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Perspectivas

PCP Barreiro - Debate “Conquistas e Resistências”“Exemplo de coragem, determinação e solidariedade que milhares de trabalhadores deixaram”

“Hoje, no século XXI, apesar da necessidade da defesa de postos de trabalho, temos também a obrigação de defender o ambiente”

“As empresas do futuro terão de saber, que valorizar o trabalho é apostar na qualidade do emprego”

No sábado passado, dia 17 de Maio, realizou-se, na “Sociedade Cultura e Recreio 1º de Agosto Paivense”, um debate intitulado: “Conquistas e Resistências”, uma iniciativa integrada no programa de comemorações dos 100 Anos de Luta e Resistência na C.U.F-Barreiro, levada a cabo pela Comissão Concelhia do Barreiro do Partido Comunista Português.

Num debate em que falou dos acontecimentos na CUF depois do 25 de Abril de 1974, desde o seu processo de nacionalização, passagem a QUIMIGAL-EP e das consequências que daí provieram, Jorge Pires, membro da Comissão Política do Comité Central do PCP, considerou que a melhor forma de assinalar esse centenário seria: “passando para as novas gerações de trabalhadores, o exemplo de coragem, determinação e solidariedade que milhares de trabalhadores deixaram”.

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PCP Barreiro - Debate “Conquistas e Resistências” “Exemplo de coragem, determinação e solidariedade que milhares de trabalhadores deixaram”

Por Jornal Rostos

Na mesa estiveram presentes: Jorge Pires, membro da Comissão Política do
Comité Central do PCP; João Almeida e Mendes Ferreira, ambos membros dos Órgãos Executivos do PCP Barreiro; Hélder Loução, dirigente do Sindicato dos Químicos e também membro dos Órgão Executivos do PCP Barreiro e António Marques, membro do Sindicato dos Têxteis e também dos Órgão Executivo do PCP Barreiro.

Pós-25 de Abril – “uma luta sem tréguas pela defesa da empresa e dos trabalhadores”

Com o objectivo de “discutir os acontecimentos na CUF depois do 25 de Abril de 1974”, Jorge Pires iniciou as hostes do debate fazendo uso da sua vivência como trabalhador da empresa e também como organizador do Partido Comunista Português (PCP). Do pós-25 de Abril na CUF, começou por sublinhar que se tratou de um “período muito difícil”, em que predominou “uma luta sem tréguas pela defesa da empresa e dos trabalhadores”. Anos que considera terem “proporcionado avanços extraordinários na formação da nossa consciência social e política, mas, também, enquanto homens e mulheres, assumimos a responsabilidade de passar para as gerações vindouras uma vida liberta da exploração do homem pelo homem”, pela defesa de uma sociedade que diz ser “mais justa e mais fraterna”.

Importância de se terem alcançado importantes direitos

As condições políticas, sociais e económicas que caracterizaram o pós-25 de Abril, as lutas, a resistência e conquista dos trabalhadores na CUF foram alguns dos pontos que focou, sublinhando ainda o que entende ter sido o “papel insubstituível do PCP e da sua organização na empresa” nessas mesmas lutas. Dos acontecimentos que se seguiram aos 25 de Abril, sublinhou a importância de se terem alcançado importantes direitos, ao que fez menção à introdução do salário mínimo nacional e subsídios sociais, sem deixar de focar o que entende ter sido “uma importante conquista”, o controlo operário, o que diz ter permitido “avançar para a substituição dos gestores e saneamento das pessoas identificadas com a ditadura”, considerando-o “um instrumento de luta para a defesa dos postos de trabalho e como parte integrante da luta dos trabalhadores na destruição do sistema capitalista”.

Defesa da nacionalização da CUF

Jorge Pires lembrou que a 16 de Fevereiro de 75, “num plenário onde estiveram mais de dois mil trabalhadores foi aprovado uma moção”, onde sublinha que se defendia a curto prazo a completa nacionalização da CUF. Necessidade que diz vir ao encontro da situação em que a CUF se encontrava: “A Revolução de Abril tinha encontrado a empresa descapitalizada, com transferência de importantes recursos para a especulação financeira e que se mascarava de resultados negativos” e que acrescenta: “uma empresa onde não eram feitos, há muitos anos, os investimentos necessários na modernização da actividade industrial”. Nesse seguimento, destacou o que entende ter sido nessa altura a “intervenção determinada e a elevada consciência de classe e política dos trabalhadores da empresa”, o que diz ter sido importante não apenas na melhoria dos salários e condições de trabalho, como para “a decisão tomada pelo Governo em Agosto de 75 em nacionalizar a CUF”.

