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Perspectivas

Cooperativa Cultural Popular BarreirenseNo Dia Mundial do Livro Glória Bastos falou sobre o valor social e cultural do livro

“A transformação de uma sociedade mais leitora e a transformação da passagem do livro material para o digital”

Ontem, Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor, realizou-se na Cooperativa Cultural Popular Barreirense (CCPB) um colóquio com a escritora barreirense Glória Bastos sobre o valor social e cultural do livro. Uma iniciativa em que a escritora disse estarmos perante duas mudanças: “a transformação de uma sociedade mais leitora e a transformação da passagem do livro material para o digital”. E em que se realçou a importância da leitura na formação de cidadãos esclarecidos e mais activos e participativos.

A escritora sublinhou ainda a importância da preservação dos livros, das raridades, como marcas da história que permitem conhecer a humanidade, o seu contexto histórico e construção social.

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Cooperativa Cultural Popular Barreirense No Dia Mundial do Livro Glória Bastos falou sobre o valor social e cultural do livro

Por Jornal Rostos

A sessão que teve como objectivo assinalar o Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor e saudar os escritores e livreiros que apostam em divulgar livros sobre o Barreiro, teve início com uma mostra musical dos músicos Carlos Santa Clara e João Vitorino, ao som do violino e da guitarra.

Glória Bastos, escritora barreirense, é professora auxiliar do Departamento de Ciências da Educação da Universidade Aberta, doutorada em Estudos Portugueses (2003), com uma tese sobre a literatura dramática para crianças e é colaboradora na Rede de Bibliotecas Escolares. A sua actividade de investigação tem privilegiado questões ligadas ao ensino da literatura e à problemática do livro infantil e juvenil.

“A transformação de uma sociedade mais leitora e a transformação da passagem do livro material para o digital”

No Colóquio, Glória Bastos lançou algumas reflexões sobre o livro, ao que referiu que se assiste hoje a duas mudanças: “a transformação de uma sociedade mais leitora e a transformação da passagem do livro material para o digital”. Referindo que o processo de leitura está hoje em transformação, adverte: “mais uma que a história do homem conhece”, ao que lembrou a primeira transformação do livro, através da passagem dos rolos para códex nos séculos II e IV. E face a essas transformações, diz assumir uma “perspectiva optimista”, ao que expressa: “podemos fazer juízos de valor sobre estas alterações, mas não devemos fazer só pelo suporte em si, mas pelas utilizações e vantagens que nos dão” e dá o exemplo do facto de a Biblioteca digital da UNESCO estar em on-line, o que possibilita o acesso a textos “do outro lado do mundo”.

O livro objecto e o digital

Falando de como os leitores se posicionam, ao assumir essa nova materialidade da leitura, refere que através do computador, no digital, o livro, que deixa de ter paginação e dimensão, permite ao leitor “maior intervenção no texto”, o que diz que no livro objecto apenas é permitido através da leitura. Mas não deixa de lembrar que o digital, ainda que permita que a informação esteja acessível a um número mais alargado de pessoas, também coloca questões aos Direitos de Autor, face à possibilidade dessa intervenção do leitor e chama a atenção para o facto de “o olho humano ainda ter muita dificuldade em ler no ecrã”.

“Ainda nos caracteriza a apetência pelo livro objecto, desde tenra idade”

Quanto aos receios sobre o futuro do livro, enquanto objecto, sublinhou: “Quando em 2009 há uma exposição (na Biblioteca de Camões) sobre raridades, quer dizer que ainda somos capazes de fazer o reconhecimento sobre a importância do livro”. E considera: “ainda nos caracteriza a apetência pelo livro objecto, desde tenra idade”. No entanto, considera que a área da chamada “literatura cinzenta” (os textos mais científicos) vai acabar por viver em formato digital. Entende por isso que a existência dos dois suportes surge para fins diferentes.

