Exposição “Irmãos Rezende: Barreiro a preto e branco no início do séc. XX” evoca “vivências, sensibilidades e obras colectivas”
Fotografias a preto e branco dão conta de uma época. Pintam quadros do início do século XX no Barreiro. Fotografias que contam histórias. Falam, em surdina, de homens e mulheres, como Arlete Firmino, num retrato em que ganhou o prémio da rapariga mais bonita do Barreiro em 1926; ou de locais, como uma fotografia do Estúdio de Artur Rezende, na Avenida da Bélgica, que é hoje a Avenida Alfredo da Silva.
Uma exposição que é um espaço para as memórias de uma terra. E muitas são as memórias que Maria José Rezende Picoito guarda do seu avô, João Rezende. E de olhos brilhantes, onde marejava a felicidade, mostrava orgulhosa o seu retrato, quando tinha seis anos, pintado pelo seu avô.

Por Jornal Rostos
A exposição dos irmãos Rezende evoca as memórias do início do século XX no Barreiro, onde não faltam fotografias de ruas e locais, de pessoas, de instituições. Da história que se compõe com fotografias a preto e branco, que despertam sensibilidades. Já na entrada, onde se revela uma maquete do antigo estúdio dos irmãos Rezende, na Rua Heliodoro Salgado, Maria José Resende Picoito, de 79 anos, neta de João Rezende, recordava: “lembro-me até dos dois tostões que a minha mãe me pagava para eu esfregar a escada que está ali”.
“Era um autodidacta”
E numa visita pela mostra, detém-se junto do quadro: “A Primavera abrindo a porta ao Verão”, e deixa suspensa a frase: “aqueles verdes…” e nada mais diz, a não ser o que se lhe revela nos olhos. A felicidade. O prazer de ver algo que a encanta. “Era um autodidacta”, diz para falar do avô. “Era fragateiro e veio para o Barreiro e fez muita coisa maravilhosa”. E ao evocar essa palavra, logo quis mostrar um outro quadro, dos seus preferidos, o Auto-retrato. E ao cruzar o olhar, lembrou as lides enquanto cenógrafo e artista decorador: “ele é que fazia as festas nos Penincheiros”. Sendo a maior obra, em trabalho e dimensão, a pintura dos tectos da sala de espectáculos da Casa dos Ferroviários, com cenas típicas do Barreiro, como o barco de pesca: “a muleta”.
Mostra também orgulhosa o seu retrato, quando tinha seis anos. E ali suspenso na parede, apresenta-se o retrato de Maria José Resende. E, ao lado, uma fotografia sua, também em criança e recorda: “quando vinha cá o Governador Civil, chamavam-no para fazer a reportagem.”
“Photographia Rezendes”
João Rezende, era natural de Ovar, onde nasceu em 1883 e veio para o Barreiro com cerca de 20 anos. Iniciou a sua carreira como fotógrafo em 1903, intitulando-se “photógrapho amador”. Uma expressão que tinha a sua origem no grande nome da fotografia portuguesa do século XIX: Carlos Relvas, quando a fotografia era entendida como uma arte ou uma forma de pintura. No início da década de 1920 junta-se a si, no Barreiro, o seu irmão Artur que ganha também o gosto pela fotografia. E é neste período que a casa fotográfica passa a funcionar em conjunto com os dois irmãos Rezende, passando a assinar os seus trabalhos com “Photographia Rezendes”.
Uma exposição que evoca “vivências, sensibilidades e obras colectivas do concelho”
Na inauguração de uma exposição que retrata o Barreiro no início do século XX, o presidente da Câmara Municipal do Barreiro (CMB), Carlos Humberto, disse ser evocativa não só dos irmãos Rezende, mas também de “vivências, sensibilidades e obras colectivas do concelho” e “evoca também uma época, um passado e uma maneira de estar e viver que marcou o século XX”. Considerando que “não há presente, nem futuro, se não tivermos em conta o nosso passado”, disse ser “responsabilidade do município, não permitir que se apague o passado colectivo”, assim como “dá-lo a conhecer”. E quanto ao futuro do Barreiro, diz passar por “um concelho dinâmico, atractivo para trabalhar e viver”.
O edil barreirense elogiou ainda a “forma empenhada e criativa” do Gabinete de Arquivo e Gestão Documental da CMB na elaboração da exposição e agradeceu a “colaboração e cooperação dos familiares dos irmãos Rezende” para a sua concretização.
A mostra de fotografias e peças dos ateliers fotográficos vai estar patente na Galeria Municipal de Arte até 30 Maio.
Andreia Catarina Lopes













