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Perspectivas

Bloco de Esquerda“Trabalhar na CUF, viver no Barreiro: o encontro da Memória”
. Evocação da vida vivida no tempo da CUF

. A “sensação de que tudo começava e acabava ali”

Ontem, na SFAL, realizou-se mais um colóquio organizado pelo Bloco de Esquerda para assinalar o centenário da CUF, no qual o mote é “100 anos de Lutas, o outro lado da CUF”. Nesta terceira palestra, o tema foi a evocação da memória, ou como referiu Mário Durval, membro da Concelhia do Bloco de Esquerda: “a evocação das vivências pessoais, de famílias e pessoas que viveram estes anos ‘do outro lado’”, o lado dos trabalhadores.

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Bloco de Esquerda “Trabalhar na CUF, viver no Barreiro: o encontro da Memória” . Evocação da vida vivida no tempo da CUF

Por Jornal Rostos

“Com a industrialização no Barreiro, nasceu a cidade”

Ana Nunes de Almeida, investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, veio falar do estudo que realizou e que serviu de tese de Doutoramento em 1991 sobre as famílias operárias no Barreiro, tendo sido mais tarde editado pela Câmara Municipal do Barreiro. Referiu que o interesse que a levou a fazer tal trabalho resultou da vontade de estudar a família operária que, na sua opinião, não tinha ainda ocupado um lugar de grandeza num estudo sociológico e, para tal, debruou-se na complexidade que existia entre a fábrica, ao que chamou de “lugar de produção” e a família “lugar de reprodução de vida”. Com a instalação em 1861 das primeiras Oficinas de Caminhos de Ferro começou a surgir o crescimento industrial no território, ao que a socióloga comentou: “Com a industrialização no Barreiro, nasceu a cidade”. Tendo tido um crescimento exponencial, no seu entender: “à custa de milhares de emigrantes do sul do país e beirões”.

Classe operária do Barreiro – “uma base muito diversificada, maleável e com origens regionais diversificadas”

A socióloga mencionou que as características do “voto à esquerda, a tradição do laicismo e a relação com o partido comunista” distinguiam o território do Barreiro nesses tempos. Para elaborar o estudo disse ter entrevistado 150 operários e operárias anónimos “não necessariamente dirigentes políticos”, fez questão em focar, e disse ter estudado também os corticeiros dos anos 20, como exemplo de uma geração de operários, ao que considerou: “uma classe que aparecia sempre na defensiva, com receio do progresso industrial” e define a classe operária do Barreiro como “uma base muito diversificada, maleável e com origens regionais diversificadas”. Das operárias têxteis disse que o que mais a impressionou foi “o orgulho que essas mulheres tinham pelo seu trabalho” e também pelas relações de amizade e de solidariedade que se criavam nas oficinas. Dos operários que trabalhavam na área dos adubos e do enxofre referiu tratar-se de um mão-de-obra: “sazonal, desqualificada e que fazia os trabalhos mais ingratos”. Mencionou ainda que os trabalhadores metalúrgicos e os têxteis eram os partidários entusiastas do progresso industrial, ao que acrescentou: “consideravam-se gente de rebeldia e do contra”.

Alfredo da Silva – “Uma figura polémica e controversa que deixou marcas muito fortes na memória dos operários”

Dos operários dos anos 40, diz que “quase sem excepção eram filhos dos antigos trabalhadores”, sinónimo de uma política patronal que se baseava na fixação da mão-de-obra assente no modelo paternalista da figura de Alfredo da Silva que pretendia assumir a imagem de um grande patrão, que não residindo no Barreiro fazia visitas surpresa à fábrica “onde pretendia encetar um contacto directo com os seus operários”. E de Alfredo da Silva disse ser “uma figura polémica e controversa que deixou marcas muito fortes na memória dos operários” e que sinais dessa controvérsia estão patentes nas expressões utilizadas pelos operários, ao que citou algumas e que se, por um lado, o apelidavam de “pai do Barreiro”, outros refutavam:” figura ímpar de exploração, quem fez a CUF foram os trabalhadores”.