Criação da QUIMIGAL em 77

Na defesa da “implementação do regime democrático” que diz que não passava apenas pela “destruição da estrutura política do fascismo” mas também pela “substituição da estrutura económica”, nesse contexto, sublinha a postura dos trabalhadores e do PCP na exigência de um novo “ordenamento da produção do sector”, o que culmina em 77 com a criação da QUIMIGAL, Empresa Pública do Sector Empresarial do Estado, através da fusão entre as empresas: CUF, Nitratos de Portugal e o Amoníaco Português. Destaca assim a defesa dos trabalhadores pelo desenvolvimento da indústria nacionalizada “enquanto decisão estratégia na dinamização da economia, através do reforço da consolidação da independência nacional” e, nesse sentido, sublinha o “importante contributo” que os trabalhadores da CUF “deram para a defesa da produção nacional”, também pelo “apoio a uma das mais importantes conquistas de Abril, a Reforma Agrária”.

Anos 80 - QUIMIGAL foi “alvo de um “processo de boicote da sua actividade”

Nos anos 80, Jorge Pires considera que a QUIMIGAL foi “alvo de um “processo de boicote da sua actividade, de um processo de capitalização, sendo mesmo forçada a recorrer a empréstimos ao estrangeiro”, acrescentando que alguns investimentos feitos “viram a sua actividade boicotada”. E referindo que nessa altura “os trabalhadores viam que o grande interesse era a desagregação da empresa”, nesse sentido, sublinha o papel que desempenharam através de greves, manifestações de rua e acções de solidariedade para com outros trabalhadores e população, destacado “pela sua dimensão e espectacularidade”, a jornada realizada a 29 de Dezembro de 1983.

”O partido teve e tem um papel insubstituível na organização e na luta dos trabalhadores”
Ao rebuscar as memórias, Jorge Pires considera que “valeu a pena a luta, apesar da destruição da empresa e dos postos de trabalho”. Considerando que desde 1921 a vida da empresa e do PCP “cruzaram-se em muitos momentos, naquele que foi um dos palcos onde o confronto entre as classes antagónicas teve maior destaque no nosso país ”, sublinhou: ”o partido teve e tem um papel insubstituível na organização e na luta dos trabalhadores”, ao que referiu que o PCP se transformou após o 25 de Abril “de uma forte organização clandestina, numa grande organização de massas”, referindo que os seus militantes na CUF do Barreiro chegaram ”na década de 80 aos 1700”. Sublinhou a importância do Partido na defesa dos direitos e melhores condições de trabalho, assim como “no combate pela nacionalização da empresa e na luta contra a sua privatização, desmembramento e defesa dos postos de trabalho”.

“Passar para as novas gerações de trabalhadores o exemplo de coragem, determinação e solidariedade que milhares de trabalhadores deixaram”

Hoje, num contexto em que entende que o “capitalismo atravessa uma crise geral e está irremediavelmente condenado a desaparecer”, considera que a melhor forma de assinalar o centenário da CUF é: “passando para as novas gerações de trabalhadores o exemplo de coragem, determinação e solidariedade que milhares de trabalhadores deixaram” e acrescenta: “Que o seu exemplo perdure no tempo e que contribua para a constituição da luta que vai continuar até que os trabalhadores construam a sociedade livre da exploração e dos exploradores”.

Sindicatos - “um papel importante para que a revolução se concretizasse”

António Marques, membro do Sindicato dos Têxteis e também dos Órgão Executivo do PCP Barreiro, falou da importância dos Sindicatos, que no seu entender, desempenharam “um papel importante para que a revolução se concretizasse”. Do Sindicato dos Têxteis, sublinhou a “luta e solidariedade com os outros trabalhadores da área sul do país”. Lembrou a integração no Sindicato de Lisboa em 1975, o que considera ter sido “um marco importante”, ao que acrescentou: “os operários da CUF levaram uma linha sindical operária e de classe”. Recordou a ocupação “dos têxteis no Porto durante onze dias” pela conquista do 13 mês. E não deixou de fazer menção ao que entende ter sido um marco histórico através da verticalização contratual conseguida no acordo com a QUIMIGAL, falando assim do que diz terem sido “direitos que não tínhamos e passamos a ter”.

