Dia Mundial da Poesia no BarreiroLançamento do livro: “Pensamentos de uma Vida”, de Antónia Alves
Enche o peito e deixa a alma cantar. Um canto que fala da beleza das coisas. Que fala da vida sentida. Um canto de quem tem pela poesia uma tal paixão que, mesmo sem querer, sai-lhe a voz em verso. Tem 92 anos. No corpo, as marcas do tempo. Na voz, a formosura das palavras. Dos sentimentos despertos. E o dom da “festa suprema da língua”. A poesia, como lhe chamava Eugénio de Andrade.

Por Jornal Rostos
No Dia Mundial da Poesia, a vereadora da Cultura da Câmara Municipal do Barreiro (CMB), Regina Janeiro, expressou: “através de si, homenageamos todos os poetas”. Sob o título: “Pensamentos de uma Vida”, o livro que foi hoje dado a conhecer reúne um pouco dos “milhares de poemas” de Antónia Alves. Ao que Paula Franco, directora Técnica do Centro Social Padre Abílio Mendes, revela: “são poemas que andámos a roubar às escondidas dos seus livros”.
“Pensamentos de uma Vida”
Na obra “Pensamentos de uma Vida”, Antónia Alves fala dos poetas: “Todos somos poetas/Se a vida soubermos contar”. Fala do Barreiro: “Cidade amiga/Eu te quero agradecer, /Ter feito aqui a minha vida/E aqui poder estar até morrer”. E não esquece as suas origens no Alentejo: ”Correndo pelas campinas/Com os meus cabelos ao vento, /Brincava menininha/Sem nada no pensamento”.
“A poesia para mim é tudo, mesmo que não queira, faço tudo em verso”
Antónia Alves tem 92 anos, feitos a 23 de Novembro. Nasceu em Vila Nova da Baronia, freguesia do Baixo Alentejo, mas veio para o Barreiro com 18 anos, onde casou com um barreirense, de nome Américo Alves. E é assim que se apresenta: “Fui cabeleireira, costureira, fiz dez anos de enfermagem caseira e sou poetisa”. Da sua paixão pela arte das palavras diz: “é uma coisa que nasceu comigo” e prossegue: “a poesia para mim é tudo, mesmo que não queira, faço tudo em verso”. Os versos que cria sem qualquer esforço, saem-lhe com a maior naturalidade e pureza. E para além das palavras, diz gostar do “palco e da música”, ao que confessa: “gostava de tocar violino”. E logo a voz se compõe: “Violino improvisado/Desta velhinha senhora/Mãozinha de coçar/E cabo da vassoura”.
“Ser Poeta é…”
Confessava-se “nervosa” pela concretização de um sonho. “Não esperava isto”, revelava. Mas a tarde trouxe mais surpresas. Uma canção de título “Alentejo”, com letra da sua autoria, cantada pelos seus pares e a neta, Sandra Alves, leu um poema da sua avó que diz o que é “Ser Poeta”. Um poema do sonho de uma vida: “Quando acabei de nascer/Ali naquela hora certa, /Ouvi uma voz dizer/Na vida serás ‘poeta’//E assim fui crescendo/Numa brincadeira certa/Mas nunca pensando/Vir a ser poeta. //Um dia pus-me a escrever/Com pensamentos diversos, /E depois de tudo ler/Vi que tinha feito uns versos.”
“Nem só de triste se chora”
A nora, Maria Joaquina, conta que Antónia Alves começou a escrever com mais frequência a partir dos 65 anos, depois de o marido ter falecido “pois o tempo era difícil de passar”. Dona de uma grande sensibilidade, as lágrimas, às tantas, já pareciam querer fazer-se sentir, mas logo dizia: “Nem só de triste se chora”. E na oferenda de um ramo de flores com espigas que lhe lembraram “do seu Alentejo”, disse logo ser essa uma outra paixão, o que vai ao encontro de um poema seu, chamado “Um Desejo”: “Gostava de ser uma borboleta/Com asas de muitas cores, /Para ir para o jardim/Alimentar-me das flores//Sejam Cravos ou sejam Rosas/Malmequeres ou Jasmins, /Todas elas maravilhosas/Serão deliciosas para mim.”
Andreia Catarina Lopes













