Assembleia Municipal do Barreiro - Fórum “O Centro da Cidade”“É necessário que o Centro seja reforçado”
“Interesse comum: Que o centro histórico do Barreiro não esteja como está”
Para o futuro do Barreiro, o presidente da Câmara do Barreiro, considera essencial que o concelho se torne numa “centralidade, no conjunto das centralidades que é a Área Metropolitana de Lisboa”. E é nesse contexto que fala da construção da “tal cidade de duas margens”, um objectivo que, na sua opinião, se for concretizado irá representar: “um salto em termos de qualidade de vida”.

Por Jornal Rostos
Ontem, no auditório da Biblioteca Municipal do Barreiro, teve lugar o debate sobre o Centro do Barreiro. O presidente da Câmara do Barreiro, Carlos Humberto, abriu as hostes do discurso referindo que o Barreiro precisa de um “Centro forte”, acrescentando: “È necessário que o Centro seja reforçado”. Entende que existem problemas actuais no centro que se podem intensificar, caso não sejam tomadas medidas de mobilidade e de estacionamento. E é nesse sentido que diz estar a trabalhar, para que “o Centro passe a ser do Parque Catarina Eufémia ao Fórum e mais tarde à Rua Miguel Pais”. Realçando ainda: “queremos que a solução seja construída e participada”. E os munícipes responderam ao desafio e vieram ao debate.
“Que o centro se alargue, se consolide e não se desloque”
Tendo em linha de conta que o centro do Barreiro tem vindo a evoluir e a deslocar-se ao longo das décadas, o presidente da Câmara do Barreiro fala nas implicações desta situação: “morreu o antigo centro”, o que se traduziu em problemas de carácter social. Desse modo o edil barreirense apela para que: “o que aconteceu ao Barreiro Velho não aconteça ao actual centro do Barreiro”. As respostas para alterar a situação passam por “tomar as medidas que estão ao nosso alcance para que o centro se alargue, se consolide e não se desloque”. Manter o mercado no actual sítio, investindo na melhoria das suas condições, é uma das medidas a ser posta em prática, o que se pode traduzir “num elemento que dê vida ao Centro” de modo a transformar o centro da cidade num pólo de atracção com novas valências, que podem ser serviços do município, cafés, esplanadas e estacionamento em cave.
Novo espaço comercial – “não queremos que seja esse o centro”
Acerca da construção de um espaço comercial no Campo das Carvoarias, Carlos Humberto sustenta: “não queremos que seja esse o centro, porque não queremos matar o actual centro”. Uma das realidades que assombra o concelho, mas também o país, é o enfraquecimento do comércio tradicional, o chamado “comércio de rua”, uma situação que pode ser ainda intensificada com a construção de um novo espaço comercial, e é por isso que o autarca, consciente desse facto, insiste na necessidade de se alargar o centro, não ficando restringido àquela zona comercial.
“As questões das estratégias e políticas nacionais”
O autarca barreirense fez uma pequena análise à situação actual do Barreiro, fazendo referência ao aumento do desemprego no concelho, ao decréscimo populacional e ao crescente aumento da percentagem de cidadãos a trabalhar fora do concelho, ao que sublinhou: “Passou de um concelho fortemente industrializado para um concelho onde 60% da população trabalha no sector dos serviços”. Uma situação que, segundo Carlos Humberto, se deve a múltiplas razões, destacando: “as questões das estratégias e políticas nacionais”, como o encerramento de fábricas que acabam por ter como consequência “a natural diminuição da procura e afastamento da população”, sublinha.
Construção da “tal cidade de duas margens”
Para o futuro do Barreiro, o presidente da Câmara do Barreiro, considera essencial que o concelho se torne numa “centralidade, no conjunto das centralidades que é a Área Metropolitana de Lisboa”. E é nesse contexto que fala da construção da “tal cidade de duas margens”, um objectivo que, na sua opinião, se for concretizado irá representar: “um salto em termos de qualidade de vida”.
Aproveitar as frentes de rio, a margem do Coina e do Tejo e melhorar as acessibilidades no concelho e na região foram apontadas pelo autarca como medidas importantes a serem desenvolvidas. A dinamização do pólo ferroviário foi, por isso, também apresentada pelo presidente da Câmara do Barreiro como indispensável para o futuro do concelho, o que passa pela manutenção das antigas oficinas ferroviárias e também pelas futuras oficinas de apoio ao TGV.
Que a Quimiparque “se abrace à cidade”
A revitalização do território da Quimiparque, tido pelo autarca como “pólo de desenvolvimento económico” foi outra das medidas apontadas. Indústrias, novas tecnologias, comércio e serviço público são actividades que considera importantes de se localizarem nesse espaço, assim como equipamentos âncora para o desporto, cultura e lazer. Para que a Quimiparque “se abrace à cidade”, sublinha.
