A CUF foi fundamental nos últimos 100 anos de vida do BarreiroOs trabalhadores eventuais são um equívoco histórico na CUF Barreiro
“Escrevi este livro porque me cansei de ouvir dizer mal da CUF, sobretudo dizer mal de uma forma pouco fundamentada, dizer mal apenas porque há uma ideia, ou havia uma ideia no ar, que isto era uma coisa muito fascista que só fizeram mal aos trabalhadores. Cansei-me um bocado deste discurso patético e pateta” – sublinhou Jorge Morais.

Por Jornal Rostos
Tendo como tema : «Um encontro com as memórias da CUF no Barreiro e Alfredo da Silva» realizou-se na SFAL – Sociedade Filarmónica Agrícola Lavradiense um debate que contou com a participação dos jornalistas barreirenses Fernando Sobral e Jorge Morais.
Fernando Sobral foi um dos autores da obra “Alfredo da Silva a CUF e o Barreiro”, obra editada no âmbito do centenário da CUF.
Jorge Morais é o autor da obra “Rua do Ácido Sulfúrico – Patrões e Operários: um olhar sobre a CUF do Barreiro”, obra editada no âmbito das comemorações dos 100 anos da CUF no Barreiro.
A CUF foi fundamental nos últimos 100 anos de vida do Barreiro
Fernando Sobral recordou que o livro editado foi o resultado de um projecto jornalístico com o objectivo de assinalar os 100 anos da CUF, tendo por finalidade – “entender a importância da CUF no Barreiro e na evolução do Barreiro”.
Foi um livro “agradável de fazer” sublinhou, porque viveu no Barreiro, “desde que nasci” e “o meu pai, o meu avô e o meu bisavô foram trabalhadores da CUF”.
Referiu Fernando Sobral que ele próprio é da “primeira geração das pessoas que não trabalharam na CUF” como muitas pessoas da sua idade.
Na sua opinião a sua geração, que nasce nos finais dos anos 50 princípio dos anos 60, é aquela que fez a ruptura com a “história da CUF”.
Fernando Sobral, salientou que a escrita do livro proporcionou-lhe a descoberta de muitas coisas que desconhecia sobre o Barreiro, referindo que existem aspectos por abordar, nomeadamente a importância e o papel do sector anarquista no Barreiro, anterior aos anos 30 do século XX.
“A CUF foi fundamental nos últimos 100 anos de vida do Barreiro” – sublinhou Fernando Sobral.
A CUF é um objecto da história
Jorge Morais, começou por referir que – “demorei a escrever este livro 53 anos” o seu tempo de vida, salientando que este “é um livro do coração, é um livro com que eu nasci, é uma história com que eu nasci”. Recordou que seus pais, avôs e muitos familiares seus foram trabalhadores da CUF e que frequentou a Escola da CUF – “conheci a CUF por dentro desde criança”.
“Procurei que este livro fosse do ponto de vista historiográfico exacto, que os factos estivessem correctos” – sublinhou, acrescentando que este é um livro que – “reflecte o meu próprio sentimento em relação à minha memória da CUF no Barreiro”.
“Escrevi este livro porque me cansei de ouvir dizer mal da CUF, sobretudo dizer mal de uma forma pouco fundamentada, dizer mal apenas porque há uma ideia, ou havia uma ideia no ar, que isto era uma coisa muito fascista que só fizeram mal aos trabalhadores. Cansei-me um bocado deste discurso patético e pateta” – sublinhou Jorge Morais, referindo que – “a CUF é um objecto da história, como tal deve ser tratado com serenidade, com profundidade e com factualidade”.
A política social da empresa
Jorge Morais salientou que “não quis fazer uma história da CUF”, pretendeu apenas fazer “um guião, acessível para corrigir o exagero em que se estava a cair em relação à memória da CUF”, nesse sentido salientou que centrou o livro naquele que considera ser o aspecto mais positivo da história da CUF – “ a politica social da empresa” que começou em 1907, com a construção do primeiro Bairro Operário.
Na sua intervenção, sublinhou que Alfredo da Silva na sua formação, adoptou modelos político-sociais, enquadrados na política social da Igreja do Papa Leão XIII e da Alemanha do século XIX – “era essa a sua ideologia”.
“Era autoritário. Era. No seu tempo não tinha sido, isto é, no seu tempo era esse o padrão comportamental” – salientou.
Os trabalhadores eventuais um equívoco histórico
Jorge Morais, referiu que no seu livro procurou corrigir um erro que se insiste no Barreiro, que são “os trabalhadores eventuais”, dos quais se diz que eram despedidos aos sábados no balão e que viviam em bairros degradados, na sua opinião – “é preciso saber de que trabalhadores estamos a falar”.
“Do ponto de vista da história este é o equívoco maior que ocorre sobre a CUF no Barreiro” – sublinhou.
Recordou que a CUF tinha uma politica de emprego que nunca suportava mais que 10 mil trabalhadores, no seu período mais áureo, antes desse período tinha em média entre 5 a 7 mil trabalhadores.
Jorge Morais, referiu que em actividades de produção sazonal, como os adubos, que aumentava a produção, nesta situação existiam lugares vagos, por uma semana, por um mês ou por 3 meses.
“Esses homens não entravam para os quadros da CUF, ou alguns entravam ao longo dos anos, porque havia sempre uma vaga residual de cerca de 11%. Em cada 100 trabalhadores que se candidatavam à CUF, cerca de 89 não conseguiam entrar, mas viviam na expectativa de conseguir um lugar na CUF”- sublinhou.
“Esta grande massa a que chamam trabalhadores da CUF, não são trabalhadores da CUF. São pessoas que vêem das Beiras, do Algarve, do Alentejo, na esperança de serem trabalhadores na CUF” – acrescentou Jorge Morais.
Recordou que estes trabalhadores não beneficiam das políticas sociais da empresa, não têm emprego fixo, não têm direito a férias, não têm direito a morar nos Bairros Operários da CUF.
“Quando se diz que havia uma multidão de gente a viver miseravelmente trabalhando para a CUF, isso não pode ser dito assim, isso não é verdade. Porque, os trabalhadores da CUF, aqueles que pertenciam à empresa e aos quadros, viviam bem, viviam melhor que a generalidade dos trabalhadores da indústria em Portugal” – salientou Jorge Morais.
Pioneira no combate à poluição atmosférica
No decorrer do debate foram abordados diversos aspectos da vida da CUF e da CUF no Barreiro, sendo recordado que a CUF foi uma empresa que assumiu desde sempre a sua actividade com “responsabilidade de empresa” e com uma politica de “valorização social dos trabalhadores”.
Foi referenciado que nos ano 1966 a CUF foi pioneira, em Portugal, no combate à poluição atmosférica.
A reflexão também abordou aspectos do urbanismo dos Bairros da empresa, enquanto vector estruturante da caracterização social.
A dimensão da ciência e da tecnologia na CUF, as relações da CUF com o estado, foram alguns dos temas abordados, sendo reconhecido que – “ a CUF foi o coração da indústria portuguesa”, sendo o seu papel insubstituível “na nossa revolução industrial muito tardia”.
S. P.
BREVE REGISTO













