é possível constituir o futuro do Barreiro conhecendo o seu passado”

Carlos Humberto, presidente da Câmara do Barreiro, deixou três breves reflexões começando por falar na data que se assinalava, o 25 de Abril, “data que faz terminar a ditadura e é neste mesmo dia que se inicia um período de democracia e liberdade”. Considerando que “é necessário exercer todos os dias os direitos e os deveres porque essa é a melhor forma de viver a liberdade”.
A respeito dos 140 anos da colectividade, referiu que: “a SFAL é uma colectividade que mantêm a dinâmica e que é um ponto de encontro para momentos lúdicos e recreativos mas também para reflectir para a nossa história e cultura”, ao que acrescentou: “é motivo que nos deve fazer orgulhar por ter uma colectividade com este dinamismo e intervenção multifacetada”. Em relação à obra do escritor João Saraiva, considera que o livro é um contributo essencial para conhecer a realidade da região, o que considera ser importante, pois na sua opinião: “só é possível constituir o futuro do Barreiro conhecendo o seu passado.”

“Prazer em pertencer à família de SFAL”

Faustino Hilário, membro da Liga dos Combatentes da Grande Guerra, considerou o livro como sendo um “contributo para a memória partilhada”, acrescentando: “muito importante e significativo este exercício de cidadania”
Por sua vez, Adolfo Lobo, presidente da Junta do Lavradio, não hesitou em manifestar o seu orgulho enquanto presidente da Junta de Freguesia por “ter uma colectividade com esta dinâmica”, referindo ainda que sentia “prazer em pertencer à família de SFAL”. O pai de Adolfo Lobo também é um dos homens retratados no livro “Combatentes da 1ª Grande Guerra – Os Lavradienses na Guerra de 1914 -1918”, porque são os homens e as famílias que estão presentes numa obra onde as vozes e as histórias merecem destaque.

Andreia Lopes Gonçalves

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