Bloco de Esquerda – MoitaÉ essencial que a memória não se apague
Álvaro Monteiro, ex-dirigente do MDP/CDE do Barreiro, e Deputado deste partido na Assembleia Constituinte, recordou que naquela sala – do Ginásio – “há 39 anos fez-se um dos maiores comícios da CDE, com mais de 3500 pessoas”.

Por Jornal Rostos
No GAC – Ginásio Atlético Clube da Baixa da Banheira, no concelho da Moita, ontem, realizou-se mais um dos colóquios, promovido pelo Bloco de Esquerda, no âmbito da iniciativa "100 anos de lutas. O outro lado da CUF".
Esta iniciativa foi promovida no contexto das comemorações do centenário da presença da CUF no Barreiro, teve como tema : "A CUF E A REVOLUÇÃO DE ABRIL" .
A realização do Colóquio, no dia 18 de Janeiro, como referiu Mariana Aiveca, “não foi uma coincidência”, porque a iniciativa teve igualmente, como objectivo assinalar “mais um aniversário da Greve Geral Insurrecional do 18 de Janeiro de 1934.”
Aliás Mariana Aiveca, deputada do Bloco de Esquerda, eleita pelo distrito de Setúbal, sublinhou, igualmente, que também não foi coincidência o facto desta iniciativa ser realizada na Baixa da Banheira e no Ginásio Atlético Clube, porque aquela associação está intimamente ligada às memórias da resistência e da luta antifascista.
Ginásio uma escola de cidadania, um espaço de liberdade
A abrir esta iniciativa do Bloco de Esquerda, registou-se um momento musical, com a participação do Grupo Musical Vozes da Planície que proporcionou um reencontro com os cantares do Alentejo
João Madeira, historiador, recordou que o “Ginásio mais que uma escola formal, foi uma escola de cidadania, um espaço de liberdade”.
Na sua intervenção, evocou diversos episódios que marcaram o dia 18 de Janeiro de 1934, no Barreiro, Marinha Grande, Lisboa, Silves e Vila Real de Santo António, acções que visavam sabotar centrais telefónicas, ocupar edifícios públicos, corte de vias férreas, de forma a que a “Greve Geral” se “adquirisse uma dimensão insurrecional.”
Jornada de heroísmo dos trabalhadores portugueses
João Madeira, salientou que este movimento de 18 de Janeiro de 1934, “foi um movimento revolucionário de raiz operária”, que visava “o derrube do regime”.
Sublinhou que a repressão que se abateu sobre os revolucionários, um pouco por todo o país, originou mais de 700 prisões, 32 das quais ocorreram no Barreiro, com a posterior transferência dos revolucionários, anarquistas e comunistas, para as prisões do Tarrafal.
João Madeira, salientou que é essencial que “a memória não se apague” que não se queira dar a ideia que “o fascismo não existiu”.
Na sua intervenção, referiu que evocar a data de 18 de Janeiro de 1934 é recordar que este dia foi “uma jornada de coragem, de independência e de heroísmo dos trabalhadores portugueses”.
Memórias do Ginásio em 1969
Álvaro Monteiro, ex-dirigente do MDP/CDE do Barreiro, e Deputado deste partido na Assembleia Constituinte, recordou que naquela sala – do Ginásio – “há 39 anos fez-se um dos maiores comícios da CDE, com mais de 3500 pessoas”.
Recordou que no palco estava um membro da GNR e que os candidatos da CDE estavam proibidos de falar na censura, na Guerra Colonial ou da PIDE.
A sala, recordou, “estava repleta, todos em pé”, referindo Álvaro Monteiro: “Perguntei : “Acha que se deve falar da Guerra Colonial? A resposta foi fala, fala…”
CDE era um movimento de massas e de base
Álvaro Monteiro referiu os movimentos que se opunham ao regime fascista, sublinhando as características especificas da CDE, que nascia da base, num movimento que se alastrou por todo o país – “Não havia donos do movimento. Existiam representantes do Movimento, eleitos na base”.
“Era um movimento de massas e de base” – sublinhou Álvaro Monteiro.
Recordou que a CDE defendia que “a democracia só era possível após o derrube do fascismo”, mas que existiam outros movimentos de oposição que pensavam o contrário, referindo a CEUD, liderada por Mário Soares.
CDE venceu as eleições no Barreiro
Álvaro Monteiro, recordou que nas eleições de 1969, a CDE venceu as eleições no Barreiro com 61% dos votos, venceu igualmente na Baixa da Banheira e em Alhos Vedros.