Trazer mais gente para o Barreiro
Na opinião de Carlos Humberto a construção da terceira travessia do Tejo vai “redimensionar a actividade económica e o emprego no Barreiro”. E acrescentou que o facto de se insistir na importância de comportar a componente rodoviária é uma estratégia regional e nacional de desenvolvimento: “Para potencializar a Península de Setúbal e o Concelho do Barreiro” e não “tanto na perspectiva de chegarmos mais depressa a Lisboa”, salienta.
Outros desejos anunciados foram “que o Metro Sul do Tejo chegue tão depressa quanto possível” e que a CRIPS (Circular Regional Interior da Península de Setúbal) que vai ligar o Anel de Coina a Almada seja concretizada “no actual quadro de referência estratégica”, considerou, de modo a que sejam aproveitados os fundos comunitários.
Centro – um espaço de encontro e privacidade
Planeamento, espaços urbanos, relações sociais, actividades económicas, ambiente e paisagem urbana eram temas a serem discutidos no debate em torno da importância do “Centro da Cidade”.
Para falar de planeamento e espaços urbanos estiveram presentes: o engenheiro Costa Lobo e o professor João Cabral.
O engenheiro Costa Lobo começou por utilizar uma designação diferente de centro, fazendo uso de “áreas centrais da cidade”, uma expressão que considera mais neutral. No seu entender, o principal motor a ter em conta na constituição do centro de uma cidade deve ser o encontro entre as pessoas. Apresentando a definição de cidade como “o lugar mais humanizado”, reforça a importância de se minimizarem os conflitos “de toda a ordem”. Por isso, o engenheiro considera que o centro deve ser um lugar de integração e não de segregação ou de exclusão social, alertando ainda para a necessidade de haver privacidade.
Num local onde se confluem as actividades do comércio, os locais de encontro, de recreio e habitações há todo um conjunto de funções que se misturam, e por isso o engenheiro Costa Lobo refere que para que a cidade “seja positiva” tem de oferecer: acessibilidade, segurança, oportunidades, dignificação do indivíduo, cultura e educação.
Dignificação do individuo
Costa Lobo entende que, para além dos transportes públicos e dos estacionamentos, que devem ser melhorados o mais possível, para que haja dignificação do indivíduo a cidade têm de ter passeios e espaços pedonais. Insiste por isso na importância de existirem condições para que os cidadãos se desloquem a pé: “Sou contra o carro mal utilizado”, refere. Quanto ao estacionamento, esse deve ser “o quanto mais possível periférico à área central”. A existência de largos ou de praças no centro é, na sua opinião, outro elemento importante, que não deve ser esquecido: “faz falta ao peão”, argumenta.
Espaços comerciais – “Houve sítios em que ajudou a recuperar o centro antigo”.
O antigo “Fórum Romano”, o principal centro comercial da Roma Imperial, tomou o nome de “shoping”nos dias de hoje e acerca deste local, Costa Lobo considera que se de início havia a ideia de que seria melhor se estivesse fora da cidade, hoje já não há tantas certezas quanto à localização ideal, por isso diz não existirem regras. “Houve sítios em que ajudou a recuperar o centro antigo”.
“Devemos saber o que mudar e como”
Para o engenheiro, a inovação e a criatividade são características que devem estar presentes na transformação de uma área: ”Devemos saber o que mudar e como”. E para o fazer tem de haver uma planificação complementar, o que implica planos e gestão, e nessa planificação diz propor a terceira solução, ou seja: “o que ninguém tinha pensado”. Uma ideia complementar diferente mas que acaba por satisfazer as partes.
“O Barreiro tem condições para ser optimizado”
João Cabral, professor da Universidade Técnica de Lisboa, considerou que: “O Barreiro tem condições para ser optimizado”. Centrando o seu discurso na ideia de revitalizar o centro, favorecendo o policentrismo, considerou que o centro tradicional, tido como o local de maior acessibilidade e um elemento de forte carga simbólica e patrimonial, foi-se alterando, “Perdendo o estatuto monopolista de centralidade única”. Essa mudança traduz-se, entre outros aspectos apontados pelo professor, no congestionamento e na obsolência do edificado. As novas centralidades que tendem a emergir têm de ser lugares com funções inovadoras, onde surjam novas oportunidades de emprego e lugares concordantes com a lógica do automóvel, “à escala da cidade alargada”. O professor João Cabral considera que a questão não passa por ”mudar só os hábitos”, há que assegurar essas mudanças. Para isso é preciso conceber modelos “para ter uma estratégia, o que implica também ter regras”, afirma.
