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Perspectivas

Colóquio “Depois da C.U.F, que Barreiro?”Cidade do Futuro assente em 3 linhas: o Mar, a história e as pessoas

Ontem à noite realizou-se, no auditório da Biblioteca Municipal do Barreiro, o último dos Colóquios promovidos pelo Bloco de Esquerda, no âmbito das Comemorações do Centenário da C.U.F, sob o mote: “100 anos de Lutas. O Outro Lado da C.U.F”. Um ciclo de cinco conversas que levantou ontem a pergunta: “Depois da C.U.F, que Barreiro?”. Um Barreiro próximo do rio, que não deixe de parte a sua história, mas que também saiba ir em direcção ao futuro e que cultive os seus heróis foram alguns dos caminhos apontados.

A actuação do Grupo Caya, música cabo-verdiana, iniciou o Colóquio que teve como convidados: o arquitecto paisagista Luís Rodrigues, Madalena Alves Pereira, advogada e deputada municipal do partido socialista no Barreiro, Mário Durval, delegado de Saúde Pública do Barreiro e o director do “Rostos”, António Sousa Pereira.

11 min de leitura
Colóquio “Depois da C.U.F, que Barreiro?” Cidade do Futuro assente em 3 linhas: o Mar, a história e as pessoas

Por Jornal Rostos

“A estrutura fabril pesada não mais se coaduna com a vivência actual”

A iniciar a conversa, o arquitecto paisagista Luís Rodrigues começou por sublinhar que: “a estrutura fabril pesada não mais se coaduna com a vivência actual” do Barreiro, chamando a atenção para a necessidade de requalificação desse espaço, que foi a antiga C.U.F e que é agora a Quimiparque. Para essa requalificação lançou algumas ideias que considerou que poderiam ser adoptadas. Ideias que diz que vingaram noutros municípios, fazendo menção à ideia de Cidade do Cinema, ao Pólo de Museus, à ideia de Cidades Empresariais, de Cidades Verdes ou de Cidades Portuárias e também de Espaços de Diversão e de Centros de Investigação.

Monumento ao Operário Barreirense – “mais uma oportunidade que ficou na gaveta”

Não deixou de fazer menção a uma proposta que diz que foi sugerida em 2006, por um movimento barreirense, do qual faz parte, e que passava pela construção de um “Monumento ao Operário Barreirense”, no sentido de o homenagear, “mais uma oportunidade que ficou na gaveta”, lamentou.
Na implantação de medidas para a requalificação da Quimiparque, onde sublinha a importância de o “Barreiro olhar para as zonas portuárias como locais de dinamização económica” e de aproveitar a “sua herança industrial e tecnológica”, através do know-how e da mão-de-obra qualificada, considerou: “Sem auto-estima, exigência própria ou capacidade de liderança, muito dificilmente se conseguirá implantar algo que seja inovador e estimulante para o Barreiro.”

Uma viagem mental aos “montes de gesso”, no Lavradio

Uma viagem mental aos chamados “montes de gesso”, no Lavradio, foi a sugestão do director do “Rostos”, António Sousa Pereira, para recordar o tempo de há mais de 30 anos atrás, em que lembrou: “convivíamos com o rio diariamente”. Um tempo que diz que foi alterado quando “começaram a nascer ali as fábricas e as fábricas separaram-nos do rio”, através das cinzas de pirite que se amontoaram e “fizeram uma espécie de Muro de Berlim”, enfatizou. E levado pela viagem que chegou ao presente, lembrou: “agora está lá a nascer a ETAR, que nos vai proporcionar o acesso ao rio.” O que diz ser o caminho do futuro do Barreiro.

Uma memória marcada pela Fábrica, cultura do ‘Nós’ e “o pensar sempre a duas cores”

Dessa memória e cultura do Barreiro, sublinhou o facto de ter sido marcada pela Fábrica e referiu que se foi criando uma identidade do Barreiro que diz assentar em duas palavras: “solidariedade e liberdade.” E nessa identidade fez menção às colectividades “espaços de integração daqueles que vão chegando”, e ao facto de o Barreiro ter sido “uma terra que sempre quis a liberdade como uma bandeira, antes e depois do 25 de Abril.” Mas nessa identidade que se criou, sublinha ainda o facto de “ter sido forjada a cultura do ‘Nós’” e de, nessa cultura, se “fez submergir muito a cultura do ‘Eu’” e, nesse sentido, considerou: “falta cultivar os nossos heróis”, numa cidade que diz ser “sempre uma cidade de actores.” A visão a preto e branco, de extremos, diz também ter sido muito vivida no Barreiro, “o pensar sempre a duas cores”.

