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Perspectivas

No Rotary Club do Barreiro – Patrícia Gaspar fala da missão no PeruA “primeira missão em situação real no terreno”

Ontem, no jantar de confraternização do Rotary Club Barreiro, Patrícia Gaspar, filha do presidente dos rotarios do Barreiro, Álvaro Gaspar, explanou a sua experiência enquanto Adjunta de Operação Nacional interveniente na missão de reconhecimento no Peru, após o sismo que ocorreu a 15 de Agosto de 2007, pelas 18h40 (hora local), com magnitude de 7.9 na escala de Richter.

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No Rotary Club do Barreiro – Patrícia Gaspar fala da missão no Peru A “primeira missão em situação real no terreno”

Por Jornal Rostos

A sua “primeira missão em situação real no terreno”, na qual a imagem pitoresca que tinha inicialmente do Peru “muito folclórica e cheia de cores”confundiu-se com uma outra, onde a pobreza predominava. E da Protecção Civil em Portugal sublinhou a importância da existência de uma maioria de Câmaras Municipais com Serviços Municipais de Protecção Civil.

“Garantir que estamos na linha da frente da recolha das informações mais úteis do terreno”

Licenciada em Ciências Políticas há cerca de doze anos, Patrícia Gaspar seguiu em Agosto passado naquela que diz ter sido a sua “primeira missão em situação real no terreno”, enquanto elemento de uma missão de reconhecimento e avaliação enviada pela Autoridade Nacional de Protecção Civil, da qual faz parte, para o Peru. Dessa participação portuguesa considera ser importante, no sentido de servir dois propósitos fundamentais: “garantir que estamos na linha da frente da recolha das informações mais úteis do terreno e, por outro lado, porque Portugal preside a partir do segundo semestre a União Europeia”.

Governo do Peru solicitou ajuda internacional perante a consciência da “situação que tinha em mãos”

Referiu que a 17 de Agosto, o Governo do Peru, perante a consciência da “situação que tinha em mãos”, optou por solicitar ajuda internacional à Comissão Europeia, tendo sido assim que se desencadeou o Mecanismo de Protecção Civil. Desse modo partiu uma equipa composta por quatro elementos, um perito em sismologia espanhol, da França e da Áustria dois elementos especialistas em Medicina de Catástrofe e de Portugal, Patrícia Gaspar, da Protecção Civil. Refere que foram dois elementos da urgência médica porque “dos primeiros relatos que nos chegaram havia a indicação que a parte médica era uma das maiores carências”, o que diz que depois não se veio a revelar, referindo que o sistema de saúde estava “quase todo a funcionar”, ao que acrescentou: “poucos centros de saúde e poucos hospitais tinham sido afectados ao ponto de não poderem dar resposta às carências”.

“Uma das coisas mais difíceis de perceber nestas intervenções fora do espaço da União Europeia é conseguir delinear o limite entre a protecção civil e a ajuda humanitária”

Mencionou que as áreas mais afectadas foram principalmente a capital, Lima, e as cidades costeiras do sul do país, Ica, Pisco e Chincha. E da missão disse que decorreu no terreno, “excluindo as viagens”, entre os dias 20 e 24 de Agosto e com o intuito de avaliar as necessidades provocadas pelo sismo e reportar a ajuda que seria necessária aos Estados Membros e nesse sentido comentou: “uma das coisas mais difíceis de perceber nestas intervenções fora do espaço da União Europeia é conseguir delinear o limite entre a protecção civil e a ajuda humanitária”, sublinhando que se a protecção civil deve intervir nas primeiras 72 horas, o que diz estar relacionado “com o socorro imediato às vítimas”, enquanto a ajuda humanitária se prolonga no tempo, mais relacionada com a ajuda com a alimentação e vacinas.

“Saindo da capital tudo o resto é uma miséria, as pessoas vivem à beira das estradas e em encostas áridas”

Da situação no terreno diz ter sido “muito complexa”, ao sublinhar que existia um número elevado de pessoas afectadas pelo sismo. Da imagem pitoresca que disse ter inicialmente do Peru, “muito folclórica e cheia de cores”, deparou-se com uma outra, onde a pobreza predominava, ao que exclamou: “saindo da capital tudo o resto é uma miséria, as pessoas vivem à beira das estradas e em encostas áridas” e prossegue referindo que são as populações mais pobres as mais afectadas pelas catástrofes. Deparou-se também com o atraso no envio da ajuda às pessoas fora da capital Lima, devido ao facto de os caminhos estarem bloqueados. Durante as 48 horas após o sismo, disse que também muitas das zonas tinham ficado sem comunicações “era o caos completo”, comentou.