Importância da leitura na formação de leitores para a construção de uma sociedade mais participada

Não deixou de sublinhar a importância da leitura na formação de leitores para a construção de uma sociedade mais participada, com maior intervenção activa, permitindo “maior capacidade de agir na vida social e esfera pública”. “Quem domina a leitura e o texto escrito tem muito mais informação, o que acaba por seu um sinal de poder inequívoco”, sublinhou. E enquanto membro da Comissão Cientifica do Plano Nacional de Leitura, lembrou que os estudos realizados revelam uma evolução positiva relativamente aos hábitos de leitura em Portugal, o que diz também acontecer devido às mudanças do contexto histórico, assim como os ganhos, nas últimas décadas, em termos de acesso à cultura e educação. Entende ainda que nesse aumento há que ter em conta o surgimento das Bibliotecas Públicas na década de 80 e das Bibliotecas Escolares em finais da década de 90.

“Para se conhecer a história do livro e com ela o papel da leitura na construção da humanidade”

Na sua intervenção, falou ainda das raridades bibliográficas existentes na Rede de Bibliotecas de Lisboa, que têm depósito legal desde meados do século XIX. Elementos importantes “para se conhecer a história do livro e com ela o papel da leitura na construção da humanidade”, sublinhou. E, nesse âmbito, falou da Biblioteca de São Lázaro que reúne uma colecção de livros infantis antigos, o que diz ser raro. Sobre a história literária infantil diz que se inicia em Portugal no século XIX e que “não houve o cuidado da preservação do livro infantil como houve na literatura adulta e rapidamente se transformaram em raridades”. Mas sobre estas obras, diz serem “marcas de uma época em que são produzidas” e como tal, sublinha que “através da história infantil, vemos como se projectava o cidadão que se desejava construir”

“A imagem é importante mas às vezes transforma-se em ruído ou um elemento decorativo”

No que toca à relação da imagem com a leitura, na formação dos leitores, como mais uma forma de trazer conhecimento, a autora, reconhecendo que nos tempos actuais os livros infantis têm mais imagens, adverte para o facto de que “muitas vezes o livro se assumir como um espaço de imagem”, o que diz acarretar consequências em termos de leitura e se, por um lado, pode tornar-se mais apelativo, entende: “a imagem é importante mas às vezes transforma-se em ruído ou um elemento decorativo”.

“Torna possível um mundo mais justo onde se lê mais para se poder intervir melhor”

A vereadora Regina Janeiro, responsável pelo Departamento de Acção Sócio-Cultural (DASC) da Câmara Municipal do Barreiro (CMB), realçou a importância da iniciativa que assinala o Dia Mundial do Livro, levada a cabo pela CCPB que diz reflectir a “dinâmica que é característica do movimento associativo”. E da iniciativa, disse que tal como quando se termina a leitura de um livro “ficámos mais ricos e ficamos com a sensação de que nos soube a pouco”. E na sua intervenção utilizou algumas frases de alunos das escolas do Barreiro que falam sobre o que é o livro. “O livro ensina-nos a escrever.” “É uma porta para a descoberta”. “São histórias que se tornam realidade”. Enquanto vereadora e mãe diz ter a percepção “de que as crianças têm uma relação mais forte e íntima com o livro”, o que diz ser fruto o trabalho das Bibliotecas Escolares e do Plano Nacional de Leitura, e que diz reflectir-se também no aumento do número de autores de livros infantis e expressou: “torna possível um mundo mais justo onde se lê mais para se poder intervir melhor”.

Importância, a par da evolução tecnológica, da evolução mental

No debate que se gerou sobre o livro, “a extensão da memória e da imaginação”, como chamou o escritor Jorge Luís Borges, falou-se também da importância, a par da evolução tecnológica, da evolução mental e do equilíbrio da utilização dos meios e suportes de leitura, fundamentalmente nas crianças, o que passa pela mediação dos adultos. E na formação dos leitores, chamou-se a atenção para a importância da diversificação do género de leituras nas escolas. Sem se esquecer a importância da leitura e do papel do livro, enquanto elemento de distracção, que permite o conhecimento do mundo e a sua intervenção nele. E sem se esquecer do prazer de desfolhar um livro.

De sublinhar que até, amanhã, dia 25 de Abril, se realiza na CCPB uma Feira/Mostra de livros sobre o Barreiro, das 10 às 19 horas.

Andreia Catarina Lopes






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