Barreiro - Debate na ESSA: “Os 35 anos do 25 de Abril”“O que Abril nos trouxe, não pode ser esquecido”
Hoje, pela manhã, a Escola Secundária de Santo André (ESSA) recebeu um debate sobre “Os 35 anos do 25 de Abril”. E nas vésperas de se assinalar os 35 anos da Revolução dos Cravos, a iniciativa juntou diferentes gerações e encheu o auditório da escola. André Pinotes Baptista, jovem barreirense de 25 anos; Hélder Madeira, o primeiro presidente da Câmara do Barreiro eleito depois do 25 de Abril e o Coronel Mário Tomé, militar de Abril, deram a sua visão desse momento emblemático da histórica portuguesa. E falaram sobretudo das conquistas de Abril. Em que se destacou a liberdade.
E perante uma plateia de jovens, chamou-se a atenção para a importância do papel de cada cidadão na sociedade, do despertar de consciências e da preservação da história, ao que Hélder Madeira reforçou: “O que Abril nos trouxe, não pode ser esquecido”.

Por Jornal Rostos
“Grândola, vila morena/ Terra da fraternidade/O povo é quem mais ordena/Dentro de ti, ó cidade”. Foi ao som da melodia de Grândola Vila Morena, a canção de Zeca Afonso, que foi a segunda senha de sinalização da Revolução, que o debate na ESSA começou. António José Ferreira, professor de filosofia na ESSA há 30 anos, abriu as hostes e recordado a data de 25 de Abril de 74, “uma madrugada de quinta-feira de chuviscos”, diz ter sentido que “a história estava a bater à porta”. Uma data que diz ter sido importante não só para Portugal, mas para a Europa e para o Mundo: “das três ditaduras de direita na Europa (Portugal, Espanha e Grécia), Portugal deu o tom para acabar e depois também acabou a Guerra Colonial e assim terminou o ciclo da descolonização.” E para o debate, lançou a questão: “O que foi o 25 de Abril?”.
“O que Abril nos trouxe, não pode ser esquecido”
Hélder Madeira, que foi o primeiro presidente da Câmara do Barreiro eleito depois do 25 de Abril e que é actualmente o presidente da Assembleia Municipal do Barreiro, começou por referir “não se pode compreender o 25 de Abril, sem se saber o que aconteceu 50 anos antes”. E falou da censura, o célebre lápis azul. Do partido único. Das prisões. Da tortura da estátua. Dos livros proibidos. Dos “campos de concentração em Cabo Verde e no Tarrafal”. Da “frigideira”, “um cubículo de chapa de ferro onde as pessoas desidratavam e morriam”. E depois falou nas “conquistas de Abril”. Na liberdade. Na liberdade de expressão, de imprensa. Da greve. Das eleições livres. Na formação de partidos e expressou: “O que Abril nos trouxe, não pode ser esquecido. Se compararmos o antes com o depois, acho que devemos dizer: ‘Viva o 25 de Abril’”.
Barreiro - “uma terra de resistência, trabalho e luta”
Do Barreiro, Hélder Madeira diz ter sido sempre reconhecido como “uma terra de resistência, trabalho e luta”. Fez menção aos corticeiros, aos ferroviários, aos operários da C.U.F e disse ter sempre existido “uma consciência colectiva”. E trazendo à memória episódios desses tempos, recordou o ano de 1967, quando o Cine Clube do Barreiro organizou um espectáculo de música e poesia, que contou com a presença de Zeca Afonso e que teve como desfecho a prisão da direcção desse espaço. E falou na “força, consciência e dinâmica” que se vivia no Barreiro
“A guerra colonial foi o catalisador do 25 de Abril”
“A guerra colonial foi o catalisador do 25 de Abril”, referiu o Coronel Mário Tomé, mais conhecido por Major Tomé. Enquanto militar de Abril, referiu que a “conquista mais importante”, que o 25 de Abril trouxe, chama-se: liberdade. “A partir daí, colocou-se outra questão, a questão da igualdade”, sublinhou. Lembrou a luta do Processo Revolucionário em Curso (PREC) e sublinhou a importância da democracia participativa. E recordou o 1.º de Maio, em que a poetisa Sophia de Mello Breyner disse: "A poesia está na rua". “Tal como a liberdade”, entendeu. E expressando: “Não se pode andar em frente, sem saber o que se passou”, defende: “Não se pode deixar morrer a memória”.
“Dá-me a impressão de que a história está-nos a bater à porta”
E quanto à defesa da liberdade, diz passar por “se fazer tudo o que permite que a liberdade se faça”. Chamando a atenção para a importância da preservação desses valores, recordou o episódio dos três alunos da Escola Secundária de Penacova que foram condenados a prestar serviço comunitário por terem encerrado os portões da escola, durante uma manifestação contra o Estatuto do Aluno. O que entende que “nos deve fazer pensar”. E face à actual situação mundial, diz: “dá-me a impressão de que a história está-nos a bater à porta”.
“Não nos podemos deixar que nos reduzam a uma geração sem ideias”
André Pinotes Baptista, jovem barreirense de 25 anos e presidente da Juventude Socialista do Barreiro, reunindo o que ouviu dizer e o que é contado pela história sobre o 25 de Abril de 74, dirigiu-se aos jovens da plateia, em jeito de analogia, e transpôs para os tempos de agora o que poderia ser um pouco do reflexo dos tempos vividos em ditadura: “Se o ‘hi5’ ou o ‘facebook’ fossem fiscalizados pela polícia, como é que se iam sentir?”. E chamando a atenção para a importância do despertar de consciências e do papel de cada cidadão na construção de um mundo melhor, comentou: “Não nos podemos deixar que nos reduzam a uma geração sem ideias”. E apelou: “Se não gostam da maneira como as coisas estão, interessem-se pela política, que não vão deixar de ter a vossa idade. Sejam exigentes” e reforçou: “o interesse pela política é mais do que partidarizar”. Ao que sublinhou a importância de se reflectir e questionar as coisas do mundo. Ou não fossem os jovens de hoje, os adultos de amanhã.
Andreia Catarina Lopes