Maiores necessidades ao nível de alojamentos temporários, agasalhos, água e comida

Durante os quinze dias a seguir ao sismo, conta que existiam replicas, o que assustava a população e levava a que muitas das pessoas, mesmo aquelas que tinham ficado com as suas habitações intactas, se deslocassem para a rua, onde se sentiam mais seguras, ao que comentou: “à porta do hospital havia literalmente um acampamento de tendas improvisadas”. Quanto às maiores necessidades que a equipa verificou no terreno, refere terem sido ao nível de alojamentos temporários, de agasalhos, referindo que o Peru em Agosto está na estação fria, com uma amplitude térmica que diz ser muito ampla e onde a humidade chegava aos 94 por cento: “nós andávamos na rua e não estava a chover mas ficávamos todos molhados,” sublinha. A água e comida eram outras necessidades prementes para a população.

Em Portugal “Temos uma malha geográfica relativamente aceitável”

Em jeito de balanço, falou nas falhas para a protecção Civil Peruana e nesse aspecto fez menção à existência de uma fraca cobertura geográfica da Protecção Civil e, comparando-a com a portuguesa, refere que embora “não sejamos o exemplo de perfeição desta área”, considera: “Temos uma malha geográfica relativamente aceitável”, sublinhando que em Portugal existe uma maioria de Câmaras Municipais com Serviços Municipais de Protecção Civil e comenta: “o que faz com que haja olhos e ouvidos logo no primeiro escalão, o município”, para além dos serviços distritais a esse nível e da Autoridade Nacional de Protecção Civil. No Peru, diz que nada disso acontece, dispondo apenas do Instituto Nacional de Defesa Civil (INDECI), ao que comenta: “que pouco ou nada tem espalhado no território” o que diz agravar-se ao se juntar a falta de comunicações, que provoca uma falta de informação da situação que se vivia no terreno e das zonas afectadas. E refere que nas primeiras 72 horas, a entidade governamental, responsável por tomar as decisões não conseguiu fazer nada “porque simplesmente não sabia o que se estava a passar”.

“Achámos que cumprimos aquilo que a União Europeia nos pediu”

Da missão fez um balanço positivo: “Achámos que cumprimos aquilo que a União Europeia nos pediu”, disse ter havido uma boa interacção entre os peritos, não deixando de falar em dois aspectos que considera não terem corrido pelo melhor e que aponta: o apoio logístico no terreno, ao que comenta: “vimo-nos gregos para arranjar um carro para nos mexer lá” e acrescenta “a falta de equipamento nosso pela urgência que houve na mobilização da missão”. A avaliação permitiu saber que não havia necessidade de haver uma intervenção de protecção, ao que sublinha: “e poupou-se algum tempo e alguns milhares de euros para mobilizar para o terreno ajuda, que na prática não iria fazer falta”.
Da aprendizagem da missão disse ser importante reter algumas questões, uma delas a necessidade de se ter informações no terreno, um sistema de comunicação alternativo e acesso às áreas afectadas, de modo a prestar socorro e assistência e evitar o que diz já se designar por “turismo de catástrofe”.

Na protecção civil os intervenientes “começam em nós, cidadãos, e acabam no primeiro-ministro”.

Na sala acabou por se questionar também o poder dos municípios nas questões da Protecção Civil, ao que o vereador João Soares, responsável pela área da Protecção Civil, referiu que existe uma pressão cada vez maior para que as autarquias criem mecanismos de auto-defesa em termos de segurança e fez referência, nesse sentido, à implementação do Plano Municipal de Defesa da Floresta Contra Incêndios, à actualização dos Planos Municipais de Emergência que está sujeito a sanções, caso não seja feita, ao Plano de Comunicações, o que diz que o Barreiro hoje também já dispõe. E a nível distrital diz que há um trabalho das câmaras de modo a que o Plano Distrital de Segurança avance, ao que comenta: “pressionado pelo governo que caso não avance os priva inclusivamente de alvarás”. Acrescentou ainda que: “podemos desenvolver planos mas falta-nos o resto”. Ao que Patrícia Gaspar sublinhou que na protecção civil os intervenientes “começam em nós, cidadãos, e acabam no primeiro-ministro”.

Andreia Lopes Gonçalves

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