Na sua intervenção recordou os acontecimentos de Maio de 1970, com manifestações na Baixa da Banheira e Barreiro, lendo um relatório de um “denunciante” da PIDE, infiltrado na CDE.
Nesta manifestação participaram, segundo o Relatório da PIDE, mais de 5000 pessoas.
A manifestação foi reprimida pela GNR, com os seus esquadrões a cavalo do Barreiro e reforços vindos de Évora.
O Distrito de Setúbal foi massacrado
Recordou que, após as eleições de 1969, a CDE pretendeu continuar a sua actividade, sendo, para tal, criado o MOD – Movimento de Oposição Democrática, sobre o qual foi exercida uma forte repressão.
“O distrito de Setúbal era muito politizado. A população tinha muita força, energia e capacidade reivindicativa” – recordou Álvaro Monteiro.
Álvaro Monteiro, na sua intervenção deu relevo às intensas ligações entre os monopólios, a CUF e o regime politico – “o poder económico e o poder politico eram indissociáveis.”
Na sua opinião, o regime quis sempre “castigar o Distrito de Setúbal”, e, salientou que, após o 25 de Abril, “o Distrito de Setúbal foi massacrado”, porque, disse, “ continuou a ser reivindicativo”.
Situações semelhantes às que existiam em 1969
Na sua intervenção Álvaro Monteiro, recordou que o Congresso da Oposição Democrática, realizou-se em Aveiro, em Abril de 1973, no qual participaram militares, e, um ano depois, aconteceu o 25 de Abril.
A finalizar a sua intervenção Álvaro Monteiro, referiu que na situação actual em Portugal, “há situações semelhantes às que existiam em 1969 e em 1973”.
“Há situações que não são muito diferentes das que existiam antes do 25 de Abril” – salientou, dando relevo à subordinação do Poder Político ao Poder Económico.
“Se nós fomos capazes de fazer isto…”
Luis Morgado, salientou que a maior organização de intervenção social actualmente no nosso país é a CGTP- Intersindical Nacional, que é fruto de “uma vivência unitária”.
Recordou que quando se fizer, um dia a história do Tratado de Lisboa, não será ignorado a grande manifestação que decorreu no dia 18 de Outubro, em Lisboa.
Luis Morgado recordou as condições de vida dos trabalhadores antes do 25 de Abril, que contribuíram para “fazer uma cultura”.
Recordou que os trabalhadores lutaram para ter “horas de trabalho” e “ horas de lazer”, acrescentando que, nos dias de hoje – “isso está a ser posto em causa”.
Na sua intervenção, recordou as lutas dos operários, os frutos alcançados com essas lutas, e, neste contexto perguntou : “Se nós fomos capazes de fazer isto…porque estamos nesta situação?”
“Na procura de uma vida melhor…”
Mariana Aiveca, deputada do Bloco de Esquerda, eleita pelo Distrito de Setúbal, recordou que um dia, no ano de 1957, veio viver para a Baixa da Banheira, como vinham muitos do Alentejo – “na procura de uma vida melhor”.
Recordou a vida dos páteos na Baixa da Banheira, as lutas na Escola Alfredo da Silva, e recordou que foi, no Ginásio que um dia – “Ouvi falar pela primeira vez em fascismo e ouvi falar em Guerra Colonial”.
Mariana Aiveca recordou as lutas, as greves, as bandeiras vermelhas das lutas operárias, muitas memórias que conduziram ao 25 de Abril.
“Já fizemos tantas coisas” – sublinhou a deputada do Bloco de Esquerda, deixando para que não se esqueçam as lutas do passado e uma palavra de esperança no futuro.
Recordar António Coelho
Joaquim Raminhos, Vereador do Bloco de Esquerda na Câmara Municipal da Moita, recordou António Coelho, “grande dirigente desta casa” e salientou que a história da “Escola do Ginásio ainda está por fazer”.
Staline, primeiro presidente da Câmara Municipal da Moita, após 25 de Abril, na Comissão Administrativa, recordou os tempos de “poder local”, o movimento das Comissões de Moradores, que deram um importante contributo para transformar e melhorar a vida no concelho da Moita.
“Encontrei uma divida de 45 mil contos e deixei a Câmara com uma divida de 28 mil contos, e muita obra feita” – sublinhou.
Seguiu-se um período de debate e reflexão tendo como temática central – “ A CUF e Revolução de Abril”.
Participação do Grupo Musical Vozes da Planície