Privatização da QUIMIGAL - “Não foi desenvolvido para o concelho do Barreiro políticas alternativas de investimento à criação de emprego”

Hélder Loução, dirigente do Sindicato dos Químicos e também membro dos Órgão Executivos do PCP Barreiro, considerou que a privatização da QUIMIGAL trouxe consequências “para os trabalhadores e para a economia do concelho do Barreiro e mesmo para a economia do país que não foram e não são benéficas”. Apontando como resultados dessa transferência para o sector privado, a “destruição do aparelho produtivo no sector da indústria”, o aumento dos despedimentos e desemprego e critica: “não foi desenvolvido para o concelho do Barreiro políticas alternativas de investimento à criação de emprego”. Entende, por isso, que a privatização não foi o melhor caminho a seguir e critica: “a política de privatizações vêm dar favorecimento aos grupos económicos, neste caso, ao grupo Mello”.

“Por detrás deste desenvolvimento de acção da comunidade, estava o PCP”

Mendes Ferreira, também membro do Órgão Executivo da Comissão Concelhia do PCP Barreiro, falou na importância da influência do Partido Comunista Português nas lutas pelos direitos dos trabalhadores, realçando que “por detrás deste desenvolvimento de acção da comunidade, estava o PCP”. Sublinhou que após o 25 de Abril, o PCP teve necessidade de se organizar e que daí resultou a formação da “célula da QUIMIGAL no seu todo”, referindo que funcionava como uma “rede de interligação de trabalho na gestão da empresa e dos trabalhadores” e que constituía “um meio e uma escola de formação ideológica”.

“Hoje, no século XXI, que apesar da necessidade da defesa de postos de trabalho, temos também a obrigação de defender o ambiente”

Para falar do Barreiro do futuro, Ercília Talhadas, ex-operária da CUF, sublinhou que na construção desse futuro tem de se ter “presente os erros do passado, para que não se voltem a repetir”. Defendeu um futuro que assente no respeito de todos os intervenientes: “população, trabalhadores, empresas autarquias e governo”, com o objectivo de “proteger a qualidade de vida dos cidadãos, o progresso, o crescimento económico, a saúde, a cultura e o ambiente”. Considerando que a “industrialização” no Barreiro deixou uma “herança pesada ao nível da destruição causada à Natureza”, considera importante dizer: “hoje, no século XXI, que apesar da necessidade da defesa de postos de trabalho, temos também a obrigação de defender o ambiente” e por isso fala na necessidade de as empresas serem “ambientalmente seguras”.

“As empresas do futuro terão de saber, que valorizar o trabalho é apostar na qualidade do emprego”

Ercília Talhadas considerou também que “todo o investimento no Barreiro, bem como todos os empresários devem ter em conta a realidade do mundo actual”, defendendo “uma ordem mais justa e equilibrada”, perante o processo de globalização que se “estende para fora da simples esfera económica”. Defende ainda que “o investimento no Barreiro do futuro tem de ter em conta, o pleno aproveitamento das potencialidades tecnológicas, mas não pode esquecer que a força do trabalho é determinante”, o que chama de “conceito de cidadania” e “direito universal” e considera: “As empresas do futuro terão de saber, que valorizar o trabalho é apostar na qualidade do emprego”.

No período das intervenções, alguns antigos trabalhadores da CUF não deixaram de fazer referência à importância que a empresa teve na expansão do Barreiro e lembraram a luta dos trabalhadores pela requalificação de categorias profissionais, pelos aumentos salariais, pela contratação colectiva. Direitos que a Revolução de Abril facilitou, mas que “não foram fáceis” de conseguir, manifestaram.

De sublinhar ainda que vai estar patente até ao dia 25 de Maio, no primeiro andar da “Sociedade Cultura e Recreio 1º de Agosto Paivense” a Exposição referente aos 100 Anos de Luta e Resistência na CUF-Barreiro.

Andreia Catarina Lopes

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