Apresentação do “Dossier Tarrafal” no Barreiro“O Tarrafal foi a mais sinistra de todas as cadeias fascistas”
“Falar do Fascismo é falar daqueles contra os quais se fez os 25 de Abril, é falar da luta pela liberdade, das conquistas democráticas alcançadas com a revolução de Abril, das possibilidades que se abriram para Portugal encontrar um rumo no progresso social, um rumo mais distante daqueles que negam os valores de Abril” – salientou Domingos Abrantes.

Por Jornal Rostos
A Câmara Municipal do Barreiro realizou dia 28 de Abril, no Auditório da Biblioteca Municipal, a apresentação do livro “Dossier Tarrafal” das Edições Avante. A iniciativa que marca os 70 anos da abertura do Tarrafal inseriu-se ainda no âmbito das Comemorações do 25 de Abril.
A publicação, que assinala os 70 anos da abertura do Campo de Concentração do Tarrafal, ocorrida a 29 de Outubro de 1936, é constituída por documentos da época, nomeadamente artigos do Avante!, testemunhos de ex-presidiários do Tarrafal sobre o regime prisional ali vivido e algumas cartas clandestinas, trocadas entre a Direcção do PCP e a Direcção da Organização Prisional Comunista no Tarrafal.
Como se pode ler em Nota da Editora, “este Dossier Tarrafal pretende ser, por parte do Partido Comunista Português, um contributo para o aprofundamento do conhecimento dessa trágica e dolorosa realidade que foi o sinistro Campo de Concentração do Tarrafal e dos crimes que aí foram cometidos”.
Um marco para a história da resistência do Barreiro
Na mesa de apresentação do livro estiveram presentes, Vanessa Almeida, do Sector do Património da Câmara Municipal do Barreiro, Domingos Abrantes, membro do PCP e Joaquim Matias, vereador e vice-presidente da Câmara Municipal do Barreiro.
Com base em dados recolhidos dos arquivos da Torre do Tombo, Vanessa Almeida recordou os nomes dos vários barreirenses que passaram pelo Campo de Concentração do Tarrafal e fez saber que “a primeira viagem com destino ao Campo de Concentração foi a maior leva de prisioneiros da sua história com 152 homens, entre os quais se encontravam 34 marinheiros revoltosos do 8 de Setembro, juntamente com sindicalistas, anarquistas e comunistas implicados na greve geral de 18 de Janeiro de 1934”.
Vanessa Almeida referiu ainda que esta primeira leva se revelou como “um marco para a história da resistência do Barreiro”, uma vez que, no vapor Luanda embarcaram alguns dos indivíduos mais destacados do movimento operário barreirense.
Operários do Barreiro no Tarrafal
Assim, Acácio José da Costa, Abílio Gonçalves – “O Garradas”, Manuel António Boto, Manuel Firme, Reinaldo de Castro – “O Monteiro”, António Gato Pinto, Bernardino Augusto Xavier e Adelino da Fonseca, na sua maioria trabalhadores dos Caminhos de Ferro Sul e Sueste e alguns deles também pertencentes ao Comité Regional Confederação Geral do Trabalho, foram alguns dos nomes referidos nesta apresentação.
Domingos Abrantes, destacado membro do Partido Comunista Português desde 1955, foi operário e responsável pela organização clandestina do PCP em vários pontos do país, em particular na margem sul do Tejo. Foi preso por duas vezes, tendo estado nas cadeias Aljube, Peniche e Caxias, evadindo-se desta última em Dezembro de 1961, com mais sete camaradas, na célebre fuga no carro blindado de Salazar. Passou onze anos nas cadeias fascistas e viveu nove anos na clandestinidade, situação em que se encontrava no dia 25 de Abril de 1974. Foi Deputado na Assembleia da República de 1967 a 1992.
O Tarrafal foi a mais sinistra de todas as cadeias fascistas
“O Tarrafal foi a mais sinistra de todas as cadeias fascistas. Cadeia onde dezenas de antifascistas foram submetidos a condições desumanas, onde mais de três dezenas foram mortos e portanto trata-se de uma realidade que não pode ser esquecida”, recordou Domingos Abrantes que considera que o Campo de Concentração do Tarrafal “ocupou um lugar único no quadro do sistema repressivo”.
Domingo Abrantes encara o presente como “um momento de falsificações da história, um momento de desvalorização da resistência e da luta pela liberdade” valendo a pena relembrar o papel que Salazar desempenhou neste contexto. Salazar não só “tinha uma intervenção muito directa, muito activa na definição das políticas repressivas” como “despachava directamente com o director da prisão e acompanhou a par e passo a montagem da cadeia”, esclareceu o membro do PCP.
O fascismo não foi um acidente de percurso nem está morto
“ O fascismo não foi um acidente de percurso nem está morto e portanto a luta contra o fascismo nos seus múltiplos aspectos não pode ser descurada”, reforçou Domingos Abrantes. “Falar do Fascismo é falar daqueles contra os quais se fez os 25 de Abril, é falar da luta pela liberdade, das conquistas democráticas alcançadas com a revolução de Abril, das possibilidades que se abriram para Portugal encontrar um rumo no progresso social, um rumo mais distante daqueles que negam os valores de Abril”, argumentou ainda.
Por isso, “o Dossier Tarrafal, para além de assinalar um momento trágico para a resistência antifascista em geral e para os comunistas em particular, fazer a justa homenagem àqueles que sacrificaram as suas vidas para que o povo e o nosso país pudessem viver em Liberdade, vem estimular a reflexão sobre a natureza do fascismo e das suas políticas”, afirmou o militante do PCP.
A prisão que ficou conhecida como o campo dos mortos
Domingos Abrantes referiu que esta publicação, com excepção dos artigos do Avante!, é quase todo constituído por documentos existentes no arquivo do PCP. Documentos esses que por terem sido escritos no momento dos factos ganham uma força enorme e que são complementares de muitos outros anteriormente publicados, permitindo assim, ter uma visão muito precisa do quotidiano dos presos do Tarrafal.
Os relatos que chegavam do Tarrafal, segundo Domingos Abrantes “não deixavam dúvidas do campo ter sido concebido para assassinar ou arruinar a saúde dos presos que para lá fossem enviados”. A prisão que ficou conhecida como o campo dos mortos, como o cemitério dos vivos ou como o túmulo dos mortos, não tinha posto médico ou refeitório mas, curiosamente, tinha um cemitério. A alimentação era insuficiente e inadequada, havia falta de assistência médica e de medicamentos assente no princípio que o papel do médico era apenas passar certidões de óbito, e os castigos a que os presos foram submetidos eram frequentes. No entanto, as prisões fascistas não eram apenas locais de tortura e de sofrimento, de humilhações, de privações de convívio, “eram igualmente locais de luta corajosa, eram escolas magníficas de solidariedade, de espírito de entreajuda, de formação cultural e política dos quadros”, afirmou o militante do PCP por fim.
O fascismo existiu, matou, tornou-nos mais infelizes
Joaquim Matias disse ainda que as palavras proferidas por Domingos Abrantes apesar de serem “verdades que custam ouvir mesmo depois de 70 anos”, são extremamente necessárias pois: “o fascismo existiu, matou, tornou-nos mais infelizes e não podemos permitir que se branqueie a história, que se ignore o que se passou”. O vereador e também vice-presidente da Câmara Municipal do Barreiro considera que este é um livro que contribui para manter viva a luta pela liberdade.
Ângela Tavares Belo