Pensar “na cultura empenhada, de cidadãos e de forças políticas que, nas suas diferenças, têm vontade de fazer Barreiro”

Nos tempos actuais, António Sousa Pereira considera que o Barreiro vive “na crise de identidade” e que é nesta altura que se deve pensar: “Que Barreiro queremos?”. Chama a atenção para o que diz ter sido um “erro histórico”, pois considera que não houve a percepção na altura da passagem “desta cidade que foi operária” para a de serviços, nos anos 80, da “necessidade de renovação da Quimiparque.” Após a C.U.F o que considera que tem de se pensar é “na cultura empenhada, de cidadãos e de forças políticas que, nas suas diferenças, têm vontade de fazer Barreiro”. E nesse futuro fala na necessidade de se fazer a “estratégia de Cidade, para além da Quimiparque”. Uma “cidade cosmopolita, simultaneamente uma aldeia maravilhosa”, comentou

No desafio do futuro também está presente “preservar o passado”

Madalena Alves Pereira, advogada e deputada Municipal do Partido Socialista no Barreiro, diz fazer “parte da última geração que viveu a fábrica através da sirene”, contando que quando ouvia a sirene, sabia que tinha de ir para a escola. Começou por falar nas duas matrizes que diz terem predominado no Barreiro: a C.U.F e o rio. Uma cidade que diz ter nascido em torno da Fabrica, com a “característica de acolher”, limitada pelo rio, pela fábrica e pelos caminhos-de-ferro. Num debate que visa reflectir não só o passado mas também os desafios do futuro, disse que, nesse desafio, também está presente “preservar o passado”, fazendo menção ao Bairro Operário, ao Mausoléu Alfredo da Silva, ao Museu da Indústria “que ainda continua dentro de muros e tão pouco acessível a todos nós”, comentou e chamou a atenção para a “necessidade de se valorizar o que é nosso”.

“Continuamos imbuídos de uma certa cultura de reacção”

Considerando que no Barreiro “continuamos imbuídos de uma certa cultura de reacção”, em vez do “agir”, defende: “ a consciência de que há um tempo que acabou e outro que se inicia”. E nessa consciência, advoga: “Hoje, acho que todas as forças políticas têm uma consciência muito clara de que esse modelo tem de evoluir, com uma outra preocupação e estratégia”, o que entende tomar forma também na ideia da necessidade de “devolver o rio à cidade.”

“Inserção de políticas sociais ao nível da cidade envolvendo entidades públicas e privadas”

Falou ainda nas acessibilidades que entende: “serem muito boas, mas ainda não são suficientes para nos tornarmos atractivos, em termos de fixação de população”. A excessiva semaforização da cidade é outra questão que levanta e que diz “impedir de circular com alguma fluidez” e, apesar de considerar que: “O Polis já permitiu abrir a cidade”, considera que ainda há muito a fazer. “Pensar a Cidade como um espaço de vivência social, com problemas que herdámos de há muitos anos” é também outra questão que aponta, sublinhando a necessidade de se resolverem os problemas sociais, ao que adverte: “sem isso, não vamos conseguir desenvolvimento” e, nesse sentido, fala na “inserção de políticas sociais, ao nível da cidade, envolvendo entidades públicas e privadas”.

Se teremos ou não a Ponte?” – um desafio que “condicionará o desenvolvimento e a identidade futura” do Barreiro

Não deixou também de fazer menção à terceira travessia do Tejo, considerando que a dúvida que paira no Barreiro: “Se teremos ou não a Ponte?”, é um desafio que “condicionará o desenvolvimento e a identidade futura” do concelho. Chamando a atenção para o facto de a ponte “trazer muitos mais investimentos”, ao que fez menção à proximidade com os centros de decisão, à ferrovia, “um elemento muito caro a todos os Barreirenses”, comenta ao que acrescenta: “se não existissem caminhos-de-ferro no Barreiro, nunca teria Alfredo da Silva tomado a decisão de adquirir terrenos e de instalar aqui as suas fábricas” e é por isso que considera: “É como se agora a história se repetisse um pouco”.

