Cooperativa Cultural Popular Barreirense“A C.U.F não tendo fundado o Barreiro, constitui para o bem e para o mal uma marca indelével da sua modernidade”
No passado dia 17 de Outubro, realizou-se no Cooperativa Cultural Popular Barreirense (CCPB), o debate: “O Paradigma Industrial: a CUF no Barreiro, Realidades, Mitos e Contradições”. O segundo de três encontros que fazem parte da iniciativa “O Barreiro e a CUF não nasceram há 100 anos: e agora, que futuro?”, promovida pela CCPB e pelo Movimento Barreiro, Património, Memória e Futuro.
Na sessão falou-se de grandes mitos sobre a C.U.F, ao que foi sublinhado o facto de antes da chegada da C.U.F, o Barreiro já ter fábricas, como a dos biscoitos ou da cortiça, assim como a importância dos caminhos-de-ferro.

Por Jornal Rostos
“No Barreiro a indústria vem do século XIV”
No debate os oradores convidados foram: António José Ferreira, Armando Teixeira e Carlos Alberto (Carló). Armando Teixeira, autor de cinco livros sobre a C.U.F, falou de grandes mitos construídos à volta da C.U.F. Sobre o primeiro, reiterou: “O Barreiro não nasceu da C.U.F” e sublinhou: “No Barreiro a indústria vem do século XIV” e realçou o papel dos caminhos-de-ferro e das fábricas de cortiça. Quanto à ideia de que Alfredo da Silva seria “amigo dos trabalhadores e inimigo dos sindicatos”, lembra a dualidade entre “paternalismo e exploração” existente na fábrica, da política de baixos salários e benefícios sociais, que diz que construíram um “exército de reservas de mão-de-obra para utilizar baixos salários”. O que diz ter conduzido ao descontentamento dos trabalhadores, às reivindicações, à de 1919 pelas luta pelas oito horas de trabalho e recorda simultaneamente que os “sindicatos praticamente não existiam na altura”. Outro mito de que falou seria a de “que Alfredo da Silva não se dava bem com Salazar”, ao que realça que “o regime fascista, constituído por Salazar, estava de braço dado com os monopólios”. E mesmo referindo que se tratavam de personalidades diferentes “suportavam-se um ao outro”, sublinhou.
“A revolução Democrática não apanhou de surpresa os trabalhadores”
Sobre a luta dos trabalhadores, sublinha que resultou da constatação das suas condições de trabalho e não do mito de que a “culpa seria da ideologia importada a soldo do inimigo estrangeiro”. Nesse âmbito, recordou o ano de 1943 e da maior luta revolucionária no Barreiro, um luta de massas que diz corresponder ao “sentimento da população”. Outro mito que diz existir é o de que “Na C.U.F havia trabalho para todos, numa obra comum e em benefício de todos”, como sendo uma família, ao que recorda o trabalho “duríssimo” e que só “os mais fortes interessavam” para trabalhar, ao que sublinha: “os praticantes desportivos eram logo seleccionados”. E sobre a obra comum, comenta: “a obra comum vai-se construindo, mas a fábrica é madrasta para alguns”. Do mito da “Família C.U.F”, sublinha que “nunca houve nesse período sindicatos livres, mas há em contrapartida uma extensa rede de ‘bufos’” e recorda a repressão, as prisões e os despedimentos sem causa. O último mito de que falou foi a respeito da ideia de que os anos 60 foram anos de ouro do capitalismo em Portugal e de que a paz social veio com a Primavera Marcelista, ao que lembra a intensificação das lutas dos operários nesse período e terminou, frisando: “A revolução Democrática não apanhou de surpresa os trabalhadores”.
“Carló” - “um habilidoso e exímio jogador de futebol”, cuja paixão actual é a escrita
Carlos Alberto, conhecido por “Carló”, foi trabalhador da C.U.F, secretário Geral do Grupo Desportivo da C.U.F e Quimigal, membro da Junta de Freguesia do Barreiro e presidente da Assembleia da Junta de Freguesia do Alto do Seixalinho. Foi apresentado como “um habilidoso e exímio jogador de futebol”, cuja paixão actual é a escrita, tendo escrito o livro: “Peões no Xadrez Imperial da C.U.F”, que retrata a vivência dentro e fora das fábricas da C.U.F.
C.U.F “fez a mais exemplar terra de trabalho e de luta”
Carlos Alberto, não deixando de falar na importância do investimento de Alfredo da Silva no Barreiro, sublinhou o papel dos trabalhadores “de qualidade excelente”, que considera que tem sido “ofuscada de forma injusta”. Frisou ainda que o Barreiro não nasceu da C.U.F, ao que fez menção, entre outros aspectos, à indústria de biscoitos, às linhas-férreas e às fábricas de cortiça existentes. Da vinda da C.U.F para o Barreiro sublinha que “teve os seus impactos”, uns maus, como as implicações ambientais, a “intensa exploração dos trabalhadores” e outros que diz terem sido importantes como o enraizar do associativismo e corporativismo, ao que comenta: “fez a mais exemplar terra de trabalho e de luta”. Falou de lutas operárias, da Comissão de Trabalhadores, mas também do paternalismo e regalias sociais que diz não terem sido “inocentes”, ao que comenta: “mantinha a fidelização dos operários às fábricas pela satisfação das suas necessidades”. E falou na falta de uma estátua que preste a homenagem ao operário barreirense.
“A C.U.F não tendo fundado o Barreiro, constitui para o bem e para o mal uma marca indelével da sua modernidade”
António José Ferreira, licenciado em filosofia e professor na Escola Secundária de Santo André e co-fundador da secção do PS no Barreiro em Abril de 74, começou por sublinhar a pertinência do tema em debate: “A C.U.F foi uma realidade tão imperativa no nosso concelho”. Ambos os seus avós foram funcionários da C.U.F, contando que a um deles “foi a fábrica que lhe colheu um braço”. Por isso não esconde que a sua infância e juventude está ligada à C.U.F: “nasci e praticamente cresci dentro da fábrica”. As memórias foram sendo desfloradas e algumas palavras surgiam, como: operários, cabines, apalpadeiras, rivalidades, laços de amizade. Recordou ainda o tempo na colónia de férias e a divisão que através das cores se fazia às crianças, tendo em conta a função dos seus pais na fábrica. Recordou o Grupo Desportivo da C.U.F, O TEB, os Carnavais da época, a SFAL do Lavradio. E a terminar sublinhou: “A C.U.F não tendo fundado o Barreiro, constitui para o bem e para o mal uma marca indelével da sua modernidade” e acrescenta: “Sem a C.U.F de exploração e intimidação, não tinha surgido a luta que levou ao 25 de Abril”.
Andreia Catarina Lopes