O centro simbólico é uma mais-valia
Aberto o primeiro debate, o engenheiro Caro Proença questionou o significado da expressão Fórum usada nos dias de hoje, se se aproximava do Fórum dos Romanos ou da Ágora dos Gregos, o engenheiro Costa Lobo procurou esclarecer, referindo que é agora um conceito mais complexo: “tem braços que se infiltram por toda a cidade”, mas “sempre no mesmo espírito”. O professor João Cabral, por sua vez, quis reforçar a importância da definição de centralidade, considerando que o centro simbólico é uma mais-valia em termos de competitividade em relação aos outros centros mas também como fonte de coesão e de sintonia, “uma imagem que os cidadãos procuram”, rematou.
“A união faz a força”.
Eduardo Xavier, barreirense, interveio no debate, questionando como é que o concelho poderia lidar com as decisões do poder central, o engenheiro Costa Lobo prontificou-se a responder, referindo que apesar de a maior parte das decisões serem tomadas a nível central, para haver maior poder local tem de haver participação e para o justificar fez uso de uma expressão popular: “A união faz a força”. Argumentando ainda que essa participação deve ser esclarecida e não apenas dos cidadãos comuns ou do associativismo mas também das pessoas que integram o departamento do planeamento que “têm de saber dar a cara”.
“O Barreiro nasceu e cresceu do Mar, não foi da CUF”
A respeito da importância da ligação entre o concelho e o Rio Tejo, Caro Proença interveio, referindo: “O Barreiro nasceu e cresceu do Mar, não foi da CUF”, considerando essencial que se aproveite a margem direita do rio Coina e a frente ribeirinha do rio Tejo, acrescentando: “Foi através do Mar que Alfredo da Silva e seus herdeiros receberam as matérias-primas que transformaram”, realidade “que devemos equacionar”, rematou. O engenheiro Costa Lobo referiu que apesar de muitas vezes os planos urbanísticos não terem em conta a proximidade com o mar, devem inclui-lo, “seja do ponto de vista ecológico, de recreio ou de navegação”.
Abordagem integrada
Isabel Guerra, professora do ISCTE, foi convidada para falar nas relações sociais e actividades económicas, considerando que são duas áreas muito ligadas, ao que referiu: “Empreendedorismo é uma questão económica, social e cultural”. Seguindo esta ideia falou na necessidade da se fazer uma abordagem integrada e economicamente viável: “se pensarmos em cada uma das esferas em separado, os problemas são tais que parece não haver solução”, argumenta. Por isso considera que, na reflexão acerca dos centros históricos, todas as variáveis devem ser ponderadas, “tanto o lado social, como o económico”.
“Interesse comum: Que o centro histórico do Barreiro não esteja como está”
No caso do Barreiro, considerou que apesar de não existir tradição em Portugal de democracias participadas, e de isso constituir muitas vezes uma dificuldade para a construção de projectos integrados, se neste caso existe um interesse comum: “Que o centro histórico do Barreiro não esteja como está” então, acrescentou: “todos de mãos dadas para fazer uma regeneração”.
A formulação de uma estratégia
Acerca da necessidade de haver uma revitalização dos centros urbanos, considerou que as mudanças que têm ocorrido e que ocorrem nas sociedades “têm um forte impacto nos territórios locais”, nomeadamente o que diz respeito às dinâmicas demográficas e do emprego que afectam “em larga medida a capacidade de haver território atractivo”.
A formulação de uma estratégia é o caminho que lhe parece mais viável, referindo: “o que está em causa não é o que pensamos, é o pôr em mesa o que pensamos”.
“Não só a regeneração do espaço mas também do clima”
Segundo a reflexão de Isabel Guerra, no plano de reconstrução dos lugares, deve ter-se em conta três considerações: a imagem, o uso dos lugares e os interesses desses usos. Compreendendo a imagem como a identidade de um local, fazendo uso da expressão: “um clima social herdado pelo seu uso”. E esse clima que constitui uma identidade para os seus moradores, acrescenta: “ tem geralmente uma estrutura física que em larga medida é estruturada por esse clima”. Defende, por isso, na revitalização do centro histórico: “Não só a regeneração do espaço mas também do clima”.
Apologista do “mix dos espaços”, considera também importante que no centro se misturem as funções, não sendo só de comércio ou de serviços, mas também de habitação e culturais.
“Temos de voltar para os espaços construídos”
João Pintassilgo, na sua intervenção no debate, questionou se o PDM de 2001 terá promovido a dispersão habitacional, agravando a debilidade económica dos municípios e a dispersão populacional, realidade que Isabel Guerra considerou que “talvez acontecesse mesmo sem o PDM”, no caso específico do Barreiro “por ser um espaço tão pequeno”. Não deixou de referir que a maioria das famílias tende a encontrar espaço mais barato nas periferias. “O que aconteceu em toda a Europa”, argumenta. Uma urbanização extensiva muito em voga mas que pode ser contrariada: “Temos de voltar para os espaços construídos e melhorá-los e controlar um pouco a expansão das cidades”.
Andreia Lopes Gonçalves