C.U.F – “um marco na vida” do Barreiro

Mário Durval, delegado de Saúde Pública do Barreiro e dirigente da Concelhia do Bloco de Esquerda do Barreiro, sublinhou o facto de a C.U.F ter sido “um marco na vida” do Barreiro que “moldou o seu dia-a-dia, cultura e economia”. Da vinda da C.U.F sublinhou a “criação de uma massa crítica de técnicos superiores que se destacaram em cargos públicos no antes e depois do 25 de Abril” e da vida associativa que se gerou.
Entende ainda que a “C.U.F e o comboio entalaram o Barreiro e criaram constrangimentos que ainda hoje não estão resolvidos” e considera que tem de ser analisado “o que restou de positivo e o que foi a herança negativa”.

Cidade do Futuro assente em 3 linhas: o Mar, a história e as pessoas

Das Comemorações promovidas pelo Bloco de Esquerda, sob o lema: “100 anos de Lutas. O Outro Lado da C.U.F”, considera que podem ser “um ponto de partida para uma investigação histórica que equacione o papel da C.U.F nas diferentes épocas no Barreiro”. E na cidade do futuro fala de três linhas orientadoras: o Mar, a história e as pessoas. Sublinha a importância da posição do Barreiro, enquanto centro geográfico da Área Metropolitana de Lisboa (AML) e a sua ligação ao rio, o que comenta: “que permite desenvolver actividade portuária, comercial e de recreio”, assim como fala de actividades ligadas às ciências do mar. Do ponto de vista urbanístico, adverte para a importância de “se abrir a frente ribeirinha a todos os cidadãos”. O reforço da cidadania e da solidariedade é também outra linha de força que aponta para o Barreiro do futuro e em que defende a existência de um Monumento aos Trabalhadores da Indústria.

Contexto histórico da C.U.F

No debate que se seguiu sobre o futuro do Barreiro, houve quem chamasse a atenção para o facto de, na construção da cidade de duas margens, se ter em conta as diferenças das duas cidades, Barreiro e Lisboa, de modo a que o Barreiro se possa integrar nesse conceito. A necessidade de a identidade do Barreiro se espelhar nas diferentes expressões e culturas diferentes também foi levantada, assim como os perigos do aparecimento de uma pressão urbanística nos terrenos da Quimiparque. Quanto a respeito da C.U.F, houve quem alertasse para o facto de ao se falar da fábrica, ter-se em conta o seu contexto histórico.

O Outro Lado da C.U.F – “O das lutas, do trabalho e da intervenção social”

Também presente no debate, o deputado bloquista Fernando Rosas falou do programa promovido pelo Bloco de Esquerda, para assinalar o centenário da C.U.F, ao que justificou que o que pretendiam era: “fazer um debate que tivesse como linha de orientação: a recusa de que ‘o Barreiro é obra do Alfredo da Silva e da sua família e da enorme generosidade para com a população do Barreiro’”, ao que comentou: “que também parece ser o ponto de vista da Câmara Municipal”. Um ponto de vista que diz não concordar e que justiçou assinalar “o outro lado da C.U.F.” que diz ser: “o das lutas, do trabalho e da intervenção social”. E comenta: “A C.U.F foi um grupo monopolista que viveu à sombra do Estado Fascista”, focando a inexistência do direito de greve e de liberdade sindical, assim como a existência de repressão e, apesar de reconhecer que a C.U.F “deu regalias e concedeu possibilidades diferentes, positivamente, a muitas outras no país”, adverte: “beneficiando dos privilégios que teve do Estado fascista.”

Fernando Rosas lembrou ainda que a dia 12 de Abril vai ser realizado um concerto n” “Os Franceses” com o objectivo de “tentar dar expressão musical ao que foram as várias tradições musicais do Barreiro”, o que diz passar pelos cantares alentejanos, pelas músicas do compositor Lopes-Graça, pelo Fado Operário e pelo Hip-hop. Um evento que é “uma festa representativa e culminante da filosofia destes debates”, rematou.

Andreia Catarina Lopes

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