Forte resistência – “sociedades recreativas desempenhavam locais de contra-poder”

A política levada a cabo por Alfredo da Silva disse ser no âmbito de ligar fortemente a família à fábrica e que para a levar a cabo, para além da criação do Bairro dos Operários, procurou enquadrar os tempos de lazer. O que considera “não ter sido totalmente conseguido”, ao que falou de uma forte resistência, na qual “as activas sociedades recreativas desempenhavam locais de contra-poder”, sublinhou.

Estranha o facto de “não se construir um museu operário e de industria”

Da experiência que constituiu a elaboração do trabalho, Ana Nunes de Almeida disse ter sido “um universo industrial de contornos muito marcantes”, o que a leva a falar de uma experiência única. No entanto, estranha o facto de “não se construir um museu operário e de industria”, considerando que o Barreiro se transformou “numa área suburbana de Lisboa”.

Transmissão oral – torna possível “que nos contem a história dos outros tempos”

De um estudo passou-se para o discurso directo de quem viveu nesses tempos. A médica Isabel do Carmo quis antes de mais reforçar a importância da memória e da história de transmissão oral, o que torna possível “que nos contem a história dos outros tempos”, daqueles que muitas vezes não vêm registados nos livros, considera, o que a levou a comentar: “Eventos como este estão este momento a florescer e ainda bem!”.

“Capacidade vital” que existia de “reagir à repressão, ao trabalho e às dificuldades da vida”

Da sua experiência no Barreiro enquanto elemento da pequena burguesia nos anos 40 e 50, focou a “capacidade vital” que existia de “reagir à repressão, ao trabalho e às dificuldades da vida”. Falou de um episódio, no qual nos anos 20 houve um conjunto de jovens que sonhou com a constituição de um Museu, e que entre eles estava o seu pai, e se já estava prometida duas colecções oferecidas, uma delas por Abel Salazar, disse que o golpe militar do fascismo em 1928, que trouxe a “primeira câmara do regime”, impossibilitou a sua concretização: “perante essa fiscalização foi tudo para trás, não houve museu nem doação”, o que considera ter sido “uma perda terrível para uma terra”.

“E o resto eram os tais que com 13 anos trabalhavam e que era a grande maioria da juventude”

Das opções de ensino nesses tempos, falou no Liceu que se situava em Setúbal, o qual frequentou, que tinha ao todo 300 alunos de todo o distrito e que as outras opções na altura eram ingressar na Escola Industrial Alfredo da Silva ou no Instituto dos Ferroviários e comenta “e o resto eram os tais que com 13 anos trabalhavam e que era a grande maioria da juventude”

“Tem de ser responsabilizado pelo que foi, um patrão com grandes características mas usando a repressão”

Do papel de Alfredo da Silva, comenta: “Penso que houve um branqueamento” e sublinha: “a família CUF enriqueceu à custa dos trabalhadores e ainda hoje têm um enorme poder económico e financeiro”. Fez menção à repressão que existiu, ao que falou dos balões de despedimentos, de repressões às greves e de prisões. E comenta: “tudo isto existiu” e é esse facto que a leva a considerar: “Tem de ser responsabilizado pelo que foi, um patrão com grandes características mas usando a repressão” e acrescenta: “no Barreiro nunca se fez justiça a isto”. E considera que o medo que se gerou nessa época pelo uso da repressão à população que “não podia ter ideias” é uma herança que subsiste: “Ainda hoje estamos a pagar essa herança de um determinado ambiente de dominação e de repressão”.

“O Barreiro naquela altura era ateu e a CUF levou a conversões forçadas”

Outra característica que apontou da CUF foi o seu “lado católico”, o que na opinião da médica constituiu “uma violência que foi exercida sobre os trabalhadores”, na medida em que comenta: “o Barreiro naquela altura era ateu e a CUF levou a conversões forçadas”, conversões que conta que resultavam do facto de os trabalhadores só terem direito a uma casa nos bairros construídos pela CUF se casassem pela Igreja, e evoca a memória: “lembro-me de pessoas que iam para a Igreja a chorar”.

“Sem deixar de estar ligado à Igreja tive de alargar o âmbito dos meus contactos a gente que não tinha ligação com a Igreja”

Francisco Fanhais é músico e recorda os tempos em que veio para o Barreiro para exercer a função de sacerdócio, ao que comenta: “foram três anos fundamentais na minha vida”. Não esconde que quando soube que os caminhos o traziam ao Barreiro “sentiu um certo receio”. Ouvia falar que se vivia um ambiente diferente, um outro mundo, e quando chegou sentiu essa diferença: “Sem deixar de estar ligado à Igreja tive de alargar o âmbito dos meus contactos a gente que não tinha ligação com a Igreja”. E dessa “gente” diz ter encontrado pessoas muito interessantes, o que o fez questionar e perceber que o que queria “era um país diferente da ditadura e da guerra”.

“Devo muito aos três anos que vivi aqui e às pessoas que encontrei e que me ajudaram a tomar as decisões, das quais nunca me arrependerei”.

Começou a fazer uso da arte da música e das palavras no Barreiro e era convidado para cantar nas colectividades, o que constituía “uma certa raridade” para um padre naquela altura. Também como professor de Educação Moral parecia diferente dos outros: “nessas alturas era falar de tudo o que houvesse para falar e até de religião”, comenta. Falava da injustiça da guerra colonial, “assunto tabu” e em breve percebeu que a sua opção era de estar ao lado dos marginalizados socialmente e culturalmente. E a vontade de cantar acabou por lhe obrigar a fazer opções. Depois de ter conhecido José Afonso, um encontro que diz tê-lo marcado para toda a vida e de ter participado no programa televisivo “Zip-Zip” era cada vez mais solicitado para cantar, ao que comenta: “Passei a integrar o grupo que da viola, da voz e do poema fazia qualquer coisa para transformar as mentalidades”. O que na altura lhe custou a suspensão das funções de padre. E da passagem pelo Barreiro, comenta: “Devo muito aos três anos que vivi aqui e às pessoas que encontrei e que me ajudaram a tomar as decisões, das quais nunca me arrependerei”.

“Voz viva do que era nascer e viver no Barreiro no tempo da CUF”

Cristina Pereira foi apresentada por Mário Durval como a “voz viva do que era nascer e viver no Barreiro no tempo da CUF”. Ex-moradora do Bairro Operário, disse ser filha, neta e sobrinha de operários da CUF e prontificou-se a falar das sensações de viver nesse bairro, do qual disse ter a nítida sensação de pertença: “era um apêndice daquilo”, sustenta e onde comenta que as conversas que ali se viviam eram sobre a fábrica e que inclusivamente as crianças “brincavam por detrás da fábrica”. Um espaço que dominava a vivência das famílias: “Respirávamos aquilo”.

A “sensação de que tudo começava e acabava ali”

A mãe era trabalhadora têxtil e fez alusão ao momento de grande reboliço no bairro, a saída dos trabalhadores da fábrica, recordando-se de ver a mãe a ser revistada pelos fiscais e depois de a interrogar do porque de tal acto, ao que a mãe respondia que era pelo receio de que alguém roubasse alguma coisa, e ao que voltava a inquirir: “E o que há lá para roubar?”. “Fios e sacos”, retorquia a mãe. E do bairro dizia ter a “sensação de que tudo começava e acabava ali”, como se fosse o centro do mundo. Um mundo que lhe parecia nebuloso, escuro e velho e no qual fala da existência de uma sirene “que marcava os compassos das nossas rotinas”.

Andreia Lopes Gonçalves